AUTOBIOGRAFIAS
José Wladimir Klein
Reg. EDA/Biblioteca Nacional Nº160.208 - Lv.265 - Fls.338 17/09/98
É proibida a reprodução dos textos, por quaisquer meios, sem a autorização
escrita do autor. E-Mail: wladimirk@ig.com.br A P R E S E N T A
Ç Ã O Esta nova tentativa de comunicação nasceu ao acessarmos o
site do "Museu da Pessoa" na Internet. Ali lemos biografias maravilhosas,
verdadeiros exemplos de vida, e tomamos conhecimento de dicas indicando
como escrever uma auto biografia. Consegui compor um texto sobre
acontecimentos de minha vida enviando-o para o Museu que o publicou
em suas paginas. Percebi, através desse exercício, que teria muita
coisa a contar se rebuscasse em minha memória; coloquei em ação
essa tarefa que resultou no que está sendo apresentado aos leitores.
Falo leitores, sem necessariamente ter a intenção de transformar
os meus textos em livros, na expressão correta do termo, e sim considero
que um meio bastante eficaz para que os nossos trabalhos sejam do
conhecimento de um maior numero de pessoas será através da digitalização,
oferecendo-os gratuitamente através da Internet. Não divulgo fatos
de minha vida por vaidade e sim para que cada ato possa servir de
experiência para que as pessoas possam avaliar o que poderão alcançar
se tiverem disposição para a luta. Muitas pessoas, embora tenham
tudo para vencer acabam soçobrando porque não tiveram a tenacidade
e sabedoria necessárias para tirar o melhor proveito das ferramentas
que lhes foram colocadas á disposição; outras em que pese a falta
de instrumental apropriado, aproveitam as poucas coisas que possuem,
transformando-as em ferramentas para o sucesso. Muitos dos fatos
ocorridos em minha vida, já os descrevi em outros livros, razão
porque me abstive de repeti-los aqui. Talvez você já tenha lido
muitas biografias de homens famosos, e com certeza aprendeu muitas
lições que poderão transforma-lo para que venha alcançar a notoriedade.
Faltava-lhe, talvez, conhecer o que faz, em sua vida, um homem comum,
porque a maioria de nós somos pessoas comuns que passam a vida sem
maiores transformações, pensando que o que viveram não teve nenhuma
significação. Isso é puro engano, pois cada um de nós realizou uma
quantidade de ações que puderam dar direcionamento a outras pessoas.
De qualquer maneira que agirmos, sempre estaremos influenciando
as pessoas, por isso a nossa vida e a maneira que vivemos é importante
para que sirva de exemplo a outras pessoas. No sentido positivo
ou negativo; se foram negativas as nossas ações estaremos orientando
as pessoas como não se deverá viver; se nossas ações forem positivas
estaremos indicando um caminho seguro por onde as pessoas poderão
chegar a algum lugar. Você que lê este texto, aproveite para analisar
a sua vida e anotar o que nela existe de positivo e de negativo
e depois desse exame aproveite para operar uma transformação que
o levará à conquista de novos patamares que poderão influir em sua
felicidade. Felicidade é atrás do que todos nós estamos, mas, o
que é a felicidade? Será que é a posse de bens materiais? Para mim,
felicidade é a satisfação do dever cumprido. É olhar para trás e
podermos contemplar algo que realizamos e ficarmos satisfeitos com
o resultado. É poder deitar no travesseiro e agradecer a Deus porque
Ele derramou bênçãos sem conta em nossa vida. Isso alcançamos quando
damos ouvido à voz do Senhor que nos ensina e nos orienta para que
sejamos puros de espírito e grandes de coração; imitando o Pai,
que por misericórdia doou a vida de seu próprio filho para que nós
pudéssemos ser salvos e justificados de toda a iniqüidade. Í N D
I C E 01 Apresentação 02 Índice 03 Memórias de Um Cidadão Comum
11 Duas Ocorrências Interessantes 12 Minhas Paqueras Abortadas 13
Como Quase Perdi a Minha Virgindade 14 Da Frustração à Tenacidade
15 Contato Com o Sobrenatural - Aniversários 16 Minha Mãe 18 Um
Acontecimento Marcante 20 Meus Avós Paternos 22 Minha Avó Materna
23 Meus Tios 24 Um Evento Que Me Trás Recordações 26 Os Intocáveis
26 Morre Uma Esperança 28 Religião 30 Erros e Acertos 32 Os Personagens
Que Me Rodeavam 34 Meu Ramo Familiar Materno 35 O Nascimento De
Meus Filhos 37 A Chave Do Sucesso 37 Pessoas Queridas 39 Estar Sempre
Atento 40 Certeza da Esperança 42 Duas Vidas em Contraste 43 O Amor
Não é Propriedade 45 Pensamentos 46 Piadas 48 Foto de Bruder Klein
MEMÓRIAS DE UM CIDADÃO COMUM Meu nome é José Wladimir Klein, (Mik
para os íntimos, apelido que ganhei quando garoto não sabendo pronunciar
o meu nome, quando o fazia só saia a última sílaba de Wladimir e
a primeira letra de Klein); nasci no dia 06 de Novembro de l.928
no, então, município de Santo Amaro, que em l.935 seria anexado
ao município da capital mantendo a mesma denominação, hoje bairro
de Santo Amaro, São Paulo, na zona sul. Quando nasci aquele bairro
era o final da civilização, ponto terminal da linha de bondes que
trafegavam em leito próprio, como se fosse uma via férrea. Meu pai,
Jacob Klein era filho de uma índia, Vicência Alves, natural do lugarejo
de nome Cipó, muito além do bairro de Santo Amaro, sendo seu pai,
Pedro Klein, imigrande de origem alemã. Minha mãe, Maria de Lourdes
Moura, era filha "natural" de Honorata de Moura, tendo sido reconhecida,
posteriormente pelo pai que era um comerciante santista, cujo nome,
se não me engano, era Francisco Araújo. Minha avó, Honorata, era
filha de Justina, uma ex escrava alforreada antes da lei libertadora
por benesse de seu Senhor Tenente Coronel Adolpho Pinheiro cuja
memória é reverenciada pela principal avenida que corta o bairro.
Meu pai foi militar pelo período de quatro anos tendo dado baixa
da "Força Pública" porque a profissão o mantinha muito afastado
da família; com a dificuldade de emprego, passou a fazer jogo do
bicho para um neto do Adolpho Pinheiro, (Waldomiro), e posteriormente
trabalhou em vários ofícios. Tanto minha mãe como minha avó materna,
e talvez até a sua própria mãe, Justina, nasceram no casarão da
Av. Adoplpho Pinheiro, nº01 que pertencera ao patrono da avenida
e foi ocupado por uma de suas filhas, Maria José Pinheiro (Mariquinha)
, até a sua demolição para alargamento da avenida. Meu irmão, Waldemar
Conceição Klein e eu também nascemos naquele solar onde meus pais
passaram a residir depois do casamento, que aconteceu em 15 de Abril
de l.925. Ao tempo em que meu irmão e eu éramos criança, Santo Amaro
era um núcleo de poucas ruas, onde as famílias todas se conheciam
e geralmente consorciavam-se entre si. O casarão da família Pinheiro
que situava-se na esquina da hoje denominada Rua Voluntário Delmiro
Sampaio era um centro onde juntavam-se as crianças de todo o bairro,
visto que ali, no amplo quintal realizávamos inúmeras brincadeiras,
como quermesses ( onde o dinheiro que circulava eram tampinhas de
garrafas, o que obrigava as crianças a colherem todas as que encontravam
pelo bairro); jogos de futebol, brincadeiras de "bota" "garrafão"
" pique esconde", réplicas dos heróis do momento nos cinemas como
o "Aranha Negra"; chegamos a organizar um grupo de teatro, apenas
com as crianças que, foi um sucesso extraordinário; participavam,
além de nós, Célia filha de um Juiz (Dr. Oscar Fernandes Martins
que era casado com uma neta de Adolpho Pinheiro, Da. Zizinha); o
filho do dono da casa de carnes "Rex" que participava equilibrando-se
em um velocípede de apenas duas rodas; o filho de um sapateiro (Atílio);
o filho de um dos proprietários da Agência Ford (Luizinho) e muitos
outros que no momento não me recordo os nomes. Os ingressos eram
palitos de fósforos e, por incrível que pareça, os freqüentadores
eram, na maioria, adultos. O dono da Agência Ford, Raphael Navarro,
ficou tão entusiasmado que pensou em desalojar um clube de futebol
(Cica) que ocupava um seu terreno, para ali montar um circo para
que se fizessem as apresentações para toda a cidade, visto que as
mesmas eram feitas na varanda do casarão. Só não foi avante essa
idéia porque pessoas mais ponderadas fizeram ver àquele empresário
a temeridade da realização que colocaria uma enorme responsabilidade
nas mãos de crianças ainda em formação. O Dr. Oscar construiu um
palco no porão de sua casa para que fossem feitas apresentações
em festas de aniversário. Meu irmão e eu freqüentamos, talvez nos
primeiros dois anos, a escola particular São Francisco da Prof.a
Da. Carmelina Alvim. Posteriormente passamos a freqüentar uma outra
escola, cuja prof.a era uma neta de Adolpho Pinheiro, Umbelina Pinheiro
Foster (Lolinha) que iniciou as suas atividades na mesma rua que
havíamos passado a residir (Delmiro Sampaio), até o falecimento
de nosso pai em l.939, quando passamos a estudar, os dois últimos
anos, no Grupo Escolar Paulo Eiró, de onde recebemos, em 1.940,
o único diploma que nos foi possível, do curso primário (hoje Quarta
série do primeiro grau). Órfãos de pai, sem nenhuma pensão, nossa
mãe passou a trabalhar como cozinheira da neta do Adolpho Pinheiro,
Dona Zizinha, com quem havia sido criada; nós saímos do curso primário
e já começamos a trabalhar para ajudar nas despesas da casa. Trabalhei
em um escritório de despachante, em uma casa de móveis, em uma oficina
mecânica, em uma Cia. de produtos alimentícios, Reisa (nessa firma
entrava às 8,00 horas, saindo de casa às seis horas para viajar
quarenta e cinco minutos de bonde, descendo na Praça da Sé e indo
a pé até a Rua Vitória, próximo à estação da Luz, tomava café pela
manhã, comia um lanche de pão com mortadela, sentado na calçada,
e ia jantar às nove horas da noite, quando chegava em casa; na volta
viajando em um bonde superlotado, de pé, cheguei a desmaiar de fraqueza)
até ingressar na "Ligth, de onde passaria para a Cia. Municipal
de Transportes Coletivos. A partir daí os nossos castelos desmoronaram-se,
pois tudo aquilo com que sonhávamos passava a constituírem-se como
metas inatingíveis. Aquele desejo de nos prepararmos para sermos
alguém e vivermos uma vida que nos oferecesse perspectivas de sucesso
morreram, dando lugar à vivência do momento, da luta diuturna para
a sobrevivência. E as ferramentas que possuíamos eram muito rudimentares
para acalentarmos sonhos e fantasias. Mas mesmo assim nunca deixamos
de sonhar porque sentíamos que as pessoas não são unicamente forjadas
nas universidades e sim, também, nas adversidades! E de certa maneira
fomos vencedores, visto que com parcos recursos alcançamos condições
para as quais a nossa desdita não apontava; meu irmão passou a trabalhar
em uma farmácia habilitando-se na profissão e eu tive a oportunidade
de ingressar em uma grande empresa, como mensageiro, tendo galgado
posição pelo trabalho, chegando a chefe da seção na qual iniciei
o meu aprendizado. O meu trabalho foi desenvolvido na seção de tesouraria
da São Paulo Ligth & Power , tendo sido transferido posteriormente
para a mesma seção da Cia. Municipal de Transportes Coletivos onde
completei trinta e dois anos e quatro meses para aposentar-me. Paralelamente,
pelo espaço de vinte e três anos, desenvolvi as funções de secretário
e diretor administrativo no colégio em que minha mãe trabalhou (
Instituto Educacional Infantil, escola para menores excepcionais).
Ligado ao trabalho participei do Sindicato da categoria, como representante
no meu bairro, e na comissão paritária para levantamento e elaboração
do "Quadro de Carreira" da empresa (CMTC). Não tivemos tempo para
aprendermos muitas coisas com nosso pai, pois por ocasião de seu
passamento meu irmão contava 12 anos e eu 10, mas uma semente preciosa
foi plantada em nosso intelecto e em nossa alma, foram retalhos
da "Palavra de Deus" quando ele nos levava para assistirmos aos
cultos na Igreja Adventista do Sétimo Dia ,em Santo Amaro. Não seguimos
a religião depois que ele faleceu, visto que nossa mãe era de formação
católica e nos influenciou, também, mas essa semente viria a frutificar
no tempo certo para que tomássemos conhecimento das verdadeiras
doutrinas que encaminham o ser humano para apropriar-se das promessas
de salvação e de vida eterna através de Jesus Cristo. Isso constituiu-se
em uma plataforma segura para que conduzíssemos os nossos filhos.
