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AUTOBIOGRAFIAS

José Wladimir Klein

Reg. EDA/Biblioteca Nacional Nº160.208 - Lv.265 - Fls.338 17/09/98 É proibida a reprodução dos textos, por quaisquer meios, sem a autorização escrita do autor. E-Mail: wladimirk@ig.com.br A P R E S E N T A Ç Ã O Esta nova tentativa de comunicação nasceu ao acessarmos o site do "Museu da Pessoa" na Internet. Ali lemos biografias maravilhosas, verdadeiros exemplos de vida, e tomamos conhecimento de dicas indicando como escrever uma auto biografia. Consegui compor um texto sobre acontecimentos de minha vida enviando-o para o Museu que o publicou em suas paginas. Percebi, através desse exercício, que teria muita coisa a contar se rebuscasse em minha memória; coloquei em ação essa tarefa que resultou no que está sendo apresentado aos leitores. Falo leitores, sem necessariamente ter a intenção de transformar os meus textos em livros, na expressão correta do termo, e sim considero que um meio bastante eficaz para que os nossos trabalhos sejam do conhecimento de um maior numero de pessoas será através da digitalização, oferecendo-os gratuitamente através da Internet. Não divulgo fatos de minha vida por vaidade e sim para que cada ato possa servir de experiência para que as pessoas possam avaliar o que poderão alcançar se tiverem disposição para a luta. Muitas pessoas, embora tenham tudo para vencer acabam soçobrando porque não tiveram a tenacidade e sabedoria necessárias para tirar o melhor proveito das ferramentas que lhes foram colocadas á disposição; outras em que pese a falta de instrumental apropriado, aproveitam as poucas coisas que possuem, transformando-as em ferramentas para o sucesso. Muitos dos fatos ocorridos em minha vida, já os descrevi em outros livros, razão porque me abstive de repeti-los aqui. Talvez você já tenha lido muitas biografias de homens famosos, e com certeza aprendeu muitas lições que poderão transforma-lo para que venha alcançar a notoriedade. Faltava-lhe, talvez, conhecer o que faz, em sua vida, um homem comum, porque a maioria de nós somos pessoas comuns que passam a vida sem maiores transformações, pensando que o que viveram não teve nenhuma significação. Isso é puro engano, pois cada um de nós realizou uma quantidade de ações que puderam dar direcionamento a outras pessoas. De qualquer maneira que agirmos, sempre estaremos influenciando as pessoas, por isso a nossa vida e a maneira que vivemos é importante para que sirva de exemplo a outras pessoas. No sentido positivo ou negativo; se foram negativas as nossas ações estaremos orientando as pessoas como não se deverá viver; se nossas ações forem positivas estaremos indicando um caminho seguro por onde as pessoas poderão chegar a algum lugar. Você que lê este texto, aproveite para analisar a sua vida e anotar o que nela existe de positivo e de negativo e depois desse exame aproveite para operar uma transformação que o levará à conquista de novos patamares que poderão influir em sua felicidade. Felicidade é atrás do que todos nós estamos, mas, o que é a felicidade? Será que é a posse de bens materiais? Para mim, felicidade é a satisfação do dever cumprido. É olhar para trás e podermos contemplar algo que realizamos e ficarmos satisfeitos com o resultado. É poder deitar no travesseiro e agradecer a Deus porque Ele derramou bênçãos sem conta em nossa vida. Isso alcançamos quando damos ouvido à voz do Senhor que nos ensina e nos orienta para que sejamos puros de espírito e grandes de coração; imitando o Pai, que por misericórdia doou a vida de seu próprio filho para que nós pudéssemos ser salvos e justificados de toda a iniqüidade. Í N D I C E 01 Apresentação 02 Índice 03 Memórias de Um Cidadão Comum 11 Duas Ocorrências Interessantes 12 Minhas Paqueras Abortadas 13 Como Quase Perdi a Minha Virgindade 14 Da Frustração à Tenacidade 15 Contato Com o Sobrenatural - Aniversários 16 Minha Mãe 18 Um Acontecimento Marcante 20 Meus Avós Paternos 22 Minha Avó Materna 23 Meus Tios 24 Um Evento Que Me Trás Recordações 26 Os Intocáveis 26 Morre Uma Esperança 28 Religião 30 Erros e Acertos 32 Os Personagens Que Me Rodeavam 34 Meu Ramo Familiar Materno 35 O Nascimento De Meus Filhos 37 A Chave Do Sucesso 37 Pessoas Queridas 39 Estar Sempre Atento 40 Certeza da Esperança 42 Duas Vidas em Contraste 