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AUTOBIOGRAFIAS

Jaime Meira do Nascimento

AUTOBIOGRAFIA - Este pretenso trabalho literário, pela rapidez na sua elaboração, deixou muito a desejar necessitando de ampla revisão quer no seu aspecto formal quer no material, podendo ser objeto de muitas críticas e sugestões que seriam bem recebidas. Falta-lhe, verbi gratia, uma apresentação, onde o autor exporia suas pretensões e objetivos. CAPÍTULO I - O PRINCÍPIO - 1 - MEU NASCIMENTO - Nasci as vinte e duas horas e trinta minutos do dia 27 de novembro de1938, quando minha família morava em uma casa próxima ao Largo da Igreja Matriz em Álvares Machado-SP, região da comarca de Presidente Prudente-SP, antiga capital da alta sorocabana, a oeste do estado de São Paulo. Fui registrado em cartório, no dia 6 de dezembro daquele ano. Meus pais foram Manoel Graciano do Nascimento e Benedicta Leite de Meira. 2 - MEU PAI - Papai, filho de Gonçalo Graciano do Nascimento e de Maria Rosa da Conceição, natural de Ceará Mirim-RN, nasceu em 30 de abril de 1900 e em consonância com a narrativa de vovó, teria ficado órfão de pai logo após seu nascimento. Essa informação revelou-se um tanto nebulosa, pois que, vovó, chamada de "Dindinha", logo após a morte acidental do marido, segundo ela, pisoteado pelo cavalo que cavalgava, abandonando os demais familiares a quem nunca se referiu e as propriedades que o falecido, fazendeiro que ela afirmava ser, certamente lhe deixara, saiu do seu estado de origem e, de navio a velas, rumou para São Paulo com seu filho nos braços, nunca explicando o que a motivou, nem como alcançou a região de Piraju-SP. Por outro lado, mal terminou a viagem, novamente se casou e desta vez, com um paulista, nosso novo "Dindinho"; vocábulo nordestino que significa "vovô". Ao afirmar que papai era seu unigênito, em uma época na qual as mulheres sexualmente ativas, ou não tinham filhos ou os tinham acima de dez e demonstrando forte compulsão a adoção de crianças, somada à inexplicada saída do nordeste, sua estória deixou muito a desejar, suscitando dúvidas, se ela própria, era a Maria Rosa da Conceição, citada nos documentos de papai e ele, realmente seu filho. Ao contrário de mamãe alfabetizada ainda na infância, papai era semi-analfabeto, pobre, mas muito inteligente e trabalhador. Dindinha, muito autoritária, com ou sem o consentimento do Dindinho, durante sua vida, adotou à revelia, mais um menino (meu primeiro irmão) e duas meninas. Na década de 1950, voltou a enviuvar e anos depois, aos cem de idade, faleceu. - 3- MINHA MÃE - Mamãe, natural de Piraju-SP, filha de Joaquim Felippe Leite de Meira e de Andrelina Rosa Leite de Meira, nasceu em 22.Out.1902 e sua certidão lavrada 20 dias após. Não há referência sobre a família Leite, mas consta da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. XVI, Editorial Enciclopédia Limitada - Lisboa / Rio de Janeiro que a família Meira, Família de Espanha recebeu esse nome no bispado de Tuí, na Galícia. O mais antigo que se conhece é Rodrigo Afonso de Meira, Senhor do Solar dos Meiras, daí terem descido para Portugal. Ao tempo de Dom Duarte, décimo primeiro rei de Portugal (1391 a 1438), que assumiu o trono em 1433, Heitor de Meira nobre da corte, foi o tronco dos Meiras que vieram para o Brasil. Não é possível precisar quais foram os primeiros, mas é certo que Marcos de Meira e Luiz de Meira, filhos de Baltazar de Meira, vieram para o Brasil no início do século XVIII. Habitaram Serro Frio, em Minas Gerais, ramificando-se para outros estados, tais como Bahia, Paraíba, Rio de Janeiro e São Paulo, quebrando os laços de família única. O relacionamento com os demais habitantes dessas regiões explica a existência de Meiras nordestinos geralmente de cor parda e Meiras paulistas brancos que assim se mantiveram, impregnados pelo endêmico preconceito racial que imperou nos estados sulistas, até o final do século XX. Abrangendo os melhores climas e as terras mais férteis do país, inicialmente o sul foi ocupado pelas famílias portuguesas e posteriormente por outros imigrantes europeus e asiáticos que saíram de seus países em busca de novas oportunidades e não se adaptando ao clima do norte e do nordeste brasileiro, também lhe deram preferência, resultando no maior desenvolvimento dessa região beneficiada pela cultura desses povos que, contrariamente, eram avessos à miscigenação. Órfã de pai ainda menina, mamãe foi criada juntamente com suas demais irmãs e irmãos, apenas por vovó que assumindo a direção da família, permaneceu viúva e faleceu em 1944, quando todos já estavam criados. Joaquim Felippe, cognominado "Coronel", 16 anos mais velho, era tio de Andrelina e comentava-se que, inconformado com esse casamento, seu pai, o meu bisavô, sofreu forte depressão e logo morreu. O referido cognome próprio de uma classe social à época denominada coronelismo era uma reminiscência dos antigos integrantes da Guarda Nacional, criada em 1831 e extinta com a proclamação da república, cuja importância sobreviveu no país até a década de 1970, quando ainda se podia encontrar coronéis nos sertões nordestinos exercendo grande influência. As terras de meus avós eram a "Fazenda Cachoeira" situada no município de Piraju-SP onde hoje é uma área turística pertencente a terceiros. Ao se compulsar correspondências desses ancestrais, várias delas guardadas como recordação em Assis-SP, na casa do "Tio Tonico", irmão de mamãe, observava-se que as procedentes da fazenda, sem referência ao nome do município eram, exemplificativamente, assim datadas: Fazenda Cachoeira, 25 de março de l926. Dentre as relíquias do passado preservadas por aquele tio, ora falecido, podia se ver as patentes de nosso avô, consubstanciadas em vários documentos públicos que lhe concediam títulos similares à dos oficiais do exército até o do referido cognome. Tenente, Capitão etc. O inacreditável é que toda essa valiosa documentação era guardada num pequeno saco de pano displicentemente dependurado atrás de uma porta de sua casa. - CAPÍTULO II - O RELACIONAMENTO DE MEUS PAIS - 1 - O CASAMENTO - Conheceram-se e logo se casaram. O enlace foi na mesma cidade de Piraju-SP, em 25 de dezembro de l920. Manoel e Benedicta passaram a constituir uma nova família e no segundo ano depois, 1922, nasceu-lhes o primeiro filho que, em recíproca homenagem, foi batizado com o nome de "Manoel Benedito" e registrado, Manoel Benedito do Nascimento. Logo após a esse feliz acontecimento, houve o primeiro entrevero dentro da família. Dindinha, com sua obsessiva compulsão passou a exigir que esse primeiro filho lhe fosse entregue, pois era um direito dos avós, quando seu único filho se casasse. Uma tradição nordestina, provavelmente inventada por ela. Não houve quem a demovesse. Manoel, filho muito respeitoso e obediente submete-se à vontade da mãe. Apesar de todo seu sofrimento, Benedicta acabou cedendo e Manoel Benedito foi adotado e criado pela sua avó até a maioridade. Contristados, venderam o que herdaram da fazenda e foram ser lavradores em outras plagas. Outros filhos nasceram. Em 1924, Miguel Graciano do Nascimento. Em l927, Gonsalo Aparecido do Nascimento. Em 24.02.1932, Noel Meira do Nascimento. Em 28.05. 1935, Nair Rosa do Nascimento. Em 27.11.1938, eu, Jaime Meira do Nascimento. Em 21.07.1941, Riograndino Meira do Nascimento, sem falar de um aborto natural e mais três outras crianças que morreram na primeira infância (1925-1937-1945). - 2 - A ASCENSÃO SOCIAL - Não existe registro ou informações precisas sobre esses fatos, mas nos anos 30, quando já moravam em Álvares Machado, inteligente e autodidata como era, papai resolveu trocar de profissão fazendo um curso de contabilidade por correspondência em uma escola especializada, provavelmente a conhecida como "Escola por Correspondência de Vitorino Camilo Castelo Branco" que funcionava ou ainda funciona na capital do estado. Antes da segunda guerra mundial, correu um boato, segundo o qual, os estrangeiros que não se naturalizassem, especialmente, japoneses, italianos e espanhóis, ficariam sujeitos a expulsão do país. Papai que havia saído da roça e se instalado na cidade com seu escritório, começou a ganhar muito dinheiro. Munido de uma antiga máquina de escrever, "catando milho", até que aprendesse usa-la, preenchia as guias e os requerimentos de naturalização. Fila enorme se formava à porta de seu escritório. Além desse trabalho, especializou-se em contabilidade mercantil. Cuidando dos livros dos estabelecimentos comerciais da cidade, passou a ser conhecido como: O Guarda Livros. Conseqüentemente, aquele mesmo homem, até então desconhecido que muitas vezes vinha do sítio mal vestido, com um "piquá" nas costas, uma sacola de pano que os caipiras carregam quando vão fazer compras na cidade, ali ressurge trajando terno de linho branco, gravata, chapéu panamenho e uma invejável bengala completando sua indumentária, passando a ser assediado, especialmente pelas mulheres. Foi nomeado Representante de Delegado de Polícia; como tal mandava em tudo e em todos. Somente as cidades maiores, sedes de comarcas, contavam com Delegados de carreira, único com poder de presidir inquéritos e autuar criminosos