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AUTOBIOGRAFIAS

Helena Meirelles Resende

A história que vou contar abaixo não é sobre mim, mas sobra a minha bisavó, Helena Meirelles Resende, que faleceu em 1936 e nunca foi lembrada pelas lutas travadas em prol a liberdade da mulher. Antes, vou falar sobre mim: sou filho de José Antônio Nascimento e Lígia Verrocchio (neta de Helena) e me chamo João Augusto Nascimento, nascido em 31 de julho de 1977. Tenho duas irmãs mais novas, Maria Eduarda, nascida em 1979 e formada em administração pela USP e Maria Antônia, nascida em 1985, que atualmente faz faculdade de economia. Sou formado em história pela UFMS e dou aulas no interior do estado, tentando escrever meu primeiro livro. Helena Meirelles Resende provavelmente nasceu no dia 15 de fevereiro de 1902, em Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. Ela foi abandonada no convento Santo Agostinho dois dias depois, onde cresceu amparada pelo carinho das freiras. Apesar da educação religiosa, Helena sempre sonhava em ir embora do convento para viver um grande amor. Aos 12 anos, ela se apaixonou pelo seminarista Bartolomeu Dias e os dois tiveram um caso durante seis meses, que foi descoberto pela madre superiora e culminou na expulsão de Helena do convento e Bartolomeu, que pertencia a uma família rica, foi enviado a Portugal para lá tentar ser padre novamente. Helena ficou malvista na sociedade de Florianópolis, e por isso decidiu ir para São Paulo, atraída pelas propostas de trabalho. O amor, que antes era visto como a base da sociedade para Helena, ficou em segundo plano pela atitude que tiveram com ela quando se apaixonara por Bartolomeu, e por isso casou-se aos 14 anos com o humilde sapateiro João Henrique Prestes, 21 anos mais velho, pois achava que assim teria uma vida normal e enfim seria feliz. Durante oito anos, ela teve quatro filhos: em 1917, quando tinha 15 anos, nasceu Vitória Resende Prestes, em 1919, aos 17 anos, teve Luiz Fernando Resende Prestes, no ano seguinte, teve João Augusto Resende Prestes e em 1925 teve Sophia Resende Prestes, minha avó. Aos 24 anos, Helena percebeu que jamais seria feliz caso continuasse casada com João Henrique, e por isso decidiu ir a busca de seu grande amor. Em 1927, quando ela tinha apenas 25 anos, fugiu com o pintor Inácio Ferraz, de 18 anos, para Paris, onde ele sonhava em estudar pintura. Helena levou seus quatro filhos com ela, causando a ira de seu marido. Durante a viagem de navio para a Europa, Helena perdeu o terceiro filho, João Augusto, vítima de difteria, deixando-a muito abalada. Ela permaneceu em Paris durante um ano, onde aprendeu a ler e escrever francês. A situação precária em que ela se encontrava era pior que no Brasil, e Inácio entregou-se à bebida quando percebeu que jamais seria um pintor se não tivesse dinheiro para estudar. Após seis meses na capital francesa, Luiz Fernando contraiu pneumonia e Helena decidiu voltar Brasil, fato que se realizou apenas no final do ano. Poucos meses depois, ela soube que Inácio suicidara-se após tomar uma dose excessiva de remédios. Enquanto isso, no Brasil, João Henrique Prestes procurava a esposa fugitiva para vingar-se dela e recuperar os quatro filhos perdidos. Após abandonar o emprego de sapateiro, parte para o Rio de Janeiro, em busca de vestígios de Helena. Helena, por sua vez, partiu para uma fazenda no interior do Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul) perto da cidade de Dourados, e começou a trabalhar como lavradora. A fazenda pertencia ao empresário italiano Francesco Verrocchio (meu avô) que naquela época estava em sua terra natal, realizando negócios em suas fazendas naquelas terras. Após um ano trabalhando arduamente, Helena decidiu que partiria para o Rio de Janeiro e tentaria a vida como professora, pois vivendo daquele jeito jamais seria feliz. Em 1929, Francesco retorna à fazenda Maria Quitéria e conheceu Helena. Os dois apaixonam-se à primeira vista e ela se torna amante dele, já que um casamento não seria bem visto por pertencerem a classes sociais diferentes. Porém, entregou-lhe o poder da fazenda e partiu para uma viagem para o Paraná, onde tinha outras fazendas. Em 1930, houve a queda da bolsa de valores de Nova York, e como a fazenda tinha como principal fonte de renda o café. Helena estava no controle da fazenda e decidiu cortar todos os pés do produto e replantar algodão no local. Tal atitude mostrou-se inusitada, mas correta e salvou a fazenda Maria Quitéria, sendo que Francesco agradeceu muito a mulher amada por toda a vida. Nesta época, a fazenda ficou muito bem falada por todo o Brasil e João Henrique, que já desistira de procurar Helena, decidiu ir para o Mato Grosso em busca de emprego. Caso ele voltasse para