Apesar da dificuldade que sempre vivemos, tanto meu irmão como eu
assumimos compromisso familiar muito cedo, com dezenove anos. Nessa
ocasião nossa mãe já havia deixado o trabalho de cozinheira e iniciado
o trabalho em um colégio, onde alcançou a aposentadoria anos depois,
deixando-nos livres para assumirmos os nossos compromissos. .Meu
irmão era um tanto namorador e acabou casando-se com uma jovem do
bairro, de família conhecida, Edith Borba. Eu, muito tímido, não
conseguia relacionar-me com as garotas, ficando unicamente nos olhares
trocados, o que me apontava como um futuro solteirão. Apenas sonhava,
e no meu sonho construía a musa ideal com quem algum dia estaria
me unindo. Estava escrito nas estrelas! Na primavera de l.947, uma
jovem (Jandira Ramalho, filha de Francisco Ramalho e Victória Perassole),
saiu da cidade de Mococa, interior de São Paulo, e viajou para São
Paulo, em visita a parentes que residiam no bairro do Belém ; no
dia 31 de Agosto foi obrigada a visitar outra parente no bairro
de Santo Amaro, propiciando-nos o encontro que nos levaria a estarmos
casando no dia 31 de Julho de l.948, exatamente onze meses depois
de nos conhecermos. Nesses onze meses transcorreram muitos acontecimentos.
A Jandira veio para visitar parentes mas a sua intenção era ficar
em São Paulo; os primos dela arranjaram-lhe um emprego e ela, com
receio de que eu não aprovasse disse-me que o emprego era nas Lojas
Três Irmãos, na Rua Direita. Várias vezes postei-me nas proximidades
para tentar encontrá-la e não me foi possível, em um dos dias quando
percebi ela estava perto de mim, mas vindo de outro lugar; daí ela
não teve outra alternativa senão me falar a verdade, o emprego era
em um bar na Rua da Quitanda (era, justamente um bar que eu costumava
ir tomar café com os colegas, quando íamos fazer depósitos ou saques
no Banco do Estado que era próximo); não gostei, não tanto pelo
local e mais por ela ter mentido. Como já estava gostando de fato
dela e previa que consolidaríamos o nosso relacionamento, aconselhei-a
a voltar para a sua cidade, ela aceitou o meu conselho e voltou
para a casa dos pais em Mococa, que, soube depois, aprovaram a minha
conduta. Ficamos nos relacionando por cartas até um dia, um mês
e pouco depois, quando recebi uma das cartas e fiz um suspense para
abri-la. Um meu colega, Moacir Fowler, me convidou para irmos a
Campinas e aceitei; íamos no Sábado e voltaríamos no Domingo. Tomamos
o trem às 20,00 horas na Estação da Luz ; no trem abri a carta e
a saudade bateu fundo; o meu colega que era tanto ou mais louco
do que eu, disse: porque não vamos até Mococa? A sugestão era o
que eu desejava ouvir e imediatamente saímos à procura do guarda
trem para sabermos das possibilidades. Ele nos encorajou orientando
que deveríamos descer em Campinas onde faríamos conexão com o horário
da Mogiana que nos levaria até Casa Branca, de lá poderíamos tomar
um taxi que nos levaria até Mococa. Tomamos esse trem e sacolejamos
na Mogiana (bitola estreita) até Casa Branca. Descemos na estação
e o único taxi que havia estava a serviço de um fazendeiro pelo
falecimento de um parente. O funcionário da estação nos orientou
e tomamos, às carreiras, um trem que ia para Passos MG, para descermos
em São José do Rio Pardo, e conseguirmos um taxi. Em São José uma
família desceu na nossa frente e tomou o único taxi para leva-los
a uma fazenda; falamos com o motorista e ficamos esperando a sua
volta para que nos levasse à Mococa. Até que enfim! Nós nunca havíamos
saído de São Paulo e para mim deveria ser como aqui que os bares
amanheciam abertos; o motorista nos dizia, para aplacar a nossa
fome: Vou deixa-los em frente de um bar que faz o melhor café de
Mococa. Quando chegamos lá o bar estava fechado e não adiantou nada
ficarmos em frente, eram cinco horas da manhã. Ficamos próximos
à praça principal, e quando as famílias começaram a abrir as portas
fomos alvo de curiosidade. Sentamos em uma soleira de porta e esperamos.
Quando eram seis e meia e passava um senhor e o meu colega resmungou,
oh! Cidade miserável, estamos morrendo de fome! O senhor aproximou-se
e disse, vocês são de fora, porque não foram ao Hotel Terraço? E
nos informou e fomos tomar o melhor café que havíamos tomado até
aquela data. No hotel as pessoas também estavam curiosas, querendo
saber se estávamos tratando assuntos políticos, deixamos tudo em
suspense e depois das oito horas fomos procurar o endereço da Jandira.
Quando subíamos a Rua José Bonifácio (o numero era 993) o meu colega
dizia, Mik, você não conhece o pai da moça, e se ele aparece com
uma espingarda e passar fogo na gente? Mas a determinação e a boa
intenção fizeram com que fôssemos bem recebidos. Eu estava meio
constrangido, mas meu colega logo ficou a vontade, eu soube depois
que havia sido porque vira a minha fotografia, em um porta retrato,
em cima do rádio (eu já havia sido aceito, como declarou depois).
Saímos passear pela cidade, e quando voltamos almoçamos e um taxi
já estava nos esperando para levar-nos de volta a Casa Branca, onde
deveríamos tomar o trem que ali passava ao meio dia e meia. Fizemos
a viajem de volta e às oito horas do Domingo, desembarcávamos novamente
na Estação da Luz; em vinte e quatro horas havíamos realizado essa
façanha. Dois meses depois saí de férias e fui para lá e fiquei
quase as férias todas. Voltei com o coração partido porque apegado
profundamente àquela que seria a minha companheira. Passaram-se
mais dois meses e a Jandira conseguiu convencer os pais de virem
para São Paulo; Alugaram a sua casa lá e vieram residir próximo
a parentes no bairro do Belem, mais exatamente na "Mãe do Céu. O
nosso namoro consolidou-se, embora no meio tivéssemos um desentendimento
que quase acabou com tudo, mas fizemos as pazes e em 31 de Julho
de l.948 realizamos o nosso sonho que tem durado até agora. Fomos
morar no quintal da casa onde já residia, onde construí um cômodo.
Após os primeiros meses em que ficamos tomando refeições em casa
de minha mãe, resolvemos assumir a nossa casa, dividimos o cômodo
com o guarda-roupas e um guarda-louças que compramos e transformamos
o espaço em quarto e cozinha; precisávamos subir na cama pelos pés
da mesma; do outro lado ficava uma pequena mesa, duas cadeiras,
um fogão a querosene, em cima de uma mesa que eu mesmo construí
de um caixote (quando derramava qualquer coisa exalava um terrível
cheiro de querosene!). Neste ano de l.998, em 3l de Julho estaremos
completando 50 anos de união. Já aperfeiçoamos o nosso relacionamento?
Ainda não! Como poderíamos construir algo perfeito sendo seres imperfeitos?
Mas a persistência, a compreensão de ambos os lados fizeram com
que fossemos, através dos anos, superando as nossas diferenças,
transpondo obstáculos para chegarmos a poder olhar para o nosso
passado, contemplar os nossos filhos e netos e concluirmos que construímos
algo bom e sólido. Assumindo a nossa responsabilidade criamos ,
também, uma responsabilidade para os nossos descendentes, qual seja
a do dever de constituírem famílias que consolidem a sociedade para
que possa haver segurança para os filhos, e através deles para toda
a humanidade. Quando casamos, antes fizemos uma análise da situação
que deveríamos enfrentar, contando com o pequeno salário que eu
recebia; entramos em acordo que a Jandira não mais trabalharia fora,
dedicando-se exclusivamente ao lar. Isso talvez por insegurança
minha que pode até ter impedido a ela uma ascensão profissional.
Como os afazeres eram poucos ela matriculou-se, juntamente com minha
mãe e minha cunhada, em um curso de pintura tendo demonstrado o
seu talento. Pena que não deu continuidade ( mais tarde ela voltaria
a pintar) preferindo, na ocasião fazer um curso de corte e costura,
que na verdade foi muito útil, pois passou a costurar para ela,
para mim e para as crianças, ajudando significativamente no orçamento
doméstico. Grande parte do patrimônio que conseguimos formar devemos
à disposição para o trabalho, de minha esposa, que sempre conservou
o nosso lar agradável e acolhedor, além de sua capacidade de organização
e economia, aproveitando tudo de tal forma que o salário parecia
multiplicar. Não digo que não passamos por dificuldades, mas dentro
de uma organização, gastando com proficiência os recursos, alcançamos
todos os nossos objetivos. Hoje ainda tentamos passar esses princípios
aos netos, para que eles saibam administrar as suas vidas com a
finalidade de caminharem para as realizações de suas aspirações.
Quatro anos depois de nosso casamento transferimos nossa residência
para imóvel próprio no bairro de Interlagos onde residimos por vinte
anos; durante esse tempo, mesmo trabalhando em dois empregos efetivamente
além de outros trabalhos eventuais que desenvolvia, encontrei tempo
para participar do trabalho comunitário através da S A I - Sociedade
Amigos de Interlagos onde fui Secretário, Conselheiro, Presidente
do Conselho Deliberativo, Diretor de Relações Públicas e Secretário
Geral, tendo o privilégio de colaborar para que muitos nomes de
qualidade passassem a participar da Sociedade dando-lhe um dinamismo
que a colocaria em destaque no cenário comunitário. Ali convivi
com companheiros muito caros estabelecendo amizades sólidas que
o tempo jamais poderá desgastar. Não gostaria de citá-los nominalmente
com receio de esquecer-me de alguns, mas terei de citar: Calixto
José da Silva, Antônio Fávaro, Luiz Rattis, Norberto Ramos, Aristóteles
Costa Pinto, João Tappis Simão, Luiz Maruyama, Ivo Lima Neto, Walter
Salvador Intelizano, Adécio de Andrade Valle, Domingos Claro da
Silva, Guerreiro, Martins, Antenor, Heleno e outros que a memória
não alcança no momento. No dia 28 de Setembro de l.972, exatamente
e coincidentemente quando fazia vinte anos que havia chegado ao
bairro de Interlagos, dele me despedi para ir residir em um imóvel
alugado na Rua Augusta, e posteriormente, em l.974, para um apartamento
próprio na cidade de São Bernardo do Campo. Quando mudei para São
Bernardo do Campo, para o Conjunto Residencial Samuel Gompers, em
conversa com minha esposa lhe disse, agora vou aposentar-me, definitivamente,
de todas essas participações de sindicatos, políticas e comunitárias!
Na primeira reunião do condomínio, que participei, sai de lá com
o compromisso de elaborar uma previsão orçamentária, para que fosse
aquilatada a necessidade do condomínio que estava com dividas acumuladas.
Haviam feito a proposta de um aumento de 10% nas taxas e mais uma
taxa de fundo de reserva de 10% das taxas mensais e a mesma não
foi aceita pela assembléia; Naquela ocasião apenas trinta por cento
dos condôminos estavam pagando suas taxas. Assumindo aquilo como
um desafio elaborei uma previsão realista e propus um aumento de
cento e vinte por cento, que mediante a minha exposição foi aprovada.