em flagrante; nas demais, a autoridade era exercida por notório cidadão. Posteriormente, deixando o cargo, mudou-se para Presidente Prudente-SP e fomos morar em uma confortável casa de alvenaria, com amplo quintal, alpendre, sala de visitas, sala de jantar, cozinha, dois ou três quartos, situada na Avenida Manoel Goulart, l207, uma das principais da cidade. A casa era muito bem mobiliada, equipada com jogo de poltronas de vime, cristaleira, licoreira etc, tudo da melhor qualidade. A sede do seu Escritório também foi transferida para Presidente Prudente, no nº 706 da mesma avenida. - 3 - A SEPARAÇÃO - Inexperiente com tanto sucesso, papai caiu na armadilha preparada pela vida. Enquanto a cada dia se tornava um homem mais ilustre com o visual melhorado e mamãe ex-roçeira, simplíssima dona de casa, envelhecida, ostentando o corpo deformado pelos seus quase dez partos naturais, com as pernas demarcadas por enormes varizes, o óbvio aconteceu. Várias mulheres mais jovens intervieram em suas vidas, resultando nas brigas conjugais. Conhecendo uma jovem mulata de olhos azuis, sedenta para dar e receber amor, papai por ela se apaixonou e a fez sua verdadeira amante - teúda e manteúda. Em meados de 1941, embevecido, esqueceu-se de todos nós e foi morar com Silvina, natural do estado da Bahia. - CAPÍTULO III - A AUSÊNCIA DE PAPAI - 1 - PRIMEIRA FASE - Abandonados, fomos jogados em um pequeno salão comercial da Rua Álvares Machado, região mais periférica de Presidente Prudente onde permanecemos por pouco tempo, retornando à cidade de Álvares Machado e morando na mesma rua, na mesma esquina, em um casebre em frente à casa onde papai havia montado seu primeiro escritório. Para sobrevivermos, já que papai parou de nos sustentar, mamãe, auxiliada especialmente pelo Miguel, montou em casa, uma lavanderia e enquanto ela lavava ele passava. Nesse casebre, nasceu o meu irmão Riograndino. A vida seguia de mal a pior e logo meus irmãos mais velhos, Miguel e Gonsalo saíram de casa a procura de novas oportunidades e mamãe, com seus quatro filhos menores foi levada a morar em um outro casebre bem menor sem luz elétrica, situado a Rua Djalma Dutra, em Presidente Prudente. No final de 1942, a mudança saiu de Álvares Machado em um anoitecer chuvoso, transportada por um caminhãozinho amarelo-alaranjado, que apesar de ter a carroceria muito pequena, de no máximo três metros de comprimento, nela coube todos os nossos pertences; inclusive, meus irmãos Miguel e Noel. Mamãe com seu filho recém-nascido no colo, minha irmã de 6 anos de idade e eu com três, viajamos na cabine. Na entrada de Prudente, já na Avenida Manoel Goulart, o caminhão quebrou e fomos a pé até nosso novo lar. Lembro-me vagamente de que Miguel, protegendo-se com um guarda-chuva, transportava-me no colo, desviando das poças d\'água, pois que a avenida ainda não era asfaltada e mamãe com o nenê, certamente protegida por outro guarda-chuva, nos seguia acompanhada pelo Noel e pela Nair. Não me recordo de como chegamos. Sem o auxílio direto de seus filhos mais velhos, mamãe continuou lavando roupas para fora. De porta em porta saía a procurava de trabalho. Trazia roupas para casa, lavava, passava e as devolvia recebendo alguns trocados, como pagamento. Nesse ínterim, papai morava com a amante e suas duas primeiras filhas, Olinda e Marina, em uma casa situada nos fundos do salão onde funcionava seu escritório na Av. Manoel Goulart, a algumas quadras de nosso casebre. Lembro-me da morte e do velório de Marina acometida de desidratação ainda na primeira infância. Dias depois do seu sepultamento, a Olinda indo brincar de enterro, pegou um gatinho recém-nascido, colocou-o em uma caixa de sapatos e o cobriu de flores. Inocentemente Olinda enterrou o animalzinho com vida. Não presenciei a cena, mas o fato foi muito comentado por Silvina e por papai que depois da morte do gato, ficaram sabendo pela própria filha. Com certa freqüência eu visitava papai e sua nova família e recebia permissão para passar a noite com eles. Para mim era festa, pois, enquanto nossa última refeição diária era o jantar das 6, lá, a noite, antes de se recolherem, habitualmente todos tomavam um copo de leite com chocolate, preparado pela Silvina; aliás, creio que ela era carinhosa para comigo, pois durante aquelas visitas ensinava-me rezar. Anos depois, muito católico e freqüentador das aulas dominicais, surpreendia-me ao perceber que quando rezava a oração ao Santo Anjo, pronunciava algumas palavras com sotaque nordestino. Ao repeti-las, não entendia o que significavam: "mi aguárdio, mi alumínio". Como não havia aprendido essa oração na igreja e até então só relacionávamos com nossos vizinhos italianos, deduzi e deduzo que foi Silvina quem a ensinou e aquelas palavras significavam: "me guarde, me ilumine". Em novembro de l944, em comemoração aos meus seis anos de idade, papai mandou-me a um fotógrafo, tirando minha primeira foto. - 2 - SEGUNDA FASE - Depois de quase dois anos nessa luta, mamãe, talvez incentivada por alguém, procurou por papai, exigindo que nos sustentasse. Sob ameaça de ser denunciado à polícia, papai que tinha sido Representante de Delegado e sabia o que lhe podia acontecer em uma Delegacia, numa época em que, casais amigados eram repudiados e não se falava em direitos humanos, repentinamente mudou. Mamãe foi autorizada a parar de lavar roupas para fora e a alugar uma nova casa que até luz elétrica tinha e como prova de sua reconciliação, papai fez-lhe uma nova filha. Nos últimos meses de 1944 nos mudamos para a Rua l5 de Novembro, nº 1297 (numeração atual), região mais central da cidade onde, em 30 de abril de 1945, nasceu minha última irmã que, aliás, faleceu oito dias antes do seu primeiro aniversário, provavelmente de desgosto. Ao começar a entender o significado das palavras e descobrindo que seu nome era Salve Esperança, morreu! Papai acometido por forte obsessão nacionalista oriunda de seus ideais comunistas, teria extraído esse nome da primeira estrofe do hino à bandeira. Apesar da aparente comiseração, papai continuou morando com a outra mulher com quem teve vários filhos e filhas, provavelmente mais de dez. Um deles se chamou "Marden Brasil do Nascimento", inspirado na expressão "Made in Brazil" que papai deve ter lido na embalagem de algum produto de exportação e aportuguesado, a sua moda. O tempo foi passando e devido ao mal estar que a situação nos impunha, passamos a nos sentir rejeitados, especialmente porque, sempre que podia, papai, psicologicamente, torturava mamãe que só não perdia o juízo porque era muito forte e possuia grande responsabilidade para com seus filhos. Não obstante todos de casa só freqüentarem escolas, um dos métodos que usava, além de criticá-la constantemente era de, com o auxílio da sua concubina, fiscalizar a quantidade de alimentos que nos fornecia e nos trajar o mais simples possível, de maneira incompatível com o ambiente onde estudávamos. - 3 - TERCEIRA FASE - Nos últimos tempos costumava também atrasar por vários meses o pagamento do aluguel da nossa casa, o que gerava justa reclamação do proprietário contra mamãe que era a locadora de fato e de direito, pois papai não aparecia nessas relações. Esse estado de coisas perdurou até o final de 1956 quando mamãe convenceu o proprietário do imóvel a cobrar os atrasados diretamente dele. Ofendido, papai determinou que mamãe alugasse uma nova casa. Saímos todos a procura de novo imóvel e consegui localizar o da Rua Cassimiro Dias, nº 249 cujo aluguel era seis vezes maior do que o pago na l5 de Novembro. Imediatamente ele ordenou: - Dita! Alugue essa casa! Feche negócio com a proprietária. Já adolescente, dando meus palpites, o interpelei: - Minha mãe, não! O Senhor é quem vai conversar com a mulher. Dito e feito. Papai contratou e nos mudamos para aquela casa e ele pagou tudo direitinho. Não se acostumando pelo fato de a dona do imóvel morar na casa ao lado e ficar nos bisbilhotando, papai deu nova ordem e mudamos para a Rua Siqueira Campos, com um aluguel sete vezes maior do que aquele que ele fazia de conta que não conseguia pagar na l5 de Novembro. Moramos ali por mais de dois anos e ele nunca atrasou o aluguel. Pagava sempre na véspera. Era honestíssimo com terceiros! - CAPÍTULO IV - MINHA INFÂNCIA - 1 - O RELACIONAMENTO FAMILIAR - Nasci uma criança saudável. Talvez pela rápida interação com o meio ambiente, talvez pela cor dos meus cabelos que eram aloirados como dos meus avós maternos, gradativamente fui me diferenciando de meus irmãos e em conseqüência, tornando-me o preferido de meus pais, em detrimento aos demais. Papai demonstrando um orgulho muito grande por essas minhas características, sempre que podia, logo que comecei a andar, levava-me a apresentar a seus amigos. Como Representante de Delegado de Polícia tinha acesso a todos os lugares e quase sempre estava eu, com ele. Antes de completar três anos de idade, numa visita de rotina que, como policial, fazia às casas de prostituição, papai levou-me para, oficialmente, apresentar-me às mulheres que ali trabalhavam. Lembro-me da festa com que fui recebido. As prostitutas, como prestimosas mães, afagavam-me no colo. Como felicidade não é