São Paulo, jamais reconquistaria a clientela perdida nestes anos em que ele se emprenhara em reencontrar a esposa. Em 1932, ele tornou-se empregado da fazenda e teve a maior surpresa ao encontrar Helena comandando os funcionários. Certo dia, após muitos trabalhando sem ser descoberto pela ex-esposa, ele conseguiu uma arma e quando todos os empregados se reuniam diariamente para receberem as ordens de Helena, ele atirou no ombro dela. Abelardo Corrêa, um dos empregados da fazenda, conteve João Henrique, que para não matar Helena, acabou sendo morto. Helena ficou se recuperando durante seis meses, sendo que Abelardo cuidou dela durante todo o tempo em que ela estava mal. Daí, surgiu uma nova paixão entre os dois, mas Helena procurou sucumbi-la, porque também amava Francesco e não queria magoá-lo de forma alguma. Quando ele retornou de suas longas viagens, cuidou dela tão ternamente que ela se sentiu culpada pelo sentimento de paixão por Abelardo. Porém, poucos meses depois, ele partiu para mais uma de suas viagens. Vitória, a filha mais velha de Helena, já estava com 16 anos e desde cedo mostrava interesse pela vida religiosa, decidindo ir para um convento em Cuiabá, capital do estado. Era o ano de 1933 e Helena entendeu a difícil decisão da filha mais velha, deixando-a partir Aquela atitude fê-la pensar em seu amor por Abelardo e decidiu que partiria com ele para o Rio de Janeiro. Porém, Luiz Fernando era muito fraco e sofria com a pneumonia, e com isso ela levou apenas Sophia consigo, deixando o filho na fazenda. Abelardo e Helena estabeleceram-se no subúrbio do Rio de Janeiro, vivendo precariamente. Durante os quatro anos que fora amante de Francesco, Helena lera muitos livros de variados filósofos e escrevera alguns textos, nada dignos de serem publicados. Na capital brasileira, Abelardo conseguiu um emprego de entregador de jornais enquanto Helena dava aulas particulares de francês e fazia algumas traduções. Em 1934 ela começou a participar de encontros com outras mulheres que lutavam pela emancipação feminina e passou a escrever alguns folhetins e distribuía-os por toda a cidade. Participou de algumas manifestações, liderando-as. Em 1935, começa a escrever para o dono do jornal para quem seu marido trabalhava sob o pseudônimo de Emanuel Barbosa. A polícia não ficou satisfeita com os textos produzidos por ela, mas não imaginava que Emanuel era uma mulher! Enquanto isso, Helena participava mais intensamente de manifestações em prol às mulheres, mas nunca era apontada como a líder das mesmas. Neste ano ela lança seu primeiro e único livro - Mulher, a Mãe da Sociedade - escreve algumas pequenas peças encenadas por mulheres, tendo como tema principal a igualdade de direitos entre homens e mulheres. No fim do ano, recebe a triste notícia do falecimento de seu filho, Luiz Fernando, de tuberculose. Ela soubera que ele se sentira rejeitado por ter ficado na fazenda, mas encontrara em Francesco um grande companheiro, e não resistira à doença. Em 1936, engravida pela quinta vez, e mesmo assim, continua a participar de manifestações, escrevendo no jornal e peças teatrais, dizendo a todos que finalmente encontrara a felicidade na escrita, dizendo que aquele era o momento mais feliz de sua vida. Ela sonhava em conhecer Patrícia Galvão, que também lutava pelas mulheres, mas estava presa e se tornando a primeira mulher brasileira a ser torturada pela política. Em julho de 1936, morrem três mulheres durante uma manifestação e Helena é ferida, e acaba presa. A polícia encontra alguns escritos com ela, que denunciam seu pseudônimo e seu controle sobre as manifestações. Helena é presa e durante uma visita que seu marido a fez, diz que estão a espancando e a estuprando, e que ela está com medo de perder o filho, já que está grávida de cinco meses. No dia 13 de agosto de 1936, Helena é encontrada morta em sua cela, vítima de hemorragia cerebral. O enterro ocorreu dois dias depois, a polícia alegando que ela havia escorregado e batido a cabeça nas grades. Junto com ela, morrera o bebê que ela esperava a mais ou menos seis meses, que foram enterrados juntos. Hoje se sabe que a polícia foi responsável pela morte desta grandiosa mulher. Esta é a história de minha avó, uma mulher inteligente que sempre procurou ser feliz, sem medo de abandonar marido, dinheiro, e até um filho para isso. Encontrou sua felicidade na escrita e nas manifestações, mas não é lembrada hoje em dia por não ter tido tempo de revelar qual era sua capacidade. Por favor, caso algum leitor goste desta obra, não a reproduza sem a autorização de minha família, caso queira entrar em contato, mande-me um e-mail: ryan_maia_sapieha@yahoo.com.br

Helena Meirelles Resende

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