43 O Amor Não é Propriedade 45 Pensamentos 46 Piadas 48 Foto de Bruder Klein MEMÓRIAS DE UM CIDADÃO COMUM Meu nome é José Wladimir Klein, (Mik para os íntimos, apelido que ganhei quando garoto não sabendo pronunciar o meu nome, quando o fazia só saia a última sílaba de Wladimir e a primeira letra de Klein); nasci no dia 06 de Novembro de l.928 no, então, município de Santo Amaro, que em l.935 seria anexado ao município da capital mantendo a mesma denominação, hoje bairro de Santo Amaro, São Paulo, na zona sul. Quando nasci aquele bairro era o final da civilização, ponto terminal da linha de bondes que trafegavam em leito próprio, como se fosse uma via férrea. Meu pai, Jacob Klein era filho de uma índia, Vicência Alves, natural do lugarejo de nome Cipó, muito além do bairro de Santo Amaro, sendo seu pai, Pedro Klein, imigrande de origem alemã. Minha mãe, Maria de Lourdes Moura, era filha "natural" de Honorata de Moura, tendo sido reconhecida, posteriormente pelo pai que era um comerciante santista, cujo nome, se não me engano, era Francisco Araújo. Minha avó, Honorata, era filha de Justina, uma ex escrava alforreada antes da lei libertadora por benesse de seu Senhor Tenente Coronel Adolpho Pinheiro cuja memória é reverenciada pela principal avenida que corta o bairro. Meu pai foi militar pelo período de quatro anos tendo dado baixa da "Força Pública" porque a profissão o mantinha muito afastado da família; com a dificuldade de emprego, passou a fazer jogo do bicho para um neto do Adolpho Pinheiro, (Waldomiro), e posteriormente trabalhou em vários ofícios. Tanto minha mãe como minha avó materna, e talvez até a sua própria mãe, Justina, nasceram no casarão da Av. Adoplpho Pinheiro, nº01 que pertencera ao patrono da avenida e foi ocupado por uma de suas filhas, Maria José Pinheiro (Mariquinha) , até a sua demolição para alargamento da avenida. Meu irmão, Waldemar Conceição Klein e eu também nascemos naquele solar onde meus pais passaram a residir depois do casamento, que aconteceu em 15 de Abril de l.925. Ao tempo em que meu irmão e eu éramos criança, Santo Amaro era um núcleo de poucas ruas, onde as famílias todas se conheciam e geralmente consorciavam-se entre si. O casarão da família Pinheiro que situava-se na esquina da hoje denominada Rua Voluntário Delmiro Sampaio era um centro onde juntavam-se as crianças de todo o bairro, visto que ali, no amplo quintal realizávamos inúmeras brincadeiras, como quermesses ( onde o dinheiro que circulava eram tampinhas de garrafas, o que obrigava as crianças a colherem todas as que encontravam pelo bairro); jogos de futebol, brincadeiras de "bota" "garrafão" " pique esconde", réplicas dos heróis do momento nos cinemas como o "Aranha Negra"; chegamos a organizar um grupo de teatro, apenas com as crianças que, foi um sucesso extraordinário; participavam, além de nós, Célia filha de um Juiz (Dr. Oscar Fernandes Martins que era casado com uma neta de Adolpho Pinheiro, Da. Zizinha); o filho do dono da casa de carnes "Rex" que participava equilibrando-se em um velocípede de apenas duas rodas; o filho de um sapateiro (Atílio); o filho de um dos proprietários da Agência Ford (Luizinho) e muitos outros que no momento não me recordo os nomes. Os ingressos eram palitos de fósforos e, por incrível que pareça, os freqüentadores eram, na maioria, adultos. O dono da Agência Ford, Raphael Navarro, ficou tão entusiasmado que pensou em desalojar um clube de futebol (Cica) que ocupava um seu terreno, para ali montar um circo para que se fizessem as apresentações para toda a cidade, visto que as mesmas eram feitas na varanda do casarão. Só não foi avante essa idéia porque pessoas mais ponderadas fizeram ver àquele empresário a temeridade da realização que colocaria uma enorme responsabilidade nas mãos de crianças ainda em formação. O Dr. Oscar construiu um palco no porão de sua casa para que fossem feitas apresentações em festas de aniversário. Meu irmão e eu freqüentamos, talvez nos primeiros dois anos, a escola particular São Francisco da Prof.a Da. Carmelina Alvim. Posteriormente passamos a freqüentar uma outra escola, cuja prof.a era uma neta de Adolpho Pinheiro, Umbelina Pinheiro Foster (Lolinha) que iniciou as suas atividades na mesma rua que havíamos passado a residir (Delmiro Sampaio), até o falecimento de nosso pai em