O custo disso foi que fui obrigado a assumir a administração do
condomínio sendo eleito síndico. Uma campanha foi iniciada contra
o aumento, liderada por uma professora, moradora no conjunto, que
mandou me chamar em seu apartamento e me deu um ultimato para que
não realizasse o aumento porque ela estaria fazendo uma campanha
contra. Eu lhe respondi que o aumento seria efetivado e que quem
não pagasse as suas taxas até o dia estipulado estaria pagando uma
multa de 20%, de acordo com a lei e a convenção de condomínio. No
dia 15 de maio daquele ano setenta por cento dos condôminos pagaram
as suas taxas e no dia seguinte o restante correu ao meu apartamento
para que eu não cobrasse a multa; tiveram de pagá-la, para que as
suas despesas não acrescessem ainda mais pelos juros e correção
monetária, além de honorários de advogado. Em nove meses trabalhando,
abrindo mão do direito de "pró labore" conseguimos sanear as contas
do condomínio, regularizando diversas deficiências, além de deixarmos
saldo em caixa para que fosse cumprida a exigência de colocação
de extintores de incêndio em todos os prédios. Depois da aposentadoria,
quando nosso filho mais velho, Antônio Paulo, já estava residindo
fora de casa, tendo a nossa filha, Maria Teresa, abandonado o curso
de letras, que estava realizando, para casar-se, o caçula, José
Carlos, encontrava-se estudando em Mococa, adquirimos uma chácara
na cidade de Suzano e passamos a fazer uma higiene mental, plantando
árvores e trabalhando nos afazeres agrícolas. Como nosso filho encontrava-se
em Mococa, adquirimos ali uma pequena casa e nos transferimos para
lá em l.977. Aliás esse era um sonho que alimentávamos desde l.947,
quando a visitamos pela primeira vez. Realizamos várias idas e vindas,
no total de cinco vezes. O último período que passamos lá foi mais
prolongado, dez anos, quando tivemos a oportunidade de realizarmos
várias coisas com que sonhávamos. Uma delas foi colaborar com quase
todos os jornais locais como articulista e redator. Nessa função
levantamos a idéia de a cidade eleger um de seus filhos para o cargo
de Deputado Estadual, o que encontrou enorme ressonância culminando
com a indicação do médico Dr. Antônio Naufel, cuja campanha coordenamos
e que recebeu uma votação maciça na cidade, mas que infelizmente
não bastou para elegê-lo. Outra foi a fundação de uma associação
literária, a A L I M - Associação Literária Mocoquense que também
editou um jornal literário "A Cigarra" que alcançou projeção nacional
e até chegou a ser distribuído em outros países. Fundamos ali ,também,
o" Conselho de Ação Comunitária" com a finalidade de coordenar as
ações em benefício da comunidade, no qual participei como Secretário
Geral. Viríamos a participar, ainda, da fundação da Associação dos
Aposentados de Mococa onde ocupamos o cargo de Vice Presidente.
Naquela cidade iniciamos, em l.989, um trabalho evangelístico voltado
aos médicos ( MINOEVAM - Ministério de Oração e Evangelização aos
Médicos) que consiste no envio de mensagens à categoria profissional
e que teve prosseguimento quando nos transferimos novamente para
São Bernardo do Campo. Participei, ainda , em Mococa, do Primeiro
Congresso de Saúde, como representante da ALIM; Participei de oficina
de Curadoria de Exposições e outra sobre Literatura Brasileira;
integrei a Comissão de Bibliotecas do Município. Fui Presidente
do CONSEG - Conselho Comunitário de Segurança. Depois da aposentadoria
realizei outro de meus sonhos que foi escrever, sob o pseudônimo
de Bruder Klein (Irmão Pequeno) , constituindo-se a minha produção,
até o momento, nos livros "Mensagens e Reflexões" "Contos Para Ler
a Dois na Cama" "Devaneios" "Minhas Incursões pelo Jornalismo" "Proversando"
" Nova Dimensão" "Contos Pontos e Contatos" "Cartas Vivas" "Serões
em Família"; "Relendo Cartas" ; "Memórias de Um Cidadão Comum",
"Poesias Reunidas" "Frases e Pensamentos", "Aconselhamento Matrimonial"
"Outras Mensagens" "Outras Histórias" "Aconselhamento Matrimonial
II", "Relendo Cartas II", "Walkyria", Uma História em Três tempos.
Todos eles estão disponíveis em um site na Internet de onde foram
retiradas inúmeras cópias, havendo nós recebido muita correspondência
elogiosa. Aguardamos, agora, a oportunidade de publicar essas obras,
não possuído pelo desejo de sucesso literário ou financeiro e sim,
unicamente, para compartilhar com outras pessoas os pensamentos
e experiências. Quem desejar receber cópias digitais, gratuitas,
de qualquer dos livros será apenas solicitar mandando-nos um E-Mail:
wladimirk@ig.com.br Os arquivos estão digitalizados no Word/97,
sendo necessário que a pessoa possua esse programa em seu computador
para poder visualizar o conteúdo dos livros. De nossos filhos nos
chegaram um patrimônio extraordinário que são os netos, no total
de sete: Paloma, do Antônio Paulo; Dirceu , Timóteo, Silas e Priscila,
da Maria Teresa e Thais e Nathália, do José Carlos, com quem temos
um relacionamento maravilhoso e que são, perante nossa corugisse,
jovens que nos dão muito orgulho. Hoje residimos em nosso apartamento
em São Bernardo do Campo, realizados, mas ainda sonhando com o futuro,
pois embora o passado nos alimente pelas lembranças e o presente
possa ser rico em realizações, ainda divisamos o futuro que temos
a certeza nos trará muitas alegrias, pelo que poderemos viver nas
realizações tanto nossas, ainda, como na de nossos descendentes.
Ainda recentemente deixamos a máquina de escrever e aderimos à informática,
onde a cada dia estamos aprendendo mais alguma coisa. Cremos que
assim deverá ser a vida; vivida a cada dia e sempre nos renovando
e iniciando novas coisas. Vivendo assim jamais nos sentiremos velhos
porque o nosso intelecto e o nosso espírito estarão sempre projetando
novas investidas para o futuro. Hoje, quando olhamos para trás e
já nem reconhecemos aquele jovenzinho orfão, que era falto de esperança,
percebemos que por mais que seja desalentadora a nossa situação,
se formos perseverantes, se soubermos colher em nossas atividades
os ensinos que a vida poderá nos fornecer, poderemos vencer, mesmo
sem as ferramentas mais apropriadas. Aqui terei de incluir uma frase
que li em um livro, tendo mudado o meu modo de pensar, que lamentavelmente
não lembro mais o nome da autora: " Não existe situação desesperadora,
existem pessoas que se desesperam em determinadas situações". A
sabedoria da humanidade está acumulada nos livros (dentre os quais
está a Bíblia que é a Palavra de Deus, e é o mais importante porque
orienta , principalmente, a nossa vida espiritual), de onde poderemos
colher tudo o que precisarmos para sermos eficientes em quaisquer
circunstâncias. A realidade está a nos provar isso, enquanto muitos
não conseguem vencer, em que pesem todas as oportunidades que tiveram,
outros conseguem superar as suas deficiências e realizarem acima
de suas possibilidades. Duas coisa deveremos ter bem presente em
nossa trajetória, são a consciência de nossas limitações e a capacidade
de contentarmo-nos com apenas as coisas que sejam fundamentais para
a nossa vida. Uma filosofia que aplicamos em nossa vida e que tentamos
transferir para os nossos filhos é que: "Não importa o quanto ganhemos
como fruto de nosso trabalho, o fundamental será gastarmos menos
do que ganhamos". Este é um esboço geral ao qual pretendemos ir
acrescentando detalhes interessantes de nossa vivência e que desejamos
ir reproduzindo à medida que eles aflorem à memória. Todos sabem
que a memória dos velhos é mais voltada para os acontecimentos que
ficaram no passado, embora não retenhamos os fatos mais atuais.
E à medida que eles se apresentem os anotaremos, desde que possa
apresentar algum interesse. Nessa pesquisa que visa recompor o nosso
passado iremos desvendando os acontecimentos que de uma maneira
ou outra influenciaram as pessoas que deles participaram. De suma
importância são aqueles fatos ocorridos no relacionamento com os
filhos, netos e com cada pessoa que cruzou o nosso caminho, que
poderão ter sido recalcados e passado a influir no comportamento
posterior. Através da sondagem interior iremos recompondo os fatos
para desvendar os segredos da alma. Eu costumo brincar com os meus
filhos que minha esposa e eu, assim como todos os de nossa idade,
estamos vivendo na prorrogação e, de acordo com o regulamento da
copa do mundo de futebol, a decisão se dá por morte subta. Eu só
posso fazer um apelo aos vinte e dois jogadores que eventualmente
componham a minha história, para que nenhum deles marque gol, para
me darem tempo de narrar as coisas que tenho para contar que, sendo
experiências de vida, poderão ser úteis a quem delas possam tomar
conhecimento. DUAS OCORRÊNCIAS INTERESSANTES Quando trabalhei na
casa de móveis (deveria ter doze anos) aconteceram dois fatos interessantes:
O meu patrão era um judeu de idade avançada e era casado com uma
senhora890 que deveria ter menos da metade de sua idade, era uma
pessoa de fino trato, bonita, charmosa, andava sempre muito bem
vestida e perfumada; ela saia todos os dias e ia para o centro de
São Paulo, razão que circulavam maledicências no sentido de ela
possuir uma casa de exploração do lenocínio ( Teve gente que até
alegou ter freqüentado a tal casa!). Ela me tratava com muito carinho,
quando eu era mandado para levar alguma coisa em sua casa. Um determinado
dia, o meu patrão, que, também, me tratava com muita consideração,
me pediu para que acompanhasse a sua esposa até a Estação do Norte
(de onde partiam os trens para o Rio de Janeiro) pois sua esposa
iria viajar, tendo que tomar o trem que partiria às 20,00 horas.
Senti-me muito lisonjeado pela confiança, mas quando contei a minha
mãe ela não queria autorizar de maneira nenhuma; eu protestei porque
achava que não havia nada de mais, e me revoltei tanto que ela acabou
por concordar. No dia determinado, às seis horas da tarde, quando
estávamos esperando o bonde que nos levaria até o centro da cidade,
minha mãe apareceu, dizendo que tinha de ir à casa de uma pessoa
e que, assim, nos acompanharia, para que depois eu fosse com ela.
A Da. Sara ficou um tanto constrangida mas não havia maneira de
não concordar. Eu, também senti-me muito mal com aquela situação.
Fomos, todos juntos, até o centro da cidade e tomamos outro bonde
que nos levou até o nosso destino; quando lá chegamos fomos informados
que não haveria trem nenhum naquele horário. Da. Sara ficou ainda
mais constrangida, pois não havia maneira de explicar como não se
informara de coisa tão importante como o horário de partida para
a sua pretendida viajem. Ela teria de voltar para casa, com a mala
que havia levado e quis dispensar a minha companhia, já que minha
mãe "tinha a intenção" de ir a outro lugar. Minha mãe disse que
deixaria para outro dia e voltamos com ela para o bairro de Santo
Amaro. Ficou a pergunta: O que haveria de verdade por trás daquela
simulação de viajem? Será que, de fato, havia alguma intenção oculta,
como minha mãe desconfiou, talvez um seqüestro, ao qual ela daria
a explicação que teria sido depois de eu a deixar? Àquele tempo
nem cogitava-se dessa modalidade de crime, mas se não fora a astúcia
de minha mãe, quem sabe onde eu poderia ir parar, até em Israel!
O segundo fato foi o que colocou fim à minha permanência naquela
firma: Um Senhor apresentou-se na loja, na parte da tarde, para
comprar uma cama e um colchão de casal, mas precisava que fosse
entregue naquele mesmo dia. O meu patrão disse que não daria porque
o carroceiro (àquele tempo as entregas eram por meio de carroças)
não poderia faze-lo. O freguês disse se ele arranjasse alguém para
levar o colchão, ele levaria a cama . Meu patrão concordou, adivinhem
pensando em quem? Pois é, era eu mesmo. A casa que o homem havia
alugado distanciava-se, seguramente uns oito a dez quilômetros (quem
conhece São Paulo pode avaliar a distância de Santo Amaro até o
Brooklyn Novo, onde hoje passa a Av. dos Bandeirantes; e a casa
ficava próximo ao Rio Pinheiros) Ele colocou a cama na cabeça e
eu o colchão e caminhamos até a casa dele onde chegamos quando já
era noite. No caminho encontramos minha mãe que passeava com algumas
pessoas conhecidas e escadalizaram-se com a monstruosidade daquele
emprego que me obrigava a cumprir tarefas acima da capacidade de
uma criança de doze anos. No dia seguinte ela determinou que eu
deixasse o emprego. Foi quando uma colega sua arrumou-me para trabalhar
na Reisa, onde, também, não foi um bom emprego. Chegamos lá às oito
horas da noite e o bom homem me deu uma "gorgeta" de quatrocentos
reis que daria para mim tomar o bonde. Mas aí ainda encontrei disposição
para andar algumas paradas a pé afim de chegar ao ponto de onde
só pagaria duzentos reis, e me sobraram duzentos reis para outras
coisas MINHAS PAQUERAS ABORTADAS Aos doze anos tive um relacionamento
impar que ficou marcado em minha mente. Foi com uma menina da mesma
idade que eu de nome "Carminha". Ela era colega das filhas do Dr.