perene e não passa, muitas vezes, de pequenos momentos, repentinamente tudo acabou. Narrava mamãe que ao sermos abandonados, muito apegado a ele, desesperado, eu ficava quase o dia todo na frente de casa olhando a rua, na tentativa de vê-lo retornar; que à aproximação de qualquer homem, eu saia correndo de braços abertos gritando: Papai! Papai! Ao reconhecer que não era ele, voltava triste ao meu posto até que, conformado, apeguei-me a meu irmão Miguel procurando colocá-lo em seu lugar. Miguel, ainda muito moço, com apenas l6 anos de idade, infelizmente não entendeu esse meu comportamento e jamais o retribuiu. Mamãe, cujo procedimento ensinou-me a admirar e a respeitar a alma feminina, tudo fazia para amenizar a minha carência, o meu sofrimento e apesar das privações porque passava, sempre se preocupava em me presentear nas datas festivas, objetivando alegrar minha vida. Em 1943, véspera de Natal, orientando-me a colocar o sapato na janela para aguardar o presente de Papai Noel, prontamente a atendi e na manhã seguinte fui correndo examina-lo e encontrei um pequeno embrulho contendo uma rosquinha de sequilho! Foi o presente que ela pode me oferecer. Nos anos seguintes, até a minha adolescência mamãe comemorava meus aniversários com uma festinha na qual participavam meus vizinhos e nos natais, presenteava-me com brinquedos. - 2 - O RELACIONAMENTO EXTRA FAMILIAR - Nos meus primeiros anos, minha auto-estima era tão enaltecida pelo apoio que recebia de mamãe que não levava desaforo para casa. Lembro-me de que aos cinco de idade, quando estava em volta de uma fogueira, um menino maior pegou-me por trás e rodopiando-me, fingia que ia queimar meus pés nas labaredas. Logo que esse menino me soltou, armei-me com os restos de um tamanco, chinelo cuja sola é feita de madeira maciça e arremessei contra sua cabeça, premiando-o com um belo "galo". Ainda nessa mesma época, uma menina um pouco mais velha, mandou que todos nós sentássemos sobre o tronco de uma árvore que jazia no chão e ordenou que não falássemos e ninguém risse, pois que iria, logo depois, distribuir aos mais comportados, balas e bolachas. Não gostando da ordem, soltei uma gargalhada e a menina bateu-me com a vara que, ameaçadoramente, portava. Imediatamente levantei-me enfurecido e quebrando em quatro um tijolo que encontrei nas imediações avancei contra ela que correu com vara e tudo. Dei-lhe uma tijolada nas costas e a menina rapidamente aprendeu a nunca mais vir me dar ordens. Os anos foram se passando e aprendi que quem batia também podia apanhar, especialmente porque fui me tornando muito pequeno para as crianças da minha idade, magro e raquítico, deduzindo que seria melhor parar com a costumeira valentia, quase me isolando, eis que, nas minhas condições físicas, era provocado com maior freqüência. - Desde criança sempre procurei ganhar algum dinheiro. Tentei ser engraxate e ao chegar na praça principal com minha caixa nas costas, quase levei uma surra dos outros meninos que exerciam a mesma profissão. De forma ameaçadora fui expulso por uns quatro ou cinco "loirinhos" que naqueles tempos, já perambulavam pelas ruas da cidade. Procurei ser vendedor ambulante de laranjas e como não tinha noção de comércio, ao invés de oferecê-las na parte mais nobre da cidade, ia aos bairros mais afastados onde pouca gente comprava. Nessa ocasião, um velhinho branco, magro, desdentado, saindo à porta de um barraco, interessou-se pelas laranjas e pediu uma para experimentar. Chupando-a avidamente e exclamando de boca cheia - hummm! que doce! que gostosa! - deu-me a impressão de que compraria, pelo menos, uma dúzia. Sacando uma moedinha do bolso, pediu-me apenas três e na condição de que não fosse descontada a que literalmente comeu. Para não aumentar o prejuízo, decepcionado, concordei e logo desisti da profissão. Comecei a criar galinhas com a intenção de vender ovos e por muito tempo ganhei alguns trocados. Como as galinhas ou eram furtadas pelos vizinhos ou morriam com facilidade e a reposição era demorada, fui diminuindo os meus investimentos. Fato hilariante também aí ocorreu. Com as galinhas já envelhecidas e uma só, às vezes botando, vendi um ovo para uma menina que pagou antecipadamente. Aconteceu que a galinha nunca mais botou e amargamente, tive que lhe devolver o dinheiro já gasto em amendoim salgado. Cr$ 0,50! Aprendi que era verdadeiro o ditado: "Nunca conte com o ovo antes da galinha botá-lo" - CAPÍTULO V - A EDUCAÇÃO SEXUAL VIGENTE - Desde tenra idade até meus doze ou treze anos, a falta de uma educação direcionada, quer nas escolas, quer no âmbito familiar, impingia-me relevante sofrimento, aumentando a cada dia a confusão mental que fazia sobre o tema. Certa manhã acordei radiante de alegria e o dia pareceu-me o mais importante porque, na noite anterior, lendo uma revista proibida para menores que meu irmão Noel escondia sob o colchão da nossa cama, descobri que sexo era uma ocorrência normal nas nossas vidas e próprio de adultos, quando, até então, pensava que fosse um maldito desejo de moleques de rua, pois enquanto meus colegas de escola silenciavam, somente aqueles, o abordavam. Essa concepção era embasada na idéia que as igrejas difundiam quando condenavam o sexo e afirmavam que éramos todos pecadores pelo simples fato de termos nascido. Nossos pais pecaram quando fizeram sexo e desse "pecado original", nascemos. A população "viajando" nesse barco, chamava sexo de besteira, coisa da besta, coisa do diabo ou de porcaria, coisa de porco, coisa de gente moralmente suja. Se fossem comentar, diziam que tal homem fez besteira com tal mulher ou que tal mulher fez porcaria com determinado homem. A expressão "fazer amor" somente surgiu uns trinta anos depois, quando os poetas pilheriando, passaram a afirmar: "O amor é um pecado tão grande que são necessárias duas pessoas para comete-lo" Não havia um mínimo de comunicação sobre o tema, muito menos entre pais e filhos. Sub-repticiamente, para que entre as crianças não se despertasse nenhuma curiosidade sobre suas naturais diferenças, imperava o lema - "homem com homem, mulher com mulher". Meninas não brincavam com meninos e a recíproca era verdadeira. Se algum menino se aproximasse de meninas, todos o chamavam de "mariquinha". As meninas, sujeitas a uma educação mais rígida, sequer podiam chegar perto dos meninos. Nas escolas haviam classes masculinas e femininas e só mais tarde começaram a aparecer classes mistas, mesmo assim, com crianças já maiores de doze anos que estivessem cursando o ginasial. Às mocinhas, tudo era proibido. Não podiam usar pinturas, nem mesmo um simples batom, inclusive, quando as mais ousadas se rebelaram contra essa norma, surgiu uma linda canção as condenando, cuja letra era mais ou menos assim: "Marina morena, você já é bonita com o que Deus lhe deu. Marina morena não pinte esse rosto que é só meu. Marina, você se pintou! Eu já desculpei muitas coisas, mas desta vez, Marina, é demais! Estou de mal com você, de mal com você". Somente as artistas e as prostitutas, procurando se tornar mais atraentes se pintavam. Alguns pais não permitiam que suas filhas sequer cortassem os cabelos. Namorar era só para casar. A moça tinha que se casar com o primeiro que aparecesse e um dos métodos que muitas usavam com a anuência tácita dos próprios pais que fingiam nada perceber, era perder a virgindade ou engravidar durante o namoro e mesmo não amando se casavam com o pretendente que caía na armadilha. Ao deflorar a moça menor de l8 anos, o rapaz era legalmente obrigado a se casar, pois caso contrário se sujeitaria a uma pena de reclusão de até quatro anos. Era o chamado "casamento na polícia". Se a moça fosse maior, especialmente no caso de notória gravidez, o rapaz por responsabilidade própria ou temendo as ameaças do futuro sogro que se fazia passar por moralmente ofendido, assentia "espontaneamente" ao casamento. A moça que não se casava, quando o noivo conseguia fugir ou se tornava prostituta ou ia para um convento. Não havia outra alternativa, já que o trabalho da mulher "perdida" era rejeitado, até como doméstica e muitas delas, expulsas de casa pelos próprios pais. Inclusive a arcaica legislação penal vigente, ao tipificar os crimes contra os costumes, em alguns artigos até hoje, só protege a mulher "honesta". Por outro lado, as moças que muito escolhiam e não namoravam, ao passarem da idade, eram pejorativamente taxadas de "Galinhas de São Roque" ou de "Balzaquianas" e comentavam que tinham ficado "pra titia". Desesperadas, muitas seduziam rapazolas inexperientes e ainda conseguiam se casar. Contrariamente, os moços tinham toda liberdade. Ser mulher devia ser um martírio tão grande que sempre que eu orava, iniciava minhas orações, assim: "Senhor: Em primeiro lugar, agradeço-lhe por eu ter nascido homem". Com menos de três anos de idade, meu pai fez minha apresentação pública às mulheres da zona. A partir do meu oitavo aniversário, todos os anos, ao ser aprovado na escola, ganhava de meu irmão Gonsalo, um passeio até a cidade de Assis-SP e quase todas às vezes, enquanto solteiro, levava-me aos prostíbulos apresentando-me orgulhosamente às mulheres, numa nítida insinuação de que algum