l.939, quando passamos a estudar, os dois últimos anos, no Grupo Escolar Paulo Eiró, de onde recebemos, em 1.940, o único diploma que nos foi possível, do curso primário (hoje Quarta série do primeiro grau). Órfãos de pai, sem nenhuma pensão, nossa mãe passou a trabalhar como cozinheira da neta do Adolpho Pinheiro, Dona Zizinha, com quem havia sido criada; nós saímos do curso primário e já começamos a trabalhar para ajudar nas despesas da casa. Trabalhei em um escritório de despachante, em uma casa de móveis, em uma oficina mecânica, em uma Cia. de produtos alimentícios, Reisa (nessa firma entrava às 8,00 horas, saindo de casa às seis horas para viajar quarenta e cinco minutos de bonde, descendo na Praça da Sé e indo a pé até a Rua Vitória, próximo à estação da Luz, tomava café pela manhã, comia um lanche de pão com mortadela, sentado na calçada, e ia jantar às nove horas da noite, quando chegava em casa; na volta viajando em um bonde superlotado, de pé, cheguei a desmaiar de fraqueza) até ingressar na "Ligth, de onde passaria para a Cia. Municipal de Transportes Coletivos. A partir daí os nossos castelos desmoronaram-se, pois tudo aquilo com que sonhávamos passava a constituírem-se como metas inatingíveis. Aquele desejo de nos prepararmos para sermos alguém e vivermos uma vida que nos oferecesse perspectivas de sucesso morreram, dando lugar à vivência do momento, da luta diuturna para a sobrevivência. E as ferramentas que possuíamos eram muito rudimentares para acalentarmos sonhos e fantasias. Mas mesmo assim nunca deixamos de sonhar porque sentíamos que as pessoas não são unicamente forjadas nas universidades e sim, também, nas adversidades! E de certa maneira fomos vencedores, visto que com parcos recursos alcançamos condições para as quais a nossa desdita não apontava; meu irmão passou a trabalhar em uma farmácia habilitando-se na profissão e eu tive a oportunidade de ingressar em uma grande empresa, como mensageiro, tendo galgado posição pelo trabalho, chegando a chefe da seção na qual iniciei o meu aprendizado. O meu trabalho foi desenvolvido na seção de tesouraria da São Paulo Ligth & Power , tendo sido transferido posteriormente para a mesma seção da Cia. Municipal de Transportes Coletivos onde completei trinta e dois anos e quatro meses para aposentar-me. Paralelamente, pelo espaço de vinte e três anos, desenvolvi as funções de secretário e diretor administrativo no colégio em que minha mãe trabalhou ( Instituto Educacional Infantil, escola para menores excepcionais). Ligado ao trabalho participei do Sindicato da categoria, como representante no meu bairro, e na comissão paritária para levantamento e elaboração do "Quadro de Carreira" da empresa (CMTC). Não tivemos tempo para aprendermos muitas coisas com nosso pai, pois por ocasião de seu passamento meu irmão contava 12 anos e eu 10, mas uma semente preciosa foi plantada em nosso intelecto e em nossa alma, foram retalhos da "Palavra de Deus" quando ele nos levava para assistirmos aos cultos na Igreja Adventista do Sétimo Dia ,em Santo Amaro. Não seguimos a religião depois que ele faleceu, visto que nossa mãe era de formação católica e nos influenciou, também, mas essa semente viria a frutificar no tempo certo para que tomássemos conhecimento das verdadeiras doutrinas que encaminham o ser humano para apropriar-se das promessas de salvação e de vida eterna através de Jesus Cristo. Isso constituiu-se em uma plataforma segura para que conduzíssemos os nossos filhos. Apesar da dificuldade que sempre vivemos, tanto meu irmão como eu assumimos compromisso familiar muito cedo, com dezenove anos. Nessa ocasião nossa mãe já havia deixado o trabalho de cozinheira e iniciado o trabalho em um colégio, onde alcançou a aposentadoria anos depois, deixando-nos livres para assumirmos os nossos compromissos. .Meu irmão era um tanto namorador e acabou casando-se com uma jovem do bairro, de família conhecida, Edith Borba. Eu, muito tímido, não conseguia relacionar-me com as garotas, ficando unicamente nos olhares trocados, o que me apontava como um futuro solteirão. Apenas sonhava, e no meu sonho construía a musa ideal com quem algum dia estaria me unindo. Estava escrito nas estrelas! Na primavera de l.947, uma jovem (Jandira Ramalho, filha de Francisco Ramalho e Victória Perassole), saiu da cidade de