Oscar Fernandes Martins, que era onde minha mãe trabalhava, e foi
uma de suas filhas que trouxe-me um bilhete dessa menina dizendo
que gostava de mim; mesmo dentro de minha timidez habitual consegui
alimentar essa fantasia durante um carnaval. Ambos éramos sócios
do Clube Bandeirantes, em Santo Amaro e freqüentávamos as matinês
que ali eram apresentadas. Dançávamos, em par constante, sem sequer
conversarmos, quando acabou o carnaval acabou-se, também, aquilo
que para nós era um namoro. Mas se as palavras não conseguiam ser
ditas os nossos olhares matraqueavam tudo o que se passava em nossos
íntimos. Silvia foi outra menina a qual incluí a história, em um
de meus livros, parecida com a anterior. Aos quatorze anos creio
que ocorreu o fato mais marcante de toda a minha vida; foi o conhecimento
de uma menina pouco mais jovem que eu, Walquyria, que passou a ser
a musa encantada transformando-se no mito que viveria eternamente
em minha vida. Infelizmente foi tomada para o desconhecido ficando
só a lembrança que constantemente machuca o coração pela saudade
gerada. Haviam duas irmãs que faziam o "footing" no bairro de Santo
Amaro ( para os que não sabem o que é isso, era o passeio em uma
determinada praça ou rua, onde os jovens encontravam-se, daí nascendo
as paixões que geralmente levavam ao casamento), chamavam-se Caridade
e Clementina, a primeira era alta e a Segunda mais baixa; certa
vez, depois de muitos ensaios, em companhia de um colega (Bilo)
fomos falar com elas, eu com a Clementina e o Bilo, que era baixinho,
com a Caridade, ficando pelo ombro dela; o Bilo já era experimentado
começou logo a conversar, e eu precisei caminhar uns terríveis cinco
minutos para que conseguisse proferir algumas palavras, foi um fiasco
e as duas irmãs ficaram desiludidas e nos dispensaram. Posteriormente
fiquei muito amigo de um irmão dessas jovens que era conhecido pelo
sobrenome , Mendonça. Já falei que meu irmão possuía muita facilidade
para abordar as meninas, tendo namorado várias. Um dia me abordou
e disse que eu tinha de arranjar uma namorada, se eu não alimentava
algum interesse por alguma? Falei que sentia muita simpatia por
uma determinada jovem e ele me deu um ultimato: te dou quinze dias
para falar com ela, se não o fizer eu vou conquistá-la e você ficará
na mão. Nunca nasceu-me coragem e ele também acabou não cumprindo
a sua promessa por ter conhecido a jovem com quem veio a casar-se.
Quando meu irmão começou a namorar essa que acabou sendo minha cunhada,
ela tinha uma prima que passou a me assediar, mandando recados que
gostaria de namorar comigo. Saíamos fazendo programas juntos mas
unicamente por amizade. Com essa jovem (Margarida) houve um caso
interessante, ela freqüentava um centro espírita, como médium e
eu com outros jovens, sempre depois de nossas andanças passávamos
por lá e ficávamos apreciando por uma janela. Uma noite em que estávamos
lá "baixou um espírito" através dela e supostamente era o do meu
pai. Me chamaram e entrei muito constrangido e ela abraçou-me, me
deu conselhos, que eu não deveria chegar tarde em casa, me comportar
bem. Depois disso a pressão aumentou e acabei namorando-a por um
curto período; quando conversando fi-la cair em contradição e ela
acabou contando que de fato fora uma simulação e quem havia dito
que eu chegava tarde em casa teria sido o meu irmão. Ela era muito
carinhosa, mas já havia namorado quase todos os meus colegas e fiquei
na dúvida se de fato gostava de mim, o que levou-me a fazer um teste,
desfazendo o nosso relacionamento, e no dia seguinte ela já estava
namorando outro. Aquilo feriu o meu orgulho e depois que, por insistência
da irmã ela deixou o outro rapaz e voltou a relacionar-se comigo,
não quis mais. COMO QUASE PERDI A VIRGINDADE Um episódio bizarro
ocorreu quando um grupo de colegas me carregou para um lupanar.
Era uma casa bem no centro de Santo Amaro cuja cafetina tinha o
apelido de "Maria Comprida", uma senhora bem alta, de idade avançada
que residia em uma casa antiga na Rua Padre José Maria, esquina
da Rua Paulo Eiró. Não tive outra alternativa senão ir porque o
complô era armado exclusivamente tendo em vista a minha pessoa.
Eu que em meus sonhos imaginava realizar um primeiro encontro sexual
com uma jovem que possuísse a beleza e as qualidades de uma atriz,
tendo como ambiente um lugar refinado, vi ruírem por terra toda
aquela fantasia que havia criado, em minha adolescência, quando
me vi naquele casebre, diante daquela mulher idosa, enrolada em
um xale, sentada em uma sala rústica, tendo ao seu lado três mulheres
que não igualavam-se nem de longe ao que havia sonhado. O Rubens,
que era o mais velho do grupo, falou com Da. Maria: "Nós queríamos
uma mulher! Ela balançou a cabeça para o lado das três mulheres
sentadas ao seu lado e disse,: Tem isso ai, pode escolher! Escolher
o que! Mas entre elas havia uma mulher casada, que por sinal era
mãe de umas garotas com quem eu paquerava, sendo esposa de um militar.
Para defini-la teria de assassinar o idioma e dizer que era a "menos
pior". Escolhi aquela e entrei no quarto, porque os colegas insistiam
que eu fosse o primeiro. No quarto ela não consentiu em despir-se
e eu vendo a cama com roupas imundas que deveria ter abrigado muitas
pessoas, e com a cabeça cheia de cerveja, não consegui esboçar nem
um pequeno sinal de desejo e só o que pude fazer foi pagar regiamente
a dona, por nada, e dar-lhe uns conselhos para que não prosseguisse
naquela vida, enganando ao marido e às filhas. Ela saiu dali e mesmo
que os meus colegas insistissem não se relacionou com mais ninguém,
pelo menos aquela noite, não sei se cumpriu a promessa que me fez.
E eu, assim prossegui invicto. Graças a Deus fui preservado para
que pudesse realizar o meu sonho, anos depois, por ocasião do meu
casamento. Cumpria, assim, em minha vida, o preceito exarado na
Palavra de Deus de conservar puro o leito nupcial: "Venerado seja
entre todos o matrimônio e o leito sem mácula; porém aos que se
dão à prostituição e aos adúlteros Deus os julgará. (Epístola aos
Hebreus 13:4) DA FRUSTRAÇÃO À TENACIDADE Uma coisa que devo contar
a vocês é como ocorreu a minha admissão na empresa onde trabalhei
mais de trinta e dois anos. Fui apresentado por uma pessoa muito
influente, mas assim mesmo foi preciso que passasse pelos testes
e exames de admissão. Eu que terminara sofrivelmente o curso primário
(4ª série do primeiro grau) não estava em condições de passar pelas
exigências que eram solicitadas dos candidatos a mensageiro, que
era a vaga a que me propunha.. Não houve, porém outra alternativa
e submeti-me ao sacrifício sem esperança de alcançar o objetivo.
Terminados os testes o Prof. Carvalhais chamou-me à sua sala e me
disse: -Você fez uma pixotada! Eu simplesmente baixei a cabeça humilhado
porque sabia que ele estava com a razão. Mesmo assim fui admitido
em função do meu "padrinho"! Iniciado o trabalho que exigia muito
devotamento prático, adaptei-me maravilhosamente e mesmo não havendo
estudado mais nada passei a adquirir conhecimentos através de leituras;
tudo que conseguia devorava passando a aperfeiçoar os meus conhecimentos
através dos tempos. Quatro anos após a minha admissão o meu contrato
de trabalho foi transferido para a Cia. Municipal de Transportes
Coletivos, que absorveu a parte dos bondes que era operada pela
Ligth&Power e eu já completamente habilitado como Auxiliar de Caixa
continuei a desenvolver as minhas atividades. Muitos anos depois,
quando fui indicado pelo nosso sindicato para representá-lo em uma
comissão paritária com a função de elaborar um estudo de todos os
cargos da empresa, para elaboração de um "Quadro de Carreira", um
dos participantes era o Prof. Ubirajara, Chefe do Departamento de
Psicotécnica, que justamente procedia aos testes para os empregados
que eram admitidos. Em conversa com ele falei de minha frustração
por não ter passado por uma avaliação ao que me respondeu que poderia
providenciar para que eu fizesse os testes; aceitei e passei por
uma prova de fogo. Por pura ironia do destino, o Professor que me
examinou foi justamente o professor Carvalhais, agora famoso, depois
de ter participado como psicólogo da seleção brasileira de futebol.
O resultado foi bastante satisfatório e aquele eminente professor
me ofereceu diretrizes para que eu pudesse aproveitar todo o meu
potencial. Depois de tantos anos entre os nossos dois encontros
é claro que nem passou pela mente do professor que estava conversando
com o mesmo menino a quem um dia dissera (com toda a razão) Você
fez uma pixotada! Nem era necessário que o soubesse porque era eu
que estava confrontando-me comigo mesmo para retirar do meu currículo
aquela frustração que me impedia de progredir. A partir desse dia,
milagrosamente pude passar a tomar atitudes desassombradas que me
conduziram a um estado de satisfação íntima, superando obstáculos
e realizando coisas que jamais pensara que pudessem ocorrer em minha
vida. CONTATO COM O SOBRENATURAL Eu poderia ter uns 10 anos, quando
surgiu uma novidade trazida por meninos maiores no afã de mostrarem-se
entendidos nos segredos do amor. A novidade era que, se conseguíssemos
três fios de cabelo de uma menina, por quem tínhamos interesse,
e fizéssemos que fossem cortados três vezes por uma "formiga feiticeira"
ela "daria" para nós. A primeira dificuldade apresentava-se para
conseguirmos os tais três fios de cabelo, e em segundo lugar o que
significaria "dar" para nós; isso era um enigma difícil de decifrarmos,
presos que estávamos, ainda, à inocência da infância. Movidos pela
curiosidade usávamos de todos os expedientes para conseguirmos o
troféu que nos faria amados pelas deusas daquele momento. Ai surgia
a dificuldade insolúvel, como descobrirmos a tal formiga feiticeira?
Acabávamos tentando que uma formiga saúva ( porque a achávamos com
aspecto de uma feiticeira) cortasse o trançado dos três fios de
cabelo. Nunca conseguimos e ficamos sem saber se de fato a simpatia
poderia funcionar. ANIVERSÁRIOS Meu aniversário é no dia seis de
novembro, não lembro-me de muitos , mas existem alguns que ficaram
gravados em minha mente. Um deles foi em l.972 ou 73, quando escrevi
uns versos (Lágrimas) em um pedaço de papel e que depois de muitos
anos reencontrei e indicavam-me o cinzento astral em que estava
envolvido naquele momento. Um aniversário bastante hilariante foi
quando completei uns seis anos. Minha mãe fez um belo bolo e como
ia receber a visita de pessoas amigas, antes destas chegarem deu
banho em mim e em meu irmão, como estava um tempo um pouco frio,
com uma garoa característica da capital paulista nos fez vestir
pijamas de flanela, novos, e recomendou que de maneira nenhuma nos
sujássemos. Em seguida entregou-se aos preparativos para receber
as visitas. Quando em um determino momento olhou pela porta da cozinha,
meu irmão e eu estávamos em um tanque que meu pai havia construído
para a criação de marrecos; nos deliciávamos jogando água, um no
outro. Intempestivamente nos tirou dali pendurados pelas orelhas
e nos fez tirar a roupa e ficarmos despidos no banheiro que ficava
atrás da casa. O pior foi que na passagem ela apanhou um pedaço
de madeira que encontrava-se abandonado no chão e com ele esquentou
a nossa poupança; quando percebeu os nossos bumbuns estavam sangrando
por ferimentos causados por um prego que havia no pedaço de madeira.
Para concertar colocou salmoura e nos deixou presos no banheiro
. Certa hora as visitas quiseram ir ao banheiro (mais por provocação,
pois eram duas jovens) e levaram duas toalhas para que saíssemos
e ficássemos atrás do galinheiro , tentando nos espiar, só não conseguindo
nos humilhar porque começamos a atirar pedras para afugenta-las.