dia eu deveria me relacionar com elas. Até então eu não sabia o que aquelas mulheres faziam, pois nada me era explicado. Quando os garotos se tornavam adolescentes, muitos pais ficavam aflitos, na expectativa de que seus filhos tomassem a iniciativa de conhecer mulher e alguns até facilitavam para que fossem aos prostíbulos, mas não tocavam diretamente no assunto. Surgiram até piadinhas aparentemente infames, visando ironizar aquele falso pudor social. Contavam que um sitiante dando dinheiro a seu filho de 13 anos, sem nada lhe explicar, de alguma forma fez o garoto entender que deveria ir a zona da cidade; o menino passando pelo sítio da avó, contou-lhe o que ia fazer e a velha que não era muito religiosa, resolveu ficar com o dinheiro do neto e se deitou com ele. Na volta, o pai veio correndo perguntar se tudo tinha corrido bem e como era a mulher. O garoto contando que tinha ficado com a avó, seu pai enfureceu e o menino em sua ingenuidade simplesmente retrucou: - Papai o senhor não faz isso toda noite com minha mãe? Eu nunca achei ruim. Agora eu fiz com a sua. O que tem demais? - Um outro pai também indiretamente convencendo seu filho a ir a um prostíbulo, quando o menino voltou passou a interrogá-lo, curioso para saber o que tinha acontecido. O garoto, com uma postura aparentemente respeitosa, em pé, relatou: - Cheguei na tal da zona onde encontrei muita gente. Conversei com uma delas e fomos para o quarto onde aconteceu de tudo e até agora estou muito feliz e com vontade de repetir a experiência. O pai querendo mais detalhes, ordenou: - Senta meu filho, senta e continue contando. O rapazinho respondeu : - Não posso papai! Não posso! Dói muito quando me sento. - CAPÍTULO VI - A EDUCAÇÃO FORMAL - O ensino formal no Brasil era subdividido em primário, secundário e universitário. O Primário, estranhamente conclusivo, no final de seus quatro anos o aluno se diplomava. Considerado o máximo que geralmente a população atingia, muitos não chegavam a completá-lo devido ao rigor das suas disciplinas. Com muita dificuldade, o aluno se promovia de um ano letivo para o seguinte. Havia o ensino público gratuito de melhor qualidade e o particular mais acessível. Em nosso município, o público era ministrado pelo 1.º Grupo Escolar de Presidente Prudente, posteriormente renomeado, Grupo Escolar Prof. Adolpho Arruda Mello, pertencente ao Estado. O particular pelo Colégio Cristo Rei, mantido pela Igreja Católica. O Secundário, onde poucas famílias matriculavam seus filhos, era subdivido em ginasial com 4 anos de duração e colegial com três, este último com vários cursos, objetivando a pretensão de cada aluno . Para iniciar o Secundário, o interessado era submetido a rigoroso exame de admissão à primeira série ginasial, e os mais abastados eram aprovados nos colégios públicos e os demais, nos particulares, pouco exigentes. Depois da conclusão do ginasial, o aluno podia ingressar no colegial onde eram profissionalizantes os cursos Normal e o Técnico em Contabilidade. Mediante prévia seleção, ingressava-se no Normal, o curso preferido pelas mulheres que recebiam o título de professora primária, exigível para o exercício dessa profissão. Nele estudavam as moças mais lindas do lugar, o que serviu de título a uma canção romântica de muito sucesso, do cantor Nelson Gonçalves - "Linda Normalista". O Curso Técnico em Contabilidade formava os contabilistas da época que podiam se inscrever nas suas Associações e se estabelecer com seus próprios escritórios. Com o advento desse curso, papai foi profissionalmente prejudicado, pois sendo apenas um prático em contabilidade, passou a depender dos outros para a assinatura de balanço dos estabelecimentos comerciais maiores e perdeu muitos clientes mas, inteligente como era, reagiu. Papai prestou concurso público, aliás, o primeiro no Estado de São Paulo, para o exercício da profissão de Despachante Policial , recebendo o número 121 e se tornou o único Despachante de Regente Feijó-SP, onde montou também uma Escola de Datilografia, permanecendo com seus clientes contábeis de Álvares Machado e de Presidente Prudente. Os alunos que almejavam freqüentar o curso Superior, se de ciências humanas, matriculavam-se, no Curso Clássico, se o seu objetivo fosse ciências exatas, no Curso Cientifico; este era muito pouco escolhido. O seu primeiro ano começava com duas ou três classes de 40 alunos e o último, terminava com apenas uma, com dezoito a vinte, geralmente homens e quando mulher, no máximo uma que apesar de demonstrar inteligência ímpar, sem exceção, era a feia que não sonhava com casamento; nenhuma loira, nenhuma parda, nenhuma negra. Eram morenas. Após o Curso Superior (3.º grau) que só era ministrado nas capitais dos estados haviam, como hoje, os Cursos de Pós-graduação - Mestrado e Doutorado. Foi nessa época que o mito da "loira burra", começou a ser delineado. As loiras que, na sua maioria, são lindas por natureza, geralmente se casavam ainda na adolescência, atingindo o principal e quase único objetivo das mulheres que lhes eram contemporâneas; em conseqüência, por não se preocuparem com a formação intelectual, aparentavam ser menos inteligentes que as morenas e estas atingiam até as universidades. As morenas não encontrando de imediato, seus príncipes encantados, preenchiam o tempo estudando. Atentem que até os anos setenta os órgãos oficiais de identificação reconheciam no país a existência de pessoas da cor branca, da cor negra, da cor amarela e da cor vermelha. As primeiras eram descendentes de europeus, as segundas de africanos e as últimas de orientais e de índios. As pessoas brancas, dependendo da cor de seus cabelos, eram loiras ou eram morenas; se miscigenadas com índios, caboclas. As pessoas da raça negra, quando mestiças com as da raça branca, eram pardas, popularmente denominadas "mulatas", imbatíveis sensualmente e por isso, temas de marchas carnavalescas que as enalteciam - "Branca é branca, preta é preta, mas a mulata é a tal é a tal...". Quando mestiças com índio, cafuzas. As cafuzas, deixavam cafusas, digo, confusas as outras pessoas, pela sua falta de beleza. Com o retorno da democracia, após a revolução militar de 31 de março de 1964 que perdurou praticamente até 1980 essa classificação foi considerada preconceituosa e entrou em desuso. Hoje loira é qualquer pessoa de cabelos loiros, naturais ou tingidos. Morenas, as demais. - CAPÍTULO VII - O INGRESSO NAS ESCOLAS - Em 1946, com sete anos de idade, iniciei minha maratona estudantil, quando os costumes da época eram, hoje, inimagináveis. A sociedade ainda sofria os efeitos da arcaica orientação da igreja católica que a exemplo das demais, com todo respeito aos verdadeiros religiosos, naqueles tempos, buscava embotar a mente humana em benefício político ou financeiro dos seus líderes. O Diabo, inimigo de Deus, que tem por objetivo nos desviar do caminho do bem e nos induzir a cometer pecados, era e é canhoto! Pasmem. Pasmem todos: Eu também era e sou canhoto como ele! No meu primeiro dia de aula, após conhecer a professora, Dona Carmem Cerávolo, levei um tremendo tapa que quase fui ao chão. Aos berros repreendeu-me por ter segurado o lápis com a mão esquerda: Menino, isso é coisa do Diabo! A força, fui aprendendo usar a mão direita para escrever, mas quando me distraia, não era perdoado. Incontinenti, novo tapa, novos gritos e reguadas. O ano letivo transcorreu, mesmo assim, consegui acompanhá-lo. Aprendi escrever com a mão direita, fui promovido para a série seguinte, quando, ignorado dentro da classe, talvez pela personalidade da outra professora, talvez discriminado pela minha condição social, fui reprovado. A professora do primeiro ano apesar da sua aparente agressividade, o era porque se preocupava comigo, se preocupava com todos nós, seus alunos e nos desejava o melhor. Ela era muito respeitada e considerada. Com certa dificuldade a vida foi passando e conclui o curso primário quando o meu irmão Noel, com sua cosmovisão avantajada, "descobriu que existia o curso ginasial". Eu havia completado doze anos de idade. Terminado o curso primário, também por sugestão de meu irmão Noel, em janeiro de 1951 fiz um rápido cursinho preparatório com a professora Maria Silos mas percebendo que não estava muito preparado, papai optou por matricular-me no Ginásio São Paulo onde ingressei, após prestar exame de admissão à lª Série do Curso Ginasial. No decorrer do ano letivo, procurando relacionar com meus colegas e com meus professores, o tiro saiu pela culatra. Estudando e assimilando tudo o que era ensinado, comecei a cair na graça dos professores e na antipatia dos outros alunos. Passei para a 2ª série, mudei de tática e o resultando foi desastroso. Fui reprovado! Papai nada comentou mas percebi sua decepção, tanto que, naquele final de ano, ao pedir-lhe um par de sapatos novos, ele com razão, retrucou: - É vagabundo? Comprar sapatos você quer? - Trabalhar?... Não! - Estudar?... Muito menos! Abaixei a cabeça e respondi: - Se o Senhor me arranjar serviço, eu vou. A conversa terminou aí. Passadas as festas natalinas, papai retornando ao assunto, comunicou-me que eu iria trabalhar em um das tipografias da cidade, pertencente a