Mococa, interior de São Paulo, e viajou para São Paulo, em visita a parentes que residiam no bairro do Belém ; no dia 31 de Agosto foi obrigada a visitar outra parente no bairro de Santo Amaro, propiciando-nos o encontro que nos levaria a estarmos casando no dia 31 de Julho de l.948, exatamente onze meses depois de nos conhecermos. Nesses onze meses transcorreram muitos acontecimentos. A Jandira veio para visitar parentes mas a sua intenção era ficar em São Paulo; os primos dela arranjaram-lhe um emprego e ela, com receio de que eu não aprovasse disse-me que o emprego era nas Lojas Três Irmãos, na Rua Direita. Várias vezes postei-me nas proximidades para tentar encontrá-la e não me foi possível, em um dos dias quando percebi ela estava perto de mim, mas vindo de outro lugar; daí ela não teve outra alternativa senão me falar a verdade, o emprego era em um bar na Rua da Quitanda (era, justamente um bar que eu costumava ir tomar café com os colegas, quando íamos fazer depósitos ou saques no Banco do Estado que era próximo); não gostei, não tanto pelo local e mais por ela ter mentido. Como já estava gostando de fato dela e previa que consolidaríamos o nosso relacionamento, aconselhei-a a voltar para a sua cidade, ela aceitou o meu conselho e voltou para a casa dos pais em Mococa, que, soube depois, aprovaram a minha conduta. Ficamos nos relacionando por cartas até um dia, um mês e pouco depois, quando recebi uma das cartas e fiz um suspense para abri-la. Um meu colega, Moacir Fowler, me convidou para irmos a Campinas e aceitei; íamos no Sábado e voltaríamos no Domingo. Tomamos o trem às 20,00 horas na Estação da Luz ; no trem abri a carta e a saudade bateu fundo; o meu colega que era tanto ou mais louco do que eu, disse: porque não vamos até Mococa? A sugestão era o que eu desejava ouvir e imediatamente saímos à procura do guarda trem para sabermos das possibilidades. Ele nos encorajou orientando que deveríamos descer em Campinas onde faríamos conexão com o horário da Mogiana que nos levaria até Casa Branca, de lá poderíamos tomar um taxi que nos levaria até Mococa. Tomamos esse trem e sacolejamos na Mogiana (bitola estreita) até Casa Branca. Descemos na estação e o único taxi que havia estava a serviço de um fazendeiro pelo falecimento de um parente. O funcionário da estação nos orientou e tomamos, às carreiras, um trem que ia para Passos MG, para descermos em São José do Rio Pardo, e conseguirmos um taxi. Em São José uma família desceu na nossa frente e tomou o único taxi para leva-los a uma fazenda; falamos com o motorista e ficamos esperando a sua volta para que nos levasse à Mococa. Até que enfim! Nós nunca havíamos saído de São Paulo e para mim deveria ser como aqui que os bares amanheciam abertos; o motorista nos dizia, para aplacar a nossa fome: Vou deixa-los em frente de um bar que faz o melhor café de Mococa. Quando chegamos lá o bar estava fechado e não adiantou nada ficarmos em frente, eram cinco horas da manhã. Ficamos próximos à praça principal, e quando as famílias começaram a abrir as portas fomos alvo de curiosidade. Sentamos em uma soleira de porta e esperamos. Quando eram seis e meia e passava um senhor e o meu colega resmungou, oh! Cidade miserável, estamos morrendo de fome! O senhor aproximou-se e disse, vocês são de fora, porque não foram ao Hotel Terraço? E nos informou e fomos tomar o melhor café que havíamos tomado até aquela data. No hotel as pessoas também estavam curiosas, querendo saber se estávamos tratando assuntos políticos, deixamos tudo em suspense e depois das oito horas fomos procurar o endereço da Jandira. Quando subíamos a Rua José Bonifácio (o numero era 993) o meu colega dizia, Mik, você não conhece o pai da moça, e se ele aparece com uma espingarda e passar fogo na gente? Mas a determinação e a boa intenção fizeram com que fôssemos bem recebidos. Eu estava meio constrangido, mas meu colega logo ficou a vontade, eu soube depois que havia sido porque vira a minha fotografia, em um porta retrato, em cima do rádio (eu já havia sido aceito, como declarou depois). Saímos passear pela cidade, e quando voltamos almoçamos e um taxi já estava nos esperando para levar-nos de volta a Casa Branca, onde deveríamos tomar o trem que ali passava ao meio dia e meia. Fizemos a viajem de volta e às oito horas do