Naquele dia a festa havia terminado para nós; logo que as visitas
foram embora, fomos obrigados a tomar outro banho por estarmos emporcalhados
com a água dos marrecos, e fomos para a cama. Outro, em que poderia
ter uns oito anos e residia na Rua Vol. Delmiro Sampaio, 462 e que
foi feita uma festa com muitos convidados, acabando sendo mais para
os adultos do que para as crianças. Havia mudado-se em um sobrado,
em frente de minha casa, uma família muito distinta que também foi
convidada: o sobrenome , se não me engano, era Almeida. Madame Rosita
era modista e possuía um ateliê de alta costura. Os filhos eram
Cíntia, Chunito (este veio a jogar no Esporte Clube São Paulo de
Santo Amaro) , Leandro, Janjão, Tuinha e Betinho ( este casou-se
com uma jovem, filha do proprietário de uma farmácia). Meu irmão
e eu possuíamos uma cadeira carrinho com a qual vivíamos brincando
em frente de casa. Um determinado dia os vizinhos nos cercaram no
portão e com a maior petulância disseram: "Aquele carrinho é nosso
e vocês vão nos entregar já" Meu irmão tentou argumentar com eles
sem conseguir resultado nenhum e eu, que estava com uma pequena
tábua na mão, só dizia : Me deixe passar! Ficamos naquela disputa
pelo espaço de uns cinco minutos, quando eu enfezado com aquele
abuso atirei o pedaço de madeira que trazia na mão, acertando a
testa do Janjão. Na confusão que estabeleceu-se nós aproveitamos
e corremos para dentro. Minha mãe havia saído na janela bem na hora
que eu atirei a madeira no Janjão, o que resultou em uma surra para
nós dois. O maior problema foi depois, eu não podia mais sair na
rua porque o Janjão, que era bem mais forte que eu prometera me
pegar. Quando saia olhava bem no campinho onde os moleques jogavam
bola, se ele estivesse lá eu não passava. Isso foi até o meu aniversário
naquele ano, para o qual a família dos meninos foi convidada mas
não levou as crianças, indo só a mãe e a irmã. Uma certa hora os
irmãos mandaram-me um recado que se eu levasse alguns doces para
eles ele não iria mais me bater. Foi a melhor noticia naquele aniversário,
levei os doces e festejamos o armistício. Outro aniversário que
me lembro bem foi o de l.950 que passei em grande expectativa. Trabalhava
à noite e como todas as pessoas de casa haviam saído, não fui trabalhar,
pois torcíamos para que o evento se desse naquele dia e minha esposa
não poderia estar sozinha. Mas a cegonha acabou atrasando a entrega
e recebemos o nosso primeiro filho no dia 07 de novembro. MINHA
MÃE Minha mãe, embora fosse filha de uma negra, herdou os seus traços
do seu pai que era de origem portuguesa ; era morena clara, olhos
entre o azul e o esverdeado que mudavam de cor de acordo com as
circunstâncias; só o seu cabelo marcava a descendência negra, pois
eram bem crespos. Ela nasceu no dia 06 de Junho de l.903 no solar
dos Pinheiro e ali foi criada, mais por Marinhinha do que pela própria
mãe. Quando era pequena, ainda, e como a mãe se recusasse a casar-se,
porque já havia enrabichado por outra pessoa, o pai pretendia levar
minha mãe para viver com ele. Marinhinha se opôs firmemente e comprometeu-se
a cuidar dela, o que fez por toda a sua vida. Minha mãe, embora
não pertencesse à família foi criada como se o fosse recebendo uma
educação primorosa, de acordo com os recursos da época e do lugar,
aprendeu prendas domésticas, música, tocava piano muito bem. Quando
era mocinha conheceu um sobrinho do Dr. Oscar Fernandes Martins
e por ele apaixonou-se, sendo esse, talvez, o amor de sua vida.
Ele desejava casar-se com ela porque também a amava, mas encontraram
uma firme oposição da mãe do rapaz que acabou por prevalecer, pondo
fim ao romance. Muitos anos depois, inclusive meu pai já havia falecido,
por ocasião em que realizava-se uma quermesse, em Santo Amaro, esse
personagem (Renato), já envelhecido, apareceu lá e minha tia Laura
nos apresentou a ele, dizendo-lhe que éramos filhos de Quita, que
era o apelido de minha mãe. Ele contemplou-nos com um olhar triste,
que talvez indicasse o seu arrependimento por não ter lutado por
aquele amor! Ele também viria a falecer e tempos depois soubemos
que um seu filho fazia muito sucesso como ator de novelas de televisão,
estando em atividade até o momento. Algum tempo depois viria a conhecer
meu pai, que mesmo sendo um rapaz de boa família estava bem aquém
daquele primeiro amor. Casaram-se e a partir de sua lua de mel já
não encontraram uma afinidade visto que o noivo não teve a delicadeza
que sempre é esperada pelas noivas ( isso ela me confidenciaria
, em um desabafo) provocando-lhe uma hemorragia quando da primeira
relação sexual, perdurando por um largo período o que a desconfortava
porque em conversas reservadas com as colegas chegava à conclusão
que aquilo era uma anormalidade. Esse primeiro encontro deve ter
marcado profundamente o relacionamento que nunca foi harmonioso;
por várias vezes meu irmão e eu presenciamos desavenças, embora
houvessem ilhas de harmonia quando tudo parecia que transformava-se
para viverem um amor verdadeiro. Em uma época, pouco tempo do falecimento
de meu pai, foi residir vizinho a nós uma família que fizeram muita
amizade com os meus pais. Eram pessoas de educação refinada, o marido
que deveria ter aproximadamente a idade de meus pais, tocava piano
e freqüentemente o fazia em minha casa, porque eles não tinham o
instrumento. Em minha cabeça imaginava que minha mãe era muito influenciada
pela delicadeza de tratamento e talvez houvesse, até, se apaixonado
pelo vizinho. Quando meu pai faleceu eles já não residiam mais ali
mas o Sr. Euclides foi expressar as suas condolências à minha mãe.
Ela estava regando as plantas do jardim e continuou, constrangida,
e quando ele perguntou quando seria a missa ela disse que não haveria
missa, (meu pai nem acreditava nisso por ser adventista); ele despediu-se
e percebi, naquele momento, que minha mãe deveria estar travando
uma luta dentro dela, entre o desejo, talvez, de estreitar aquele
relacionamento e a culpa por sentir esse sentimento. Isso se confirmou,
de certa maneira, porque depois de um tempo ela me levou junto quando
foi até a casa dele ( ele residia na Vila Helena, em um conjunto
de sobradinhos, todos iguais) e introduziu um bilhete por baixo
da porta. Ele nunca mais deu noticias e eu fiquei pensando se ele
teria encontrado o bilhete, ou se dentre tantos sobrados iguais
minha mãe não teria colocado no local errado. Muitos anos depois
meu irmão e eu íamos passando em frente ao Mappin e o encontramos,
quando ele nos contou que enviuvara, casara-se novamente e transferira-se
para o interior do estado onde se impusera pela sua profissão(ele
era dentista). Minha mãe ficou viuva aos trinta e cinco anos e depois
das decepções que deve ter tido nesses relacionamentos, fechou o
seu coração e dedicou-se unicamente ao trabalho que tomava conta
de todos os seus momentos pois inclusive residia no colégio adotando
aquelas crianças excepcionais como sua família. Quando atingiu sessenta
e sete anos aposentou-se mas continuou trabalhando ali até quando
o colégio foi desativado por interesse de seu proprietário. Aposentada,
mudou-se para um apartamento em Santo Amaro, que o dividia com jovens
professoras, até mudar-se para apartamento menor e viver sozinha.
Certa vez ela e minha tia Negra resolveram que deveriam ir para
um asilo; insistiram até que as levassem em uma instituição evangélica
na Estrada de Itapecerica. Estiveram quase a decidir-se a transferirem-se
para lá. Depois que lhes fiz a vontade tive uma conversa com elas,
se seria, realmente aquilo que elas desejavam, ou se a liberdade
que elas tinham, residindo em seus "cantinhos" não era-lhes mais
grato. Chegaram à conclusão que deveriam ficar como estavam, e assim
ficaram até os últimos dias de suas vidas. Minha mãe residindo sozinha
e minha tia com um filho adotivo, Flávio, que é meu afilhado. Ela
faleceu no dia 22 de Dezembro de l.989, com mais de oitenta e seis
anos de idade. UM ACONTECIMENTO MARCANTE Foi em Julho de l.972,
depois de mais um ano de labor intenso, comecei a gozar férias,
tudo estava em plena paz, o filho mais velho havia saído de casa
e montado um apartamento para, dizia ele, construir a sua vida de
acordo com o que aspirava. A filha do meio estava cursando o segundo
grau e o caçula estava prestes a terminar o primeiro grau. Como
à essa altura já nenhum dos filhos queriam nos fazer companhia,
fomos, apenas a esposa e eu para a cidade de Mococa em visita aos
meus sogros. Foi uma viajem muito boa! No caminho conversávamos
e por coincidência eu havia entrado em um "bolão" da loteria esportiva,
que estava acumulada, feito no meu local de trabalho. Ali em nossa
conversa aludimos à possibilidade de ganhar aquele prêmio enorme
que mesmo tendo que dividir por muitas pessoas seria muito bom para
realizarmos coisas que ainda não havíamos conseguido até aquele
momento de nossas vidas. Reflexionamos sobre isso e chegamos à conclusão
que isso não seria tão importante, pois a felicidade é construída
em contato com as pequenas coisas; são acontecimentos simples em
nossa vida que podem nos transmitir essa sensação de complementação
de todo o nosso ser; é até inexplicável como pessoas que tem tanto
não sentem-se felizes enquanto outras que não possuem quase nada
vivem em constante sentimento de alegria. Mal sabíamos nós que estávamos
bem prestes de vivenciar acontecimentos que nos levariam a espreitar
uma pequena nesga de céu azul para podermos sentir, com isso, a
plenitude da felicidade! Devemos ter ficado mais ou menos uns dez
dias em Mococa e voltamos para retornar à nossa vida rotineira.
Pouco tempo após chegarmos em casa o telefone tocou e uma senhora
começou uma conversa , dizendo que era mãe de um colega de meu filho
e. . . que . . . meu filho . . . estava preso . . . Imaginem só
o choque provocado quando pais recebem uma notícia dessa natureza!
A primeira idéia que me veio era que não passava de um "trote".
Já havíamos sido vítimas dessa brincadeira quando recebemos telefonemas
avisando-nos que nossa filha seria seqüestrada. Tudo não passara
de ciúmes de uma companheira de curso por causa de namorados. Imediatamente
telefonei para um meu colega cujo irmão era delegado de polícia,
para que se fosse possível averiguasse a procedência da informação.
Algum tempo depois vinha a notícia estarrecedora. Era verdade, ele
estava detido no primeiro distrito policial, que àquele tempo funcionava
no Palácio Nove de Julho, hoje sede da Prefeitura, por envolvimento
com tóxicos. Somente vim a saber dos detalhes posteriormente: A
polícia havia sido chamada porque havia uma reunião no apartamento(
eram novos amigos que ele arranjara depois que saiu de casa) e faziam
muito barulho. Ao invadirem o apartamento alguém deve ter livrado-se
de alguns comprimidos de SLD, que foram encontrados pela polícia.
Como ele era o responsável pelo apartamento foi detido para responder
a um processo inafiançável. Por influência do pai de uma colega
dele conseguimos visitá-lo no 1º distrito, aumentando a nossa dor
por ver um filho, que havíamos tentado orientar com tantos princípios,
submetido àquela situação humilhante! Tudo aquilo nos parecia uma
traição que sofremos, sentimo-nos como se tivéssemos sido apunhalados
pelas costas! Foi uma longa batalha judicial que transformou as
nossas vidas. Não estávamos preparados financeiramente para enfrentar
isso e a primeira providência que me veio para tomar seria desfazer
o contrato do apartamento porque esse também passaria para a minha
responsabilidade. Não conseguimos nem desfazer o contrato nem transferi-lo.