Boanerges Godoy & Cia., onde, devidamente registrado em carteira profissional que logo providenciei, iria ganhar, como aprendiz Cr$ 415,00 mensais. Gostei da idéia. Nesse ínterim, meu irmão Noel que fazia seus primeiros ensaios para "levantar vôo de casa" e provisoriamente morava num apartamento de um prédio conhecido como "Prédio da sede da A.P.E.A." (Associação Prudentina de Esportes e Atletismo) comentou que a dona estava precisando contratar um menino para limpar dois banheiros coletivos do lugar. Imediatamente procurei a proprietária que era a professora primária, Maria de Lourdes Fernandes, a Dona Lurdinha e por mais Cr$ 200,00, fui contratado para o serviço que seria diário, das 6H00 às 7H45. O ano letivo de 1953 começou e eu me matriculei no mesmo ginásio, agora no curso noturno. Levantando-me as cinco da manhã, rumava para o prédio onde limpava os banheiros. Entrava na tipografia às 8H00, almoçava em casa, das 12H00 às 13H00, retornava para casa às l8H30, jantava, ia ao ginásio onde as aulas começavam às 19H30 e de lá saia às 22H30. Apesar de tantos compromissos, comprei meus cadernos, meus livros, minhas roupas, paguei as mensalidades escolares, guardei dinheiro e honrosamente passei para a terceira série. No final do mês de janeiro de l954, ouvi um diálogo entre meus pais quando ele dizia; - Poxa Dita, como o Jaime é esforçado! Aqui em casa ninguém trabalha e ele nem sequer reclama. Olha, no dia primeiro agora, vai fazer um ano que ele está trabalhando. Em 14 de fevereiro de l954 papai me chamou e perguntando quanto eu ganhava, ao ser informado determinou que no dia seguinte eu pedisse a conta daqueles empregos pois que mensalmente me pagaria os mesmos salários, conquanto que o ajudasse a visitar seus poucos clientes de Prudente e de Álvares Machado, escriturando os respectivos livros fiscais. Aceitando a proposta demiti-me dos dois empregos e voltei à vida estudantil. Nas férias do mês de julho daquele ano, papai levou-me na companhia de minha irmã Nair, a conhecer a capital paulista e o litoral na cidade de Santos-SP, quando ainda se comemorava o 4º Centenário de São Paulo. Conclui o curso ginasial, após transferir-me para o Instituto de Educação Fernando Costa, onde cursei a 4ª série e matriculei-me no l.º ano do Curso Científico, estudando nessa última escola até 28 de maio de l957 quando já no 2ºano, ao ser convocado a prestar o serviço militar, fui estudar em um colégio particular, pago por papai, na cidade de Campo Grande-MS. - CAPÍTULO VIII - O RELACIONAMENTO COM MEUS IRMÃOS - a) - RIOGRANDINO - Contava mamãe que quando ele nasceu, ao comentar com as outras pessoas que "eu era o biroca e ele o di biroquinha" (talvez uma referência à bolinha de gude), Riograndino passou a ser chamado de "Di biroquinha", de "Biroca", mais tarde de "Bir" e finalmente "Bill". - Bill, até se tornar adulto, foi um desprivilegiado pela sorte. Meses antes do seu nascimento, quando Silvina estava entrando na família, durante um dos sucessivos desentendimentos, papai agrediu mamãe violentamente e ela entrando em trabalho de parto, quase o abortou. Bill nasceu no tempo certo, mas com seqüelas. Devido ser uma criança pequena, magra, de aparência doentia, portadora de um estrabismo gritante, tornou-se, desde a mais tenra idade, vítima de preconceitos. Com dificuldades no desenvolvimento, acabou sendo preterido até pelos de casa, cuja atenção era toda voltada para mim, segundo mamãe comentava, falante, cheio de iniciativas. Bill tornou-se arredio e de pouco falar. Com suas atitudes sorrateiras, procurava sempre se opor a mim, o que denotava um ciúme inconsciente, quase doentio. Afinal, o caçula da família era ele e não eu, o usurpador. Em 1946, um ano e pouco depois da mudança para a Rua l5 de Novembro, após preparar um pequeno espaço no quintal da nossa residência, ali construí uma cidade de terra, com ruas, casas, jardins e tudo. Trabalhei a tarde toda e combinei com ele que no dia seguinte quando voltasse da escola, iríamos brincar e inclusive separei uns pedaços de pau dizendo que seriam nossos automóveis com os quais passearíamos pela cidade. Quando voltei da escola, qual não foi minha decepção. Parecia que havia passado um furacão pela cidade que, com tanto trabalho, construí. Não havia pedra sobre pedra! Bill, naquela época com apenas 4 anos de idade, na minha ausência, pisoteou-a até destruí-la e como era seu hábito, nunca explicou o porque de tanta agressão. Em outra ocasião, quando eu vendia laranjas pelas ruas, enquanto repetia "olha a laranja! dois e cinqüenta a dúzia", Bill que, algumas vezes, disfarçadamente me seguia por longo trecho, gritava de longe: "Não. Não comprem não! Ele está roubando! Ele pagou dois cruzeiros nelas e está querendo ganhar cinqüenta centavos". - Pré-adolescente, estava eu, na cozinha de casa, conversando animadamente com mamãe, expondo meus planos para o futuro, quando, sub-repticiamente, Bill apareceu por trás e aplicou violenta paulada em meu antebraço esquerdo e saiu correndo, voltando horas depois como se nada tivesse acontecido. Minha sorte é que ele era fraco e muito criança para conseguir me ferir. Bill mudou-se com nossa família para São Paulo em julho de 1959. Como adulto, continuou sendo uma pessoa difícil. Suas amizades sempre socialmente opostas às minhas e o nosso relacionamento apenas formal. Concluiu o curso científico, curou-se do estrabismo, casou-se aos 33 anos com uma excelente e compreensiva mulher, a italianinha Nilse Zanini e tiveram duas filhas, a Fernanda e a Roberta, sendo que esta última faleceu em l997, vítima de acidente automobilístico. No final, saindo do banco onde atingiu o cargo de Auditor e trabalhou por quase trinta anos, tornou-se comerciante, sócio proprietário de um supermercado em Osasco. Cinco anos depois, faliu. Perdeu tudo, inclusive a casa onde morava e ingressou no serviço público, do qual era tão contra e uns dois anos depois, em 05.04.1995, faleceu prematuramente com problemas cardíacos, aos 53 de idade. - b) - NAIR - Minha irmã sempre foi muito apegada comigo e costumeiramente elogiava-me para os outros, sempre enaltecendo minha inteligência e exageradamente minha aparência física e estávamos sempre juntos. Costumo dizer que neste mundo, além de mamãe, Nair foi a única mulher que realmente me achou "bonito". Nair, cuja parcela da fatura pela separação de nossos pais foi a mais onerosa, tornou-se muito difícil e portando de maneira defensiva, acabava sempre ofendendo aos demais. Conseqüentemente foi confinada a uma triste solidão. Não se casou oficialmente, nem teve filhos. Na sua adolescência, apesar dos elogios que na minha ausência continuava a fazer, pessoalmente maltratava-me ao máximo com palavras e palavrões. Era tão mordaz que escolhia o vocábulo certo para me ferir em grau máximo. Lembro-me que chorava desesperado quando ela me xingava, com todas as sílabas - "Ta-ra-do!". Eu não sabia o que significava, mas ouvir aquilo, doía demais. Certa noite, ainda criança, acordei chocado com um pesadelo que tive. Sonhei que havia me casado com ela! No sonho eu chorava e dizia: "Era com o meu casamento que um dia eu poderia morar longe dela e agora vejo que terei de passar o resto da vida na sua companhia". Nair ficou mocinha e sofreu demais nas mãos de papai. Certa feita cortou os cabelos e quase foi linchada de tão injuriado que o velho ficou. Ao dizer que estava flertando com um rapaz que, aliás, foi o único amor da sua vida, um tal de José Roberto Bonora, papai, reforçado pelas atitudes do meu irmão Noel que também a fiscalizava, fez tantas ameaças que ela nunca ousou trazer o namorado na porta de casa e ele terminou se casando com outra, apesar de se gostarem. Nair sofreu. Sua desdita era tão pungente que nesse particular eu sentia pena dela, pois, enquanto tudo me era permitido, até o direito de conhecer prostitutas, minha pobre irmã, por ser mulher, não podia sequer olhar dos lados. - No final de 1958, antecipando à família, Nair saiu de Prudente com destino a São Paulo vindo morar na casa de nosso irmão Noel que já era casado. Trabalhou como operária em um frigorífico, Frigorífico Armour e posteriormente, como auxiliar de enfermagem, no Hospital do Servidor Público do Estado onde uns 15 anos depois, conheceu um senhor desquitado (não havia divórcio), Dr. Sílvio de Almeida e com ele se casou na igreja. Dr. Silvio faleceu uns dois anos depois e Nair ficou com um apartamento situado na Rua Jauaperi em Moema, bairro nobre de São Paulo e com uma pensão mensal (aposentadoria), pois que ele era servidor público. Nair faleceu em 29.01.1998 com câncer generalizado iniciado nas mamas e por sugestão e insistência minha, deixou um testamento doando todos os seus bens, inclusive o seu apartamento, para nossa cunhada Nilse, viúva do meu irmão Bill. - c) - NOEL - Pouco contato tivemos na infância devido à diferença de idade quando obviamente nossos objetivos eram diferentes. Lembro-me mais a partir da sua pré-adolescência. Noel era um menino dinâmico, falante e muito comunicativo. Parece-me que em casa, seu ídolo era papai, pois que trabalhavam juntos e tinham a mesma ideologia política. - Eram comunistas! - Gostava de estudar, de conhecer