Em um gesto desesperado coloquei um anuncio no jornal para vender
ou alugar a nossa casa. Felizmente apareceu, em primeiro lugar,
quem a alugasse. Entregamos a casa ao inquilino e mudamo-nos para
o apartamento, situado na Rua Augusta, e imediatamente coloquei
à venda uma pequena casa que possuíamos na praia de Mogangua, para
fazermos frente às despesas que se apresentavam. De imediato tivemos
de adiantar uma importância para o advogado. Nós não dormíamos mais,
trabalhando, correndo de um lado para outro, descuidando até dos
outros filhos, porque os pais nesses momentos concentram-se naquele
que tem a necessidade mais urgente. Ninguém está preparado para
passar por essas situações e principalmente os jovens, ainda imaturos,
sentem-se preteridos e cobram mais atenção que naquele momento não
nos é possível ministrar. Nesses momentos, quando o nosso espírito
está, praticamente no chão, é que devemos demonstrar maior fortaleza,
apoiando os que são mais fracos e estão esmorecidos, e eu tentava
ser forte para fortalecer aos outros, mas estava a ponto de soçobrar
. . . quando no fim do dia entrava no banheiro, com a água caindo
sobre o meu corpo, quando ninguém podia me ouvir, aproveitava para
descarregar todas as lágrimas que havia retido durante o dia. Foram
cinqüenta dias de agonia até conseguirmos o "Habeas Corpus" que
o autorizava a responder o processo em liberdade, mas foram meses
de espera do julgamento que desgastaram as nossas forças, mas que
culminou com a nossa vitória quando o Juiz proferiu a sentença considerando-o
inocente e absolvendo-o. Deus permite que determinadas coisas nos
aconteçam para que nos acheguemos mais a Ele, haja vista o que ocorreu
com o seu amigo Jó, que quando assediado por Satanás mais se chegou
ao Criador demonstrando que por mais que o inimigo nos ataque não
conseguirá o objetivo de nos desencaminhar de nossos objetivos;
também o Rei Davi, quando pecou e a mão de Deus pesou sobre ele,
voltou-se para o Pai porque ele é rico em perdoar e grande em misericórdia
e nos julga não pelas nossas faltas as quais Ele já pagou doando
a vida de sue filho Jesus Cristo, e sim usa de sua imensa misericórdia
para conosco, nos buscando sempre até que cheguemos ao conhecimento
da verdade. É o que ocorre nesses momentos de dificuldades, nos
afugentamos para os braços carinhosos que nos dão apoio e as condições
necessárias para que vençamos os obstáculos. Em segundo lugar é
o apoio dos amigos. Nesses momentos é que descobrimos quem são os
verdadeiros amigos e quantos são apenas conhecidos, que não podem
se compadecer das dores de seus semelhantes. Recebemos apoio de
muitas pessoas, colegas, vizinhos e também sentimos a ausência de
muitas pessoas em quem confiávamos. Um deles chegou a comentar com
um colega: "Fiquei com vontade de falar com o Klein, mas sabe como
ele é!" E até hoje não tive a oportunidade de saber como é que eu
sou, ou como esse amigo me via ! Não me ressenti, por isso, porque
compreendo que de fato nesses momentos não sabemos muito o que fazer,
se será melhor calar ou falar. Aquela situação que nos parecia,
no momento, tão desesperadora, foi ultrapassada embora haja deixado
seqüelas. Eu, depois de relaxar aquela pressão que nos acometia
passei por um longo período de depressão mas consegui equilibrar-me.
Minha esposa, que já possuía problemas com o sistema nervoso, quase
necessitou de ser internada, passando por um longo tratamento, para
apenas minorar aquela marca de dor, a qual não conseguiu administrar
convenientemente. O médico psiquiatra que tratou dela por muito
tempo, depois de saber dos acontecimentos que havíamos passado explicou-me
que nem todos tem a mesma capacidade de assimilar os desastres emocionais,
passando isso a influir em nosso comportamento. Essas anomalias
dificilmente serão superadas por essas pessoas. Acresce o fato de
que todos nós já somos uma complexidade psicológica, acumulando
traumas que vamos recalcando para o nosso interior desde a nossa
infância. Eu não sei se vocês acreditam em revelação, mas eu tenho
que crer porque por diversas vezes tenho me confrontado com elas
cientificando-me de acontecimentos que viriam acontecer. Nesse caso,
uns dias antes de eu sair de férias sonhei que lia um jornal em
que era estampada uma manchete em letras garrafais : " Complexo
Primário" ; lembrei-me que quando criança meu filho mais velho havia
sido acometido de um complexo primário pelo contato com o tio que
estava contaminado pelo bacilo da koch e deduzi que talvez estivesse
havendo algum problema com a saúde dele. No mesmo dia visitei-o
em seu apartamento e constatei que estava bem de saúde e que nada
me impediria de viajar. Mal sabia eu que a revelação era autêntica
e que o problema era de outra natureza como veio a se confirmar.
Pena que tenhamos, muitas vezes, revelações e não estejamos preparados
para sabermos interpreta-las e evitarmos acontecimentos desagradáveis!
Dou graças a Deus porque esse fato foi, também, apenas um complexo
primário que nunca mais aconteceu. MEUS AVÓS PATERNOS Há uns quinze
anos atrás, visitando uma igreja Adventista em Santo André participei
da conversa de um grupo de pastores e um deles ao tomar conhecimento
de meu sobrenome disse ter conhecido, na Igreja Adventista de Santo
Amaro uma pessoa que talvez fosse minha parente, de nome Ercília
( de fato era minha prima e ocorreu com ela um fato que nunca tivemos
uma explicação, jovem, ainda, com duas filhas lindas, suicidou-se,
contrariando os princípios que recebera na religião que professava);
depois revolvendo a memória me disse, existia, também, muitos anos
antes, um senhor, que sempre carregava uma bíblia enorme que tendo
sobrenome Klein era mais conhecido como Pedro Cipó. Era o meu avô
paterno. Pedro Klein, deve ter vindo da Alemanha ainda criança,
junto a uma leva de imigrantes, cujo grupo foi instalado a muitos
quilômetros adiante de Santo Amaro em um lugar que passaria a ser
denominado "Colônia". Em um lugarejo próximo (Cipó) veio a conhecer
uma jovem de descendência índia de nome Vicência Alves tendo com
ela consorciado-se dando origem ao tronco de minha família. Tiveram
vários filhos dos quais me lembro de Joaquina, que deveria ser a
mais velha, Maria, que faleceu quando eu era ainda menino, Amâncio,
Jacob, que era meu pai, José, que não cheguei a conhecer, e Paulo,
que deveria ser o mais jovem. Não cheguei a conhecer meu avô mas
pelas histórias que ouvi, era um devotado crente em Nosso Senhor
Jesus Cristo, tendo incutido nos filhos os princípios bíblicos exarados
da Palavra de Deus. Ele deve ter convertido-se em tenra idade e
nunca abandonou a sua fé, sendo chamado para a gloria do Filho de
Deus. Ainda bem próximo de seu falecimento, já com uma idade avançada,
ainda carregava o sotaque alemão, fruto de sua convivência com os
ancestrais, cuja cultura haveria de ser deturpada pela miscegenação
havida no contato com as civilizações locais, entre os quais o principal
foi com minha avó Vicência que de origem indígena deveria pertencer
a classe dos "feiticeiros", pois tinha como ofício a cura por benzeção.
A sua eficiência era conhecida em todo o bairro de Santo Amaro,
sendo chamada em todos os lares para usar de sua arte de curar por
meio da benzeção, curando de todas as enfermidades ( eu mesmo tive
oportunidade de tomar conhecimento de pessoas que a respeitavam
por julgarem dever a ela as suas vidas). Ela era uma mulher muito
simples sem traquejo social, vivendo arredia, residindo sozinha;
quando nós residíamos na Rua São Benedito ela residia em uma pequena
casa próximo à nossa depois transferindo-se para outra na Rua Barão
do Rio Branco, vizinho ao seu filho Amâncio. Nessa casa costumávamos
sempre visitá-la, ocasião em que ela concentrando-se, colocava a
sua mão em nossa cabeça, benzendo-nos para que fôssemos resguardados
de todo o mal. A sua imagem sempre esteve bem viva em minha lembrança
e até cheguei a falar dela em uma de minhas poesias . . . Ali ela
viria a falecer já bem avançada em anos. Dois fatos pitorescos ocorreram
com essa minha avó: Certa vez minha mãe a acompanhou à Capital (
"cidade" como era chamada) e como era costume naquele tempo, foi
convenientemente vestida, inclusive usando chapéu que era indispensável.
Na volta minha avó havia comprado uma quantidade de sardinhas fritas,
em um bar, e passou a fazer um verdadeiro "Pic-nik" no bonde, oferecendo
à minha mãe sob o olhar de todos os passageiros , quase matando
minha mãe de vergonha. Outra vez ela participava de um meu aniversário
e quando uma jovem passou servindo doces em uma bandeja ela tomou
o recipiente de suas mãos e o colocou em seu colo; depois admirada
comentou "Não será muito para mim!?!?" São episódios hilariantes
mas que revelavam a simplicidade e autenticidade das pessoas! Eu
tenho procurado reunir dados de minha ascendência paterna porem
isso não se torna fácil quando não temos documentos e dados que
facilite a pesquisa. Entretanto, através de contatos na Internet
recebi informações de Anderson Klen Rlbeiro (no Klen e Rlbeiro houve
erro do cartório pois o seu nome de família é Klein); diz ele: Um
primo visitou o museu do imigrante, em São Paulo, e achou várias
informações que comprovam algumas histórias passadas oralmente.
Os nossos ascendentes vieram da Prússia, um lugar entre a Rússia
e a Alemanha de hoje, aparentemente no território russo. Andei perguntando
para alguns tios e tenho informações mais precisas: Em 30/12/1.827
chegou ao Brasil um vapor com 90 famílias alemãs; três irmãos Klein
estavam entre eles. Doze famílias ficaram em São Paulo e receberam,
depois de dois anos, terras devolutas na região de Parelheiros,
extremo sul do município de São Paulo, mais precisamente entre Parelheiros
e Colônia (nome dado em função da colônia alemã- nesses devia estar
incluído meu avô Pedro Klein, que viveu naquela região antes de
radicar-se em Santo Amaro). Os descendentes viveram nessa região
e ao longo de 150 anos foram explorando, vendendo e comprando terras
na região sul de São Paulo (Santo Amaro, Capela do Socorro, Figueira
Grande). Hoje, na família, não existem herdeiros com as terras originais;
a língua, infelizmente, não foi ensinada aos descendentes; perdemos
isso antes mesmo do início deste século vinte. As tradições foram
perdidas, o pessoal da colônia "abandonou" seus costumes originais
para melhor integrar-se à população local. Um dos irmãos Klein foi
para o Rio Grande do Sul instalando-se lá com a colônia, sendo desconhecido
o local preciso. Os irmãos perderam o contato completamente. O pessoal
do sul manteve as tradições e a língua, pois ficaram isolados. Uma
tia encontrou uma pessoa de Porto Alegre que contava a mesma história
de seus descendentes, mas também perdera o contato. O terceiro irmão
foi para a região de Sorocaba, formando ali um novo ramo da família.
Na região sul de São Paulo existe um ramo da família que se desligou
do convívio com os parentes havendo se distanciado, sendo que embora
pertencentes aos mesmo tronco são desconhecidos entre si. Isso,
inclusive tem gerado problemas de homônimos. Sabemos que ocorreram
outras imigrações, a grande maioria para a região sul do país, mas
desconhecemos se vieram outros membros da mesma família. Existem
muitas pessoas e famílias que conhecem muitas histórias mas o pessoal
nunca juntou-se para registrarem o que sabem; isso é lamentável,
pois com o desaparecimento das pessoas mais idosas os dados se perdem
definitivamente. Das famílias da colônia que ficaram na região de
Santo Amaro ainda existem remanescentes das famílias Zilling, Shunk,
Reimberg e Klein MINHA AVÓ MATERNA Essa a avó (Honorata) que sempre
me acompanhou, pois vivíamos todos na mesma casa, o casarão da família
Adolfo Pinheiro, em Santo Amaro. Ela era negra, filha de escrava,
teve dois "maridos" , um santista rico que desejava casar-se com
ela e leva-la para Santos viver com ele, foi pai de minha mãe, Maria
de Lourdes Moura, e de minha tia ("Negra") Benedita da Conceição
Dias Batista; o outro, que eventualmente ouvi o nome mas não me
lembro, era Pai de meu tio ("Negrinho")Benedito de Moura. Ela tinha
um gênio forte e personalidade inquebrantável e nunca submeteu-se
aos companheiros e sim desejava ter uma vida livre, em que pesassem
as dificuldades que atravessasse. Vivia por si mesma, em companhia
do filho visto que as filhas já estavam casadas; a sua renda era
auferida da confecção de doces e salgados e do fornecimento de alimentação.
Em sua casa reinava a liberdade e as portas eram abertas e quem
ali chegasse comia e bebia a vontade o que a fazia possuir um largo
círculo de amizades. No seu trabalho também não visava enriquecer
e sim somente sobreviver, não fazendo questão de coisas materiais,
de possuir coisas. Muitas pessoas chegavam a abusar de sua bondade
e comiam e bebiam, às vezes por largo período e depois davam o fora
sem pagar. Ela dizia, coitado, não tenho raiva dele, que Deus o
ajude, porque Ele me ajuda e esse prejuízo que tive receberei em
dobro. De fato tinha razão porque a sua casa sempre estava repleta
de alimentos. A sua vida era o trabalho, às vezes ir ao bar com
alguns conhecidos tomar uma cerveja e jogar conversa fora, mas não
passava das imediações de onde residia, pois tinha horror de tomar
um "carro de praça", como eram conhecidos os táxis aquele tempo.