outros idiomas e se dedicava muito ao inglês. Seu lazer predileto era cinema onde assistia especialmente, a filmes de mocinho, os famosos "bang bang à italiana". Recordo-me que muitas vezes Noel pedia para que mamãe lhe desse dinheiro para ir ao cinema e de tanto que insistia a acabava convencendo mas com a recomendação de que depois não voltasse contando o filme. Nada adiantava. Lá pela meia noite chegava ele todo eufórico e, acordando mamãe, contava-lhe o filme inteirinho, com sonoplastia, encenação e tudo. Imaginem quantos tiros e quantas lutas não saiam. Mamãe, meio dormente, só balbuciava - hum, hum.... Apesar de aparentar tanta comunicabilidade, paradoxalmente ou devia ser um pouco tímido com as mulheres ou caiu na armadilha da primeira, pois só me recordo que se enamorou apenas com uma modesta italianinha com a qual foi obrigado a se casar. Pode ter tido outras namoradas, mas nunca fiquei sabendo. Recordo-me que tão logo se casou, seu sogro e papai mostraram bem o que eram. Nenhum dos dois deu-lhe o menor apoio. Noel com a mulher, praticamente expulso da casa que ajudou a construir nos fundos da residência do sogro, pediu arrimo ao nosso irmão Miguel que morava em Martinópolis-SP, onde nasceu o seu primeiro filho, o Wanderley. Socorreu-se com nosso irmão Gonçalo que morava em Assis-SP, de lá, ao tentar voltar a Prudente, foi violentamente repudiado pelo seu sogro, quando então, papai entrou na briga e indo até a casa deste desafiou-o a enfrentá-lo. Como o sogro fugiu, após dizer muitas verdades à família que lá estava, papai se retirou e Noel, foi tentar a vida em outro lugar. Noel mudou-se com a mulher e o filho para São Paulo e com muita dificuldade, mas com a coragem que nunca lhe faltou, conseguiu vencer essa triste fase, a ponto de mais tarde, nos convencer a todos a mudarmos como ele, inclusive papai com a sua outra família. Noel que foi um grande exemplo de hombridade, dignidade e perseverança, especialmente para seus irmãos mais novos, passou por um abalo psicológico tão marcante que sua maneira de interagir com a família de origem, se modificou. Daquele rapaz comunicativo, solícito e atuante, tornou-se um adulto fugidio, calado e irritadiço, sendo quase impossível mantermos qualquer dialogo. Aposentou-se das empresas onde trabalhou e, ainda seguindo a vocação que papai lhe transmitiu, Noel que já era técnico em contabilidade, estabeleceu-se com um Escritório em Barueri-SP e apesar dos seus já setenta anos bem vividos, trabalha com todo o vigor que sempre lhe foi característico. Felizmente Noel relaciona-se muito bem com seu filho Wanderley, com suas filhas Marly e Rosângela, com suas noras (uma delas, viúva de seu filho Edgard que acidentado, faleceu em 5.01.1980), com seus genros, netos, netas e com as outras pessoas que não são da família e vive até hoje com a mesma esposa, a pacienciosa Aparecida Sisto do Nascimento. Deixo aqui registrado que apesar de Noel haver se modificado tanto, continuo a respeitá-lo e a entende-lo e minha gratidão para com ele continua tão marcante como sempre foi. Em realidade gostaria de, algumas vezes, estarmos juntos mas, como as circunstâncias não permitem, mantenho a distância devida. - d) - GONSALO - Gonsalo, para nós Gonçalo, foi o ídolo da minha infância. Aos quatorze anos de idade, defenestrado de casa pela situação econômica da família, nem por isso se abalou. Começou como entregador de pães em domicílio, parece-me que em Álvares Machado; depois tornou-se revendedor e fornecedor de doces para os bares até das cidades próximas e por muito tempo trabalhou no buffet dos trens de passageiros da estrada de ferro Sorocabana, mais tarde, gerenciou um dos respectivos restaurantes. Era um jovem alegre, simpático e estava sempre contando alguma piada; muito bem relacionado com as mulheres, teve várias namoradas e outras tantas amantes passageiras. Era exímio freqüentador de casas de prostituição das cidades onde pernoitava, em especial - Assis-SP e Porto Epitácio-SP. Chegou a se relacionar como amante, com uma das irmãs de um diretor do primeiro grupo escolar de Presidente Prudente, em uma época que essa família era socialmente muito importante. A moça morava em Santo Anastácio-SP. - Nunca vi ou ouvi Gonçalo reclamar da vida ou de falta de dinheiro. Constantemente dava dinheiro para mamãe. Um dia sim outro não, passava ele por Presidente Prudente, nos trens onde trabalhava e para nós, seus irmãos mais novos, inclusive para o Noel, eram dias importantes, pois que o esperávamos na estação da ferrovia, ocasião em que ele dava, para cada um de nós, uma nota de um cruzeiro, com a qual, podíamos tomar dois sorvetes de duas bolas. Gonçalo também demonstrava uma visível predileção por minha pessoa. Todos os anos, a pretexto de presentear-me por aprovação na escola, levava-me a passear em Assis-SP, onde passava um fim de semana e, na companhia de uma das suas namoradas, levava-me ao cinema com a irmãzinha da moça, aconselhando-me a namora-la. Sempre que precisava, nessas viagens, comprava-me cinto ou suspensório novos e fazíamos as refeições nos restaurantes da cidade. Não me recordo de Gonçalo ter feito esse mimo para o Bill, para a Nair ou para o Noel, nem mesmo eles sendo aprovados na escola, fato que nem tomava conhecimento. Em 1951 se casou com Dirce Seródio Novo, uma linda italianinha. Foi o dia no qual mais chorei na minha vida. Nessa época Gonçalo era novamente comerciante de pães e tinha duas carroças tipo baú para entrega em domicílio, dois empregados, uma bela e bem mobiliada casa própria na região central de Assis-SP. No início dos anos 60, consegui indicá-lo para trabalhar como vendedor-viajante em uma indústria de rádio e televisão de São Paulo, a Telespark e Gonçalo melhorou ainda mais de vida, pois que, com sua personalidade tornou-se um dos melhores vendedores da empresa com invejável remuneração mensal. Em 1967, um mês depois de completar quarenta anos de idade, acometido de grave enfermidade cardíaca, angina pectoris, Gonçalo faleceu, deixando esposa e um casal de filhos. O Ednei, médico, especializou-se em oftalmologia. A Evanice, graduou-se em engenharia civil. Até no episódio da sua morte Gonçalo não perdeu seu bom humor. Após ler um livro que descrevia os sintomas da sua doença ao perceber que seu final estava próximo, visitou irmão por irmão e se despediu de todos, e entre sorrisos e gostosas gargalhadas nos convidava a ir a seu enterro que, segundo ele, seria muito em breve, conforme ocorreu. Lembro-me de que ele que era muito obeso, ao me convidar, batendo na própria barriga, sorrindo ameaçou: - Olha, Jaime! Se você não vier ao meu enterro eu vou deitar com essa barrigona para cima em qualquer estrada onde você estiver e fazer seu carro dar umas três cambalhotas; portanto, não falte! - Depois de um convite desse, fui ao velório e ao seu sepultamento. - e) - MIGUEL - Quando do episódio da separação de meus pais, Miguel tornou-se o arrimo da nossa família e apesar da sua pouca idade, cerca de 16 anos, era o homem da casa. Enquanto mamãe lavava roupas, ele, com um ferro a carvão, as passava e ajudava na administração das finanças. Naquela época, tentou ser cambista de jogo de bicho, que ainda era lícito e foi auxiliado por um rapazola nipônico. Seu nome, parece-me que era Shiguero. Certa feita alguém fez uma fezinha de alguns tostões e o japonesinho que era muito pobre, para matar a fome não repassou o dinheiro e o gastou, comendo bananas. Para infelicidade geral, o freguês ganhou e não conseguindo receber, descobriu a fraude e ameaçou queixar-se à polícia. O amigo de Miguel ficou vários dias escondido em nossa casa até a solução do impasse. Apesar de inteligente e grande auxiliador de mamãe, Miguel demonstrava ser uma pessoa sem muita iniciativa e inclusive, tímido com as mulheres. Recordo-me que somente se enamorou com uma única moça mas acabou levando o fora e chegou a dar vexame. Era uma tal de Lia, filha da dona Joaninha, uma pernambucana, nossa vizinha, amiga de mamãe. Miguel nunca mais namorou outra moça e quando se aproximava de mulheres só o fazia com as de prostíbulos, característica de mórbida timidez. Miguel que tinha só o 2º ano primário, começou trabalhando na lavanderia de mamãe e o máximo que progrediu foi tornar-se passador de ternos masculinos e depois, barbeiro. Tentou a mesma profissão de Gonçalo, trabalhando com um buffet na estrada de ferro sorocabana. Pelas suas características pessoais somente conseguiu espaço no trem misto que além dos vagões de carga transportava apenas dois de passageiros, um de primeira e outro de segunda classe, mesmo assim, somente pessoas pobres. Naqueles tempos, as pessoas da classe média para cima, viajavam nos trens de passageiros e os milionários corajosos, de avião. Não havia estrada de rodagem asfaltada e os aviões eram semanais. Esse trem era considerado rapidíssimo. De Prudente a São Paulo, cuja distância é de 560 km fazia em 24 horas, enquanto que o misto levaria umas 60 horas, com baldeações (troca de trens) de doze em doze horas. Conseqüentemente Miguel só vivia reclamando da vida e queixando-se da falta de dinheiro e da própria sorte. Muito supersticioso, dizia que tinha algum "encosto" (mau espírito) a prejudicá-lo e que por isso, sua situação não melhorava; parecia que o dinheiro evaporava de seu bolso. Quando íamos a estação, a exemplo do que fazíamos com o Gonçalo, Miguel raramente nos presenteava . Lembro-me que certa feita, ao reclamar da falta da gorjeta, Miguel sacou uma moedinha de vinte centavos e gritou: "Toma, moleque e vê se não me enche mais o...". Ao constatar o valor, arremessei-a em baixo do trem e a Nair que ainda era muito infantil, quase desmaiou de medo da moeda ser atropelada. Contava Gonçalo que começou um tal de furtarem, uns dos outros, os respectivos sacos de garrafas vazias; que ao ser furtado, não estrilou e apenas pensou - "vou me desapertar em alguém pois que... ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão". Dias depois ao chegar em Assis, viu um lindo saco de garrafas na plataforma da estação e enxergou até um aviso - "leve-me, por favor". Sorrateiramente pegou o saco e misturou com os seus, compensando-se do prejuízo anterior. Horas depois deparou com o Miguel chorando e gritando que tinha sido roubado. Apesar da tristeza, ficou num dilema, se devolvesse para o Miguel que não sabia guardar segredos, todos os colegas de profissão iriam taxa-lo de ladrão e pagaria pelos demais sacos roubados; que se calasse, Miguel ficaria com o prejuízo. Das duas alternativas, ficou com a melhor e Miguel, apesar de saber da possibilidade do furto, em não tomando as devidas cautelas, arcou com as conseqüências. Tempos depois, Miguel desistiu de ser comerciante e associando-se com a nossa querida e amável Mercedes, uma jovem descendente de italianos que morava em Martinópolis-SP, assumiu à profissão de tintureiro, profissão essa, daqueles que tingiam, lavavam e passavam roupas. Uns dez anos depois começou a cortar cabelos e montou uma barbearia, mudando de atividade. Amasiou-se com Mercedes e viveram maritalmente até o resto da sua vida. Tiveram um casal de filhos, o Rui e a Osmarina. Sua vida era pacata e como lazer, dedicava-se à música e por muito tempo foi maestro contratado da banda municipal da cidade. Assim como papai, Miguel era comunista e na revolução militar de 1964 por muito pouco não foi decapitado. Consta que na época, o comunismo no Brasil era representado por duas facções. O partido comunista brasileiro (PCB) de orientação Russa que pretendia chegar ao poder pelo voto e o partido comunista do Brasil (PC do B), da linha chinesa com a mesma pretensão pelo uso da força. Marcando a revolução para uma data simbólica, 21 de Abril daquele ano, o dia consagrado a Tiradentes, o PC do B organizou em todo país os chamados "Grupo dos Onze" que entrariam em combate, quando fosse necessário. Miguel, chefiando um dos grupos, ao receber a mensagem de que as armas estavam a caminho, escreveu uma carta a Leonel Brizola, postando-a, no dia 30.03.1964. As forças armadas brasileiras que através do seu serviço de inteligência havia detectado toda a manobra, decidiram na manhã do dia 31.03.1964 depor o poder constituído do país, então favorável ao comunismo e assumiram o governo da nação. Nesse ínterim a carta de Miguel que jazia no correio, em sendo confiscada, foi objeto de repercussão nacional. A principal revista da época, "O Cruzeiro", soltou a seguinte manchete: "Dentre as inúmeras cartas confiscadas, vamos publicar uma, vinda de Martinópolis, cidade do interior paulista: Digníssimo Camarada Brizola: Recebi a mensagem avisando que as armas estão a caminho, mas não entendi. Porque armas? A nossa arma não é o voto popular, com o qual pretendemos chegar ao poder? Com todo respeito peço que me esclareça. Assinado, Camarada Miguel Graciano do Nascimento". Levado à Delegacia, graças a tanta ingenuidade, foi logo liberado e nunca mais se envolveu em política. Miguel apesar dos pesares, apesar da sua choradeira e das constantes reclamações que fazia da vida, era uma boa alma que nunca prejudicou ninguém. Com alguma freqüência nos visitava, pois que era muito apegado a mamãe, mas, com os demais familiares de origem, era apático, quase indiferente, aliás, mamãe sempre nos aconselhava a termos paciência com ele porque, segundo ela, Miguel tinha sofrido muito na vida. Miguel amava muito sua mulher, seus filhos e seus netos. Nos últimos tempos, não obstante sua índole, sempre que eu viajava ao interior, passava algumas horas com ele e com sua família e assim o visitava duas vezes por ano pois sentia um certo respeito e mesmo gratidão por ele. Sua filha Osmarina casou-se e foi morar em Guarulhos-SP. Seu filho Rui também se casou e continuou morando em Martinópolis-SP com a profissão de barbeiro e pelo que pude observar, o filho mais velho de Rui já tinha se iniciado na profissão do pai e do avô. Miguel que nunca saiu de Martinópolis, aposentado com um salário mínimo, continuou com o salãozinho até o seu falecimento aos 74 anos, em 03 de janeiro de 1999, acometido de câncer na próstata. - f) - MANOEL BENEDITO - O primeiro filho de meus pais, criado por Dindinha, com o qual não tivemos convivência, era tratado por um dos seus apelidos, Dedé ou Nascimento. Desde que o percebi no mundo, ele já era casado com Mariazinha, uma mulata clara bastante ativa. Tinha carro próprio, demonstrando razoável condição econômica. Sempre foi uma pessoa dinâmica e trabalhadora. Na minha pré-adolescência, Dedé ingressou na polícia onde trabalhava como Escrivão e sempre morou nas cidades próximas de P.Prudente, primeiro em Indiana-SP e finalmente em Rancharia-SP. Dedé teve um casal de filhos, Sônia e Sérgio, sendo que este último, faleceu antes dos 25 anos de idade. Dedé que praticamente passou a vida nessa última cidade, bacharelou-se em Direito e depois de aposentado como Escrivão, tornou-se advogado, vindo a falecer aos 63 anos em 1985, vítima de problema cardíaco. - CONSIDERAÇÕES GERAIS - Uma característica marcante em todos nós é a de que, nenhum se livrou de ser atingido pela conduta de papai, com a conseqüência que sempre nominei de "o custo da separação de casais" que a exemplo de uma operação comercial cuja fatura, na inadimplência dos reais devedores, acaba sempre sendo paga pelos fiadores, no caso, os filhos da família. Em maior ou menor grau, somos todos neuróticos, sobreviventes de uma verdadeira guerra psicológica. Nem por isso devemos condenar papai, afinal, a vida é um teste de qualidade a que somos submetidos por Deus e se não fossem aqueles, teriam sido outros os problemas que dignamente teríamos de enfrentar. Deixando o negativismo de lado, podemos observar que essa experiência demonstrou que felizmente não faltou inteligência a nenhum de nós. Diz um popular provérbio que: - "Os inteligentes aprendem com a experiência alheia. Os medíocres com a própria e os tolos, nunca". Nenhum de nós se separou das esposas, o que não quer dizer que todos casamos bem e que não houve necessidade de algum sacrifício pessoal, para se evitar separações por incompatibilidade entre cônjuges. Com a experiência de papai, a exemplo do referido provérbio, aprendemos a preservar nossas famílias, objetivando o bem estar e o futuro de nossos filhos. Pode ser observado também que dos sete filhos de meus pais, os três que morreram com problemas cardíacos eram baixinhos com pouco mais de um metro e cinqüenta de altura, peso acima do normal e com suas características físicas semelhantes às de mamãe que também faleceu do coração, mas devido a vida regrada, conseguiu chegar aos 81 anos. Minha irmã Nair, meu irmão Miguel que morreram de câncer, o meu irmão Noel e eu, o mais alto, com um metro e sessenta e oito de altura e peso de 68 quilogramas, tivemos nossas características físicas bem próximas das de papai que passava de um metro e sessenta, peso proporcional e morreu de câncer na próstata. - CAPÍTULO IX - O RELACIONAMENTO SOCIAL - A vida nos era complicada. Papai para fustigar mamãe e indiretamente a todos nós, mantinha-nos confinados no casebre da 15 de Novembro. O dinheiro era pouco e por conseguinte nossas roupas, empobrecidas. Nos cursos que freqüentávamos, nossos colegas em geral pertenciam a famílias mais abastadas. Entristecia-me quando podíamos freqüentar aulas sem uniformes. Entre colegas que pareciam desfilar com roupas típicas da moda, lá estava eu, sempre com a mesma calça, com a mesma camisa e sapatos rotos. Por mais que tentássemos reforçar nosso círculo de amizade, não tínhamos coragem de convidar os amigos a freqüentar nossa casa; enquanto as da maioria deles eram bem apresentáveis, a nossa, uma simples casa de madeira escurecida, sem pintura, onde imperava desmedida aparência de pobreza, nos impedia desse relacionamento. O resultado é que a cada dia fui me tornando uma pessoa deprimida, desolada e com as feições abatidas. No período matinal convivia com meus vizinhos, verdadeiros moleques de rua que, ou estavam jogando futebol ou estavam brigando. Viviam numa disputa ferrenha para ver quem era o mais forte, quem jogava futebol melhor ou quem abusava sexualmente do outro. Escola? Nem pensar! A maioria deles sequer concluiu o curso primário. A tarde, meus outros colegas não falavam em futebol. Na aula de educação física jogávamos basquete e vôlei. Ninguém falava em sexo, nem se agredia