Meu irmão e eu sempre estávamos a reboque, para "descolarmos" um
guaraná. Ela não tinha preconceito, a sua amizade não excluía, negros,
brancos, ou prostitutas, todos eram queridos e respeitados. As vezes
que ela colocava uma mesa nas quermesses, para vender doces, salgados,
quentão e café, muitas vezes presenciei ela chamar pessoas que estavam
olhando, sem comprar nada e dizer, coma alguma coisa!. As pessoas
diziam não possuir dinheiro para comprar mas ela insistia até que
as pessoas se servissem. Quando ela estava com seus noventa e cinco
anos foi residir nos fundos da casa de minha tia, mas continuando
a sua produção de doces feitas em forno de barro e ela e meu tio
saiam com uma cesta para vender o produto do trabalho. Aí minha
tia , com medo que ela viesse a se ferir, no fogo, proibiu-a de
trabalhar, demolindo o forno em que ela assava os seus quitutes.
Daí em diante ela passou a sentir-se inútil e foi definhando até
falecer com a idade de cento e um anos. Esse é um erro que geralmente
as pessoas cometem com os idosos, julgando que eles já não são úteis
e que deverão terminar os dias apenas vegetando, quando ainda poderão
produzir muito e sentirem-se participantes do grupo. O potencial
que uma pessoa idosa acumulou durante os seus anos de vida é um
patrimônio importante que não poderá simplesmente ser jogado fora
e sim aproveitado para que através de suas experiências os jovens
possam ter um direcionamento que os levará à felicidade. Mesmo que
você não seja tocado unicamente pelo egoísmo, que tenha a melhor
das intenções, antes de decidir o destino de um ser humano, reflexione
se é , de fato, isso que ele deseja. Deixe a cada pessoa resolver
sobre o seu destino, simplesmente ajude-o a alcançar os seus objetivos.
MEUS TIOS Embora tenha convivido bastante com quase todos os meus
tios foram dois que me marcaram bastante, são eles o Tio Amâncio
e Tia Benedita, esta que era minha madrinha de batismo e que nem
tratava de tia mas simplesmente pelo seu apelido "Negra". Tia Negra
era bem filha de Honorata, tinha o mesmo temperamento e sua casa
era de portas aberta onde todos entravam e saiam à vontade o que
lhe rendia um largo circulo de amizades. Quando eu era bem pequeno
fui acometido de uma moléstia e quase morri, ela fez uma promessa
à Santa Rita de me levar carregado em uma procissão. O tempo passou,
eu cresci e a promessa não foi cumprida e era uma preocupação constante
a cada vez que ela me encontrava. Em um determinado dia eu a levei
em uma capela de Santa Rita que havia na estrada de Socorro a Interlagos
e dei como cumprida a sua promessa para alivio de seu espírito.
Meu tio Amâncio, a primeira lembrança que tenho dele foi quando
foi ajudar meu pai a levantar um muro em frente de nossa casa; na
verdade meu pai é que o ajudava porque era ele o pedreiro. Já no
final do trabalho, quando era preparada a grade de madeira meu pai
serrava a madeira e saia meio torta e ele dizia: "Sabe qual é o
erro do serrador? É a pressa! Meu pai dizia que era, "também" carpinteiro
( porque meu pai andava perseguindo várias oportunidades de trabalho)
ao que ele respondia: "Homem de muitos ofícios, senhor de nenhum!
Eu sempre guardei comigo essa frase! Eu era bem pequeno, para ver
como aquilo que falamos e fazemos servem de exemplo, principalmente
para as crianças que passam a nos imitar. Aliás, a educação é processada
por imitação. Jamais teremos o direito de contestar os jovens pelos
seus desatinos sem antes fazer uma verificação se não fomos nós
os causadores de suas atitudes. Meu pai freqüentava a Igreja Adventista
de Santo Amaro, não tenho certeza se ele chegou a ser batizado,
creio que sim, pois ele fazia questão que nós seguíssemos os seus
passos, embora em um casamento misto era difícil trilhar um caminho,
visto que minha mãe, sendo de origem católica influía também; cheguei
a fazer a primeira comunhão escondido de meu pai que não aceitava
isso. A minha situação era difícil! Era meu tio, entretanto, quem
era mais arraigado aos princípios oriundo do pai. Era assíduo freqüentador
dos cultos em sua igreja e fazia questão de transmitir os ensinos
de Cristo para que os seus parentes pudessem tomar uma decisão ao
lado de Cristo e poderem gozar das promessas de salvação e de vida
eterna. Ele era fiel a Deus, cheguei a presenciar, em seu sitio,
que quando algum menino ia comprar umas varas de cana ou um punhado
de amendoim, ele separava, de imediato, o dizimo do Senhor. Era,
meu tio, o interlocutor da família, procurando a cada um, de tempos
em tempos, para que houvesse uma ligação. Pelo menos uma vez por
mês, até estar em idade avançada, ia a minha casa e na de todos
os sobrinhos, sendo que muitos residiam bem distante. Nessas visitas
ele sempre pegava a Bíblia e fazia algum estudo conosco para que
nos aproximássemos da Palavra de Deus; orava conosco agradecendo
o alimento, dando-nos momentos de paz e inspiração que devem ter
influído muito para que, também, tomássemos o caminho que nos levaria
a tomar uma decisão ao lado de Cristo. Quando Santo Amaro ainda
era um bairro incipiente ele vendeu sua casa situada na Rua Barão
do Rio Branco e comprou um sítio na Vila das Belezas, quando naquele
lugar não havia praticamente nada. Ali ele prosperou, os filhos
casaram-se, o bairro cresceu e o seu sitio ficou rodeado do progresso.
Acabou loteando o sitio, ocasião que doou terrenos para os filhos
, e não esqueceu-se de sua igreja à qual doou o terreno onde foi
construído o templo naquele bairro. Hoje existe uma rua com o seu
nome, que já foi dado quando ele ainda em vida. UM EVENTO QUE ME
TRÁS RECORDAÇÕES Hoje, Sexta-feira 07 de Agosto de l.998, fui assistir
à colação de grau do curso Técnico Textil de meu neto mais velho,
Dirceu Cardoso Neto (o nome é do avô paterno). Ele está com dezenove
anos e já está cursando a Faculdade de Química do Mackenzie. Foi
um evento maravilhoso quando são abordados a esperança e a fé que
depositamos nos jovens para que venhamos a alcançar um mundo melhor,
onde todos tenham condições de vida digna. Parece-nos que esse sonho
está cada vez distanciando-se mais da realidade do dia a dia, em
razão das transformações que se operam no mundo, que já não busca
a felicidade do homem e sim o acúmulo de riqueza, eliminando as
classes intermediárias para que só prevaleçam ricos ou miseráveis.
Mas em certa escala o mundo sempre foi assim, pois lembro-me que
desde o tempo de criança ouço falar as mesmas coisas de sempre,
sobre as dificuldades econômicas e financeiras que não nos proporcionariam
esperanças para o futuro; no entanto já estou com quase setenta
anos e as coisas nesse tempo decorrido continuaram a acontecer:
pessoas se casaram, tiveram filhos, outros estabeleceram-se em diversos
ramos do comércio ou da industria, sendo que alguns progrediram,
outros fracassaram, mas isso ocorreu não pela situação em si e sim
pela capacidade que cada um tem de realização. A própria Bíblia
nos revela, através de uma das parábolas de Jesus, que existem capacidades
diferentes, e que, os bens deverão ser distribuídos cabendo a maior
parte para aqueles que tem maior capacidade e assim através dos
meios que lhes são disponíveis poderão proporcionar trabalho aos
menos capazes. É assim que a dinâmica social funciona. Mas nesse
evento em que meu neto alcança uma etapa maravilhosa, que é a capacitação
para exercer condignamente uma profissão, vêm-me a lembrança a época
que tinha os meus filhos pequenos e a minha oração a Deus era para
que eles pudesse alcançar, ao menos, o que eu alcancei que foi um
diploma da quarta série do primeiro grau. Quando minha esposa esperava
o nosso primeiro filho, invadiu-me uma profunda preocupação pelo
destino dos filhos que haveriam de vir; em conversa com um senhor,
companheiro de trabalho, pessoa já bastante vivida, externava essa
minha apreensão, ele me dizia: "Seu Klein, educação de filhos, é
pedir à Deus!" Eu que não tive a oportunidade de estudar, não pedia
mais para meus filhos, e sim apenas aquilo que ele havia dado a
mim. Pois Deus foi muito mais fiel do que a minha solicitação dando-lhes,
pelo menos, um curso técnico nas mãos para que pudessem desenvolver
as suas vidas dentro dos princípios da honradez. Existe uma grandiosidade
na transferência de gerações pelos conflitos que geralmente estão
latentes entre elas, mas a realidade é que os que já caminharam
por um longo período vencendo as barreiras que lhes foram impostas,
o fazem pensando nas novas gerações, no desejo de deixar aos seus
descendentes algo com o qual possam dar continuidade a uma obra
que não pode ser apenas de uma geração. A sociedade é um todo, independente
de tempo e espaço e será sempre a soma do esforço de todos os seus
participantes que redundará em bem estar para todos. O Rei Davi
foi um dos maiores monarcas de todos os tempos, pela sua tenacidade
e espírito de luta para alcançar os seus objetivos, preparando uma
base segura para que seu filho Salomão o sucedesse no trono; ao
ver aproximar-se o seu fim chamou Salomão dizendo-lhe: "Eu vou pelo
caminho de toda a terra; esforça-te, pois, e sê homem." E Salomão
usando os conselhos ouvidos de seu pai, transformou-se em um dos
maiores sábios de todos os tempos, somando os conhecimentos de sua
época aos que recebeu como herança da sociedade que o precedeu.
Esse será sempre o segredo do sucesso, transformar-se em homem!
A criança evolui, recebe os conhecimentos de seus ancestrais engajando-se
em novas tecnologias para ultrapassar os que os precederam para
no devido tempo assumir a responsabilidade como homens que sabem
o que desejam e onde querem chegar; e lá chegarão! Agora, quando
essa nova geração, à qual demos origem, já habilita-se para exercer
uma profissão, vêm-nos à mente lembranças de momentos que vivemos
juntos, enchendo o nosso coração de uma doce saudade acompanhada
de muita esperança no futuro, pois aquela criança que há alguns
anos atrás conduzíamos para aprender as primeiras letras já transformou-se
em homem, avança, transpondo as barreiras do conhecimento para nos
ultrapassar, graças à Deus. Sentimos orgulho de vermos que cada
geração avança mais para conquistar o seu lugar, transpondo obstáculos,
vencendo dificuldades para serem melhores e maiores do que pudemos
ser; mais uma vez elevamos o nosso pensamento a Deus louvando o
seu nome pela graça e misericórdia que nos concedeu, de assistirmos
acontecimentos tão gratos. OS INTOCÁVEIS Corriam os anos de l.945/6,
com o término da Segunda guerra mundial as coisa começavam a melhorar,
dando-nos oportunidade de respirar, pelo aquecimento da economia,
propiciando maior quantidade de emprego. A minha família também
equilibrava-se em melhor situação já sobrando alguns trocados até
para despesas bastante estravagantes. Eu, trabalhando na Ligth já
fora promovido e prestava serviço na Divisão Tranviaria, que cuidava
da arrecadação da féria dos bondes camarões. Para quem não alcançou,
eram bondes que corriam sobre trilhos e ligados à rede elétrica,
o seu nome fora dado por ter a cor vermelha. Esses bondes continham
uma caixa arrecadadora no meio do veículo onde ficava o condutor
que apenas trocava o dinheiro, sendo o próprio passageiro quem colocava
o pagamento da passagem na caixa. As caixas, no fim do dia eram
tiradas dos bondes, na "estação", e eram despejadas em grandes sacos
de couro, separadas por linha, esses sacos eram transportados em
uma espécie de "bonde forte" para a sede da empresa onde a seção
de contagem ficava nos porões do prédio, que dava para a Rua Formosa.
Ali todo o dinheiro e passes eram separados, contados empacotados
para serem guardados no cofre forte e posteriormente serem encaminhados
para os bancos. Praticamente trabalhávamos só na parte da manhã
nessa contagem, que então ficava pronta, saíamos para almoçar e
voltávamos para esperar chegar as quatro horas da tarde quando o
sub chefe da Tesouraria descia para recolher o numerário. Nesse
período da tarde ficávamos entregues a nós mesmo; uns liam, outros
cochilavam, cada um tinha o seu lugar predileto, uns nas cadeiras,
outros embaixo das mesas, ainda outros dentro do guarda roupa. Ai
surgiam as brincadeiras mais descabidas que se possa imaginar, e
a imaginação ainda sem grande ciso dava asas para que se projetasse
muitas coisas que a nossa pouca idade não percebia que poderiam
ser funestas. Um dos colegas, um dia, apareceu com um revolver;
aquilo aguçou a imaginação fértil da garotada e não muito tempo
depois cada um tinha dado um jeito de adquirir uma arma A minha
era um HO/32, depois substituída por uma automática 6,35. E o que
fazíamos com essas armas? O desejo era parecer gente grande, policiais,
perseguindo bandidos! Um colega, já com maior idade tinha um carro
e em um determinado dia fomos para o Pacaembú e ali naquele lugar
ermo, àquele tempo, com o carro em alta velocidade, colocávamos
as mãos para fora, disparando as armas, como se estivéssemos em
perseguição a bandidos. Talvez de alguma casa tivessem ouvido algum
estampido mas nunca houve qualquer reclamação porque naquele tempo
poder-se-ia dar tiros na rua sem o perigo de atingir ninguém. MORRE
UMA ESPERANÇA Seis de Janeiro de l.939, realiza-se a costumeira
quermesse no bairro de Santo Amaro, em louvor a Santo Amaro e São
Sebastião, padroeiros do lugar, minha avó Honorata, instala-se com
sua mesa para vender os seus quitutes para a grande quantidade de
pessoas que ali desembarcam para participarem das festividades;
os bondes chegam com pequenos intervalos, trazendo pessoas até em
cima de sua estrutura, o Largo Treze de Maio e as ruas adjacentes
ficam apinhadas dificultando a locomoção. Tudo é festa e alegria
contagiando todas as pessoas que riem e conversam em altas vozes
para fazerem-se ouvir, dado o barulho ensurdecedor. Minha avó, que
aniversariava nesse dia dá asas a sua alegria tentando premiar-nos
com a sua costumeira bondade, dando-nos dinheiro para que fossemos
dar uma volta nos cavalinhos. Recuso, porque uma profunda tristeza
tomou conta de todo o meu ser e sinto-me abatido sem saber qual
a causa daquele abatimento. Decido-me ir para casa, mesmo sabendo
que lá não encontraria ninguém, visto que minha mãe, meu irmão também
encontravam-se algures participando das alegrias do festival. Meu
pai também não estava visto que quinze dias antes partira para cidade
distante no intuito de internar-se em um sanatório que lhe ministraria
um tratamento para enfermidade adquirida em sua juventude, ou até
hereditária; nesse hospital, diziam, seria a cura definitiva para
a sífilis que um exame de sangue revelara. Meu tio Amâncio o levara
instalando-o e voltou para continuar as suas atividades normais.
Passou-se mais uma semana e minha mãe procurou o Dr. Machado que
tinha clinica em Santo Amaro e que, como trabalhava no Hospital
do Juqueri, ficara de trazer notícias de meu pai. O médico, surpreso,
lhe diz: Mas a senhora não foi avisada? O seu marido faleceu a uma
semana e já foi sepultado. O choque foi tremendo, deixando-nos em
uma situação de abandono, sem saber o que se poderia fazer. E não
fizemos nada! E ficou em nosso íntimo a pergunta: O que realmente
aconteceu? Nunca soubemos! Uma certeza ficou em minha mente, foi
a comunicação que houve no dia de sua morte. Eu senti o que estava
acontecendo no dia seis de janeiro! As esperanças, de repente, já
não mais existiam enfeitando o nosso futuro. Mesmo que meu pai não
houvesse falecido, não sabemos se poderíamos ter tido alguma oportunidade
de visualizarmos um futuro promissor, mas nessas circunstancias
as coisas transformaram-se para muito pior. Como meu pai, tirando
quatro anos que serviu na "Força Pública", só tivera pequenos empregos,
sem registro algum, mesmo que estivesse trabalhando em uma firma
conceituada como o Frigorifico Alexandre Eder, não teve direito
a pensão alguma. Minha mãe, por benesse de uma companheira de infância,
que era neta de Adolpho Pinheiro, foi trabalhar como cozinheira.
Meu irmão e eu deixamos uma escola particular em que estudávamos,
que pertencia a uma outra neta de Adolpho Pinheiro, Umbelina Pinheiro
(Lolinha) e ingressamos no Grupo escolar Paulo Eiró, para cursarmos
as duas séries que faltavam para completar o curso primário ( equivalente
à 4ª série do primeiro grau). Em l.940 recebemos o diploma (único
que conseguimos) e passamos a trabalhar para ajudar nas despesas
de casa. Assim morria uma esperança. Mesmo que na realidade nem
tivéssemos chance de alcançarmos alguma formação, sempre existe
o sonho de ser alguém. Daí em diante tivemos que nos dedicar por
nós mesmo através da leitura e da prática nos caminhos da adversidade
para conseguirmos um lugar ao sol. Em que pese todas as dificuldades
que enfrentamos, Deus foi magnânimo conosco criando-nos oportunidades
para que pudéssemos construir algo sólido. Conseguimos, assim, formarmos
uma família que nos dá muito orgulho. RELIGIÃO O que esse termo
nos indica? Crença na existência de forças sobrenaturais, criadoras
do universo. Religião, que deriva de religare, seria a religação
do ser humano a essas forças sobrenaturais. Religação por que? Porque
o homem separou-se de seu Criador! Deus criou o universo e também
o homem e o colocou em um lugar maravilhoso para que pudesse desfrutar
de uma vida feliz. O homem pecou por desobediência e o resultado
disso foi que foi expulso do paraíso, perdendo toda a proteção de
seu Criador, tendo que trabalhar a terra para auferir o seu sustento.
Não satisfeito com isso, pouco depois, achou-se em posição de igualar-se
com o Pai e tentou construir uma torre que alcançasse o céu. Deus,
que possui uma visão infinita de todas as coisas já sabia todos
os passos que o homem daria e permitiu que ele tentasse redimir-se
por si só, quando Ele já havia elaborado um plano perfeito para
que o homem fosse salvo. Assim o homem tentou por várias vezes:
primeiro por sua inocência, depois pela consciência; pela autoridade;
pela promessa; pela lei, tendo fracassado em todas as ocasiões.
Deus, depois de tudo isso oferece a oportunidade da graça, através
de seu filho Jesus Cristo. Na dispensação da graça não é preciso
que o homem faça quase nada porque Deus já fez o principal que foi
pagar os nossos pecados através da morte expiatória de seu filho.
Ao homem cabe, unicamente aceitar a mediação de Cristo, aceitando-o
como seu suficiente Salvador e todos os seus pecados serão apagados,
sendo justificado de toda a impiedade. Quando compreendemos isso,
e infelizmente às vezes nos é difícil compreender porque olhamos
para Deus como um Ser Justo e não como um Pai Misericordioso, passamos
a ter a certeza da salvação e da vida eterna. Não é uma presunção
nossa por que não foram os nossos méritos que alcançaram a graça
e sim o sangue de Cristo, derramado na cruz do calvário pela bondade
e grande amor que o Pai dedica aos seus filhos. Para mim não foi
fácil entender isso, desejava ardentemente me religar a Deus, mas
pensava que para que isso pudesse ocorrer eu precisaria ser puro,
o que de maneira nenhuma me parecia possível, então desistia. Deveria
existir ai a influência do maligno para que eu não encontrasse o
caminho que me conduzisse ao Pai. Mas o Pai não desiste de nenhum
de nós, poderemos resistir à ação do Espírito Santo em nossas vidas,
desviarmo-nos, mas ele estará sempre concedendo-nos novas oportunidades,
até que cheguemos ao conhecimento da verdade. "Conhecereis a verdade
e a verdade vos libertará" (Jo.8:32) Já contei que tive dupla orientação
religiosa, Adventista, do ramo evangélico, por parte de meu pai
e Católica Romana por parte de minha mãe. Depois do falecimento
de meu pai o que prevaleceu foi a orientação Católica. Sempre fui,
na realidade um livre pensador, e como sempre gostei de ler; procurava
conhecer todas as seitas e filosofias embrenhando-me por caminhos
tortuosos que me levaram a não ser nada. Por longo tempo estive
afastado da religião, só cumprindo os deveres impostos por ocasião
do meu casamento, quando confessei, comunguei e me despedi novamente.
Quando os filhos chegaram à idade de receberem orientação religiosa
( no meu entendimento porque isso deve ser ministrado desde a mais
tenra idade; existe até uma ilustração de uma pessoa perguntando
a um grande homem de Deus quando se deveria iniciar a orientação
religiosa de uma criança, tendo ele respondido: "Quatrocentos anos
antes". Porque a orientação religiosa é uma coisa que demanda várias
gerações, passando de pais para filhos, para que possa tornar-se
perfeita) vi-me obrigado a voltar a participar das cerimônias, na
igreja católica, para dar exemplo aos filhos. Mesmo como uma obrigação
não consegui dar seqüência porque tudo aquilo não me dizia nada.
Não que não tivesse fé, possuía em grande profundidade e procurava
e encontrava o conforto sempre que os problemas se apresentaram
e creio que Deus sempre foi magnânimo comigo, concedendo-me bênçãos
sem conta. Deus acabou buscando-me de uma maneira que não esperava.
Minha filha, tendo brigado com o namorado, resolveu, juntamente
com o caçula, ir continuar os estudos no interior, Mococa, precisamente,
por residirem ali os meus sogros. Para ali Deus enviara uma família
de São Paulo, Antônio e Enilda Bianconi (eles dariam início à uma
congregação da Igreja Evangélica Congregacional, hoje já transformada
em igreja), que passaram a dar testemunho na Igreja Presbiteriana
e minha filha aceitou a Jesus como seu Salvador pessoal. Esse era
o elo que me faltava, pois embora lesse a Bíblia e inclusive já
tivesse feito um curso por correspondência, ainda não compreendera
a extensão do plano de Deus que não depende de nosso poder mas do
sacrifício que Jesus fez. Aliás, não fui só eu que teve dificuldades,
Lutero, havia sido instruído em todos os conhecimentos dos pais
da igreja e só depois veio a receber a revelação, ao meditar nos
ensinos do apóstolo Paulo, da salvação pela graça. Eu, nas oportunidades
que havia tido quando menino e ia à igreja com meu pai, e mesmo
depois quando estudava na escola a História Sagrada, já poderia
citar um texto como minha certidão de nascimento espiritual que
era Gn.46:29,30. Meu nome é José e meu pai chamava-se Jacob. Quando
certa vez li esse trecho: Então José aprontou o seu carro e subiu
ao encontro de Israel ( que é Jacó), seu pai a Gozen. E, mostrando-se-lhe
lançou-se ao seu pescoço, e chorou sobre o seu pescoço longo tempo.
E Israel disse a José: Morra eu agora, pois já tenho visto o teu
rosto, que ainda vives. Naquele momento esse encontro transformou-se
como o meu encontro com Deus. Era eu religando-me ao Criador de
quem havia me mantido distante, mas nunca esquecido porque o Pai
me buscou até me encontrar. Sem violentar a minha vontade e sim
fazendo-me entender a verdade. Mas ainda faltava alguma coisinha
e isso aconteceu quando eu, em um dia, antes de ir para o trabalho
li um trecho que encontra-se em Salmo 32: O Rei Davi, arrependido
dos seus pecados derrama a sua alma perante Deus dizendo sentir
até os seus ossos moídos; quando chega ao versículo 9 em que Deus
fala: "Não sejais como o cavalo ou como a mula, que não têm entendimento,
cuja boca precisa de cabresto e freio; de outra maneira não se sujeitarão."
Aquilo foi para mim, e pela primeira vez sentia que Deus havia rompido
a minha resistência e eu passava a compreender a misericórdia do
Pai, que havia providenciado a salvação para cada uma de suas criaturas,
que através de Jesus passavam a ser adotados como filhos legítimos.
Ajoelhei . . .ali . . .na sala . . .os olhos marejados de lágrimas
e . . . fiz uma oração de entrega de todo o meu ser. Depois disso
minha filha reconciliou-se com o namorado, Douglas Nassif Cardoso
e pouco depois voltava de Mococa para casar-se, mas não sem antes
ter influído, também, na vida daquele que seria o seu esposo. Ele
converteu-se ao Senhor e posteriormente cursou o seminário formando-se
em Teologia e posteriormente fazendo mestrado, e cursa Doutorado,
e tem sido uma bênção na obra de Deus. Hoje com quatro filhos, Dirceu,
21, Timóteo,17, Silas,14, e Priscila 9 anos formam uma família feliz
porque todos servem ao Senhor. Meu filho caçula, José Carlos, também
tomou a sua decisão junto a Cristo e casou-se |