fisicamente. Nosso assunto era química, física ou matemática. Se de um lado não conseguia relacionar com os meus vizinhos, do outro não tinha condições de participar do mesmo lazer dos colegas de escola que, nos finais de semana freqüentavam o Tênis Clube ou a sede social da Prudentina, a A.P.E.A., onde praticavam natação e outros esportes. Essa foi uma das razões que me levaram a não gostar de futebol que, na minha infância, era esporte de pessoas grosseiras, entre as quais freqüentemente se ouvia orgulhosos gritos: "Eu sou macho! Eu sou macho!" (sic). Esqueciam-se de que os animais, também eram machos, iguais a eles. Desde aquela época , contrariando essa afirmação, eu que admirava tanto as mulheres, orgulhava-me sim, de ser homem, pois ser macho ou ser fêmea, sendo apenas uma característica física, o somos independente da nossa vontade, enquanto que ser homem ou ser mulher, era e é um ato de sabedoria, de amor próprio, de amor ao próximo e à família. Inclusive, a Bíblia nos ensina que o homem (não o macho) foi feito à imagem e à semelhança de Deus. Para implementar nosso sofrimento, éramos também atingidos por uma outra manifestação negativa, própria da humanidade - o preconceito - sobressaindo em todos os momentos da nossa existência, apesar de severamente combatido. Inclusive as legislações modernas incriminam algumas de suas modalidades, em especial o racial e o religioso. Quanto ao econômico, o mais abrangente de todos, não há como combate-lo. Ser pobre é o que não se deve desejar nem ao pior inimigo e muito menos a si próprio. A sociedade apesar de mostrar grande preocupação com a pobreza, taxativamente rejeita as pessoas pobres. A preocupação é com a pobreza e não com os pobres. Fazem campanhas sociais, todavia, movidos pelo exibicionismo ou sentimento menor, lançam-se em ações populistas arrecadando e doando alimentos aos menos favorecidos . Fingem esquecer do sábio provérbio chinês: "Não dê peixe a quem tem fome. Ensine-o a pescar". Efetivamente se lhes dessem oportunidade de trabalho, as entidades beneficentes perderiam a razão de ser e seus objetivos, inclusive os não revelados, seriam prejudicados. Convém-lhes que os pobres continuem existindo. - CAPÍTULO X - MEU RELACIONAMENTO PESSOAL - Sou uma pessoa que desde o início da minha interação com a vida, já manifestava forte atração pelas mulheres, talvez uma projeção da admiração que sentia por mamãe. A partir de 1941, em Álvares Machado, abandonada, mamãe que para ganhar a vida trabalhava como lavadeira, algumas vezes participava da colheita de algodão nos sítios próximos e deixando meu irmão mais novo sob os cuidados dos demais, levava-me com ela. Lembro-me que na lavoura não ficava olhando as flores, os bichinhos ou as borboletinhas como as crianças normais certamente ficariam. Ao contrário. Gostava de admirar as mulheres que ali trabalhavam. Certa vez, ao comentar que estava gostando de uma delas, ao ver que a moça havia percebido, quase morri de vergonha e procurei esconder-me sob as saias de mamãe. Nessa mesma época, uma jovem chamada Luzanira, talvez interessada em meu irmão Miguel, freqüentemente passava em minha casa, quando vinha de Pirapozinho-SP onde morava. Lembro-me que adorava ficar em seu colo e, na sua ausência, dizia que era minha namorada. Até meus dez anos de idade, era comum roubar beijo no rosto das meninas que moravam próximas de casa. Certa feita, ao beijar Iracema, a filha de uma família de italianos, seu irmão mais novo que a tudo assistia, avançou contra mim. Além de ter a irmã beijada, o garoto levou uma violenta surra e seu pai veio tirar satisfações com mamãe, exigindo que me desse mais educação. Aos l5 anos fui beijado pela primeira vez por uma mulher adulta e mais velha do que eu. Era a Luiza Yamashita, uma japonesinha, colega de classe. Nessa época também fui cortejado por uma outra moça aparentando uns 35 anos de idade, a Carmélia que procurava, de todas as formas, me conquistar. Na ocasião emprestou-me Cr$ 3.050,00 que lhe devolvi anos depois, sem juros, sem correção monetária e sem qualquer cobrança da sua parte.. Além das duas, tive outras pretendentes compatíveis com minha idade. A Vicentina e a Maria José Gomes mas ambas, social e fisicamente, não me agradaram. Desde o cursinho para o exame de admissão ao ginásio, passei a ter empatia muito grande com uma coleguinha da classe e sempre a presenteava com goiabas madurinhas, colhidas na goiabeira próxima ao quintal de minha casa, mas devido a nossa diferença social, apesar da reciprocidade, me afastei, sonhando que um dia, quando as condições permitissem, pudesse procurá-la. Seu nome era Deuci Lopes Duran. Como nenhuma menina desse gabarito, até então, havia me dispensado aquele tipo de atenção, por ela me apaixonei e posso afirmar, com todo respeito a minha esposa que em sendo platônico, foi o primeiro amor da minha vida, cuja lembrança até hoje subsiste. Antes que meus sonhos se concretizassem, Deuci se casou com outro e não sendo feliz, suicidou-se sem saber dos meus sentimentos e no final dos anos 70, visitei seu túmulo no cemitério de Presidente Prudente. Tempos depois, interessei-me por outra menina, cujo nome não me recordo, filha mais nova da Dona Delfina, uma inspetora de alunos do I.E Fernando Costa. Apesar da minha insistência recebi um disfarçado "chega pra lá." A exemplo do que aconteceu com essa, a dificuldade de aproximação com as meninas que me interessavam era tão grande que a cada dia tornava-me mais arredio. Recolhido ao meu quarto onde só contava com a companhia de Deus, com quem mentalmente dialogava, anotava em um diário cifrado os meus sentimentos. Hoje compulsando o referido diário, li em uma de suas mensagens: "21.Ago.1955, Domingo. - Até hoje interessei-me por cerca de 25 meninas, dentre elas: Nenê, Vilma, Judite, Claudete, Dolores, Elza, Carolina, Catarina, Neuza, Grinália, Deuci, Zilda, Ivone, Terezinha e Cleonides." - Destas só me recordo de duas ou três, ignorando quem são as demais. Certa feita, indo passear em Assis-SP na casa de meu irmão Gonçalo, um dos seus cunhados levou-me a uma vila de prostituição onde relacionei-me com a primeira mulher adulta de minha vida. Aos 13, convidado, "fiz" com uma menina de 11, cujo nome recuso-me declinar. Lembro-me que paguei a prostituta com uma nota de cinqüenta cruzeiros e naquela ocasião ocorreu-me um fato perigoso, mas hilariante. Dias depois do meu contato com a mulher, comecei a suspeitar que havia adquirido alguma doença venérea. Fui consultar papai e ao tentar comentar o assunto, fui repreendido sob a alegação de que o estava desrespeitando. Não tendo outra saída, como conhecia um outro senhor que trabalhava de faxineiro numa loja ao lado da tipografia do Godoy, cautelosamente perguntei-lhe o que sabia sobre doenças venéreas. O homem afirmou que, quando moço, tinha sido enfermeiro e era sua especialidade cuidar das pessoas contaminadas por essas doenças; que havia algumas tão graves que para fazer o curativo era necessário cortar o pênis com uma faca no sentido longitudinal como se faz com uma banana e depois costurá-lo com uma agulha. Ao percebeu que havia me deixado apavorado, perguntou-me, como se nada estivesse acontecendo, do porque da minha preocupação e narrei-lhe tudo. O velho, fingindo-se de responsável, propôs examinar-me, logo a noite, num banco do jardim, embaixo de uma árvore que ficava no largo da matriz de São Sebastião, no centro da cidade. No horário combinado (vinte horas) lá estávamos sentados no banco. Alegando que estava passando muita gente por perto, sugeriu que fôssemos a um lugar mais ermo e descemos uma rua próxima, até chegarmos às margens de um ribeirão. Agindo como quem me examinava, ao sentir que estávamos a sós, repentinamente começou suspirar e fazer propostas indescritíveis, identificando-se como homossexual passivo. Apavorado comecei a me afastar e o homem só se conteve, quando lhe prometi que o encontraria no dia seguinte as três da tarde, no banheiro da estação rodoviária da cidade que ficava no inicio da Rua Cassimiro Dias. - Cuidado com as crianças! - Dizem que até hoje, um velho permanece nas imediações do banheiro daquela estação, esperando por um menino. Em 1953 fiz um curso por correspondência de rádio-técnico, no Instituto Rádio Técnico Monitor, sediado a Rua dos Timbiras em São Paulo-SP. Tentei a profissão por conta própria, mas criança como era, felizmente não deu certo e a abandonei. O meu diário demonstra uma grande preocupação com as mulheres e com o futuro profissional que até então se apresentava obscuro, perigoso, desconhecido e com papai sempre me dizendo que no dia em que saísse de casa iria me alimentar com sopa de pregos, insinuando que a vida me seria muito difícil. Sem nenhuma luz a me guiar, apoiava-me apenas na confiança que depositava em Deus. Nessa época, não tendo como conquistar determinadas meninas, contentava-me com as socialmente inferiores, só não avançando mais, para não engravidá-las. ------------ x x x -------------------Continua... Se você se interessou pela minha biografia, peça a continuação pelo Email : jaime_meira@yahoo.com.br .

Jaime Meira do Nascimento

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