Domingo, desembarcávamos novamente na Estação da Luz; em vinte e quatro horas havíamos realizado essa façanha. Dois meses depois saí de férias e fui para lá e fiquei quase as férias todas. Voltei com o coração partido porque apegado profundamente àquela que seria a minha companheira. Passaram-se mais dois meses e a Jandira conseguiu convencer os pais de virem para São Paulo; Alugaram a sua casa lá e vieram residir próximo a parentes no bairro do Belem, mais exatamente na "Mãe do Céu. O nosso namoro consolidou-se, embora no meio tivéssemos um desentendimento que quase acabou com tudo, mas fizemos as pazes e em 31 de Julho de l.948 realizamos o nosso sonho que tem durado até agora. Fomos morar no quintal da casa onde já residia, onde construí um cômodo. Após os primeiros meses em que ficamos tomando refeições em casa de minha mãe, resolvemos assumir a nossa casa, dividimos o cômodo com o guarda-roupas e um guarda-louças que compramos e transformamos o espaço em quarto e cozinha; precisávamos subir na cama pelos pés da mesma; do outro lado ficava uma pequena mesa, duas cadeiras, um fogão a querosene, em cima de uma mesa que eu mesmo construí de um caixote (quando derramava qualquer coisa exalava um terrível cheiro de querosene!). Neste ano de l.998, em 3l de Julho estaremos completando 50 anos de união. Já aperfeiçoamos o nosso relacionamento? Ainda não! Como poderíamos construir algo perfeito sendo seres imperfeitos? Mas a persistência, a compreensão de ambos os lados fizeram com que fossemos, através dos anos, superando as nossas diferenças, transpondo obstáculos para chegarmos a poder olhar para o nosso passado, contemplar os nossos filhos e netos e concluirmos que construímos algo bom e sólido. Assumindo a nossa responsabilidade criamos , também, uma responsabilidade para os nossos descendentes, qual seja a do dever de constituírem famílias que consolidem a sociedade para que possa haver segurança para os filhos, e através deles para toda a humanidade. Quando casamos, antes fizemos uma análise da situação que deveríamos enfrentar, contando com o pequeno salário que eu recebia; entramos em acordo que a Jandira não mais trabalharia fora, dedicando-se exclusivamente ao lar. Isso talvez por insegurança minha que pode até ter impedido a ela uma ascensão profissional. Como os afazeres eram poucos ela matriculou-se, juntamente com minha mãe e minha cunhada, em um curso de pintura tendo demonstrado o seu talento. Pena que não deu continuidade ( mais tarde ela voltaria a pintar) preferindo, na ocasião fazer um curso de corte e costura, que na verdade foi muito útil, pois passou a costurar para ela, para mim e para as crianças, ajudando significativamente no orçamento doméstico. Grande parte do patrimônio que conseguimos formar devemos à disposição para o trabalho, de minha esposa, que sempre conservou o nosso lar agradável e acolhedor, além de sua capacidade de organização e economia, aproveitando tudo de tal forma que o salário parecia multiplicar. Não digo que não passamos por dificuldades, mas dentro de uma organização, gastando com proficiência os recursos, alcançamos todos os nossos objetivos. Hoje ainda tentamos passar esses princípios aos netos, para que eles saibam administrar as suas vidas com a finalidade de caminharem para as realizações de suas aspirações. Quatro anos depois de nosso casamento transferimos nossa residência para imóvel próprio no bairro de Interlagos onde residimos por vinte anos; durante esse tempo, mesmo trabalhando em dois empregos efetivamente além de outros trabalhos eventuais que desenvolvia, encontrei tempo para participar do trabalho comunitário através da S A I - Sociedade Amigos de Interlagos onde fui Secretário, Conselheiro, Presidente do Conselho Deliberativo, Diretor de Relações Públicas e Secretário Geral, tendo o privilégio de colaborar para que muitos nomes de qualidade passassem a participar da Sociedade dando-lhe um dinamismo que a colocaria em destaque no cenário comunitário. Ali convivi com companheiros muito caros estabelecendo amizades sólidas que o tempo jamais poderá desgastar. Não gostaria de citá-los nominalmente com receio de esquecer-me de alguns, mas terei de citar: Calixto José da Silva, Antônio Fávaro, Luiz Rattis, Norberto Ramos, Aristóteles Costa Pinto, João Tappis Simão, Luiz Maruyama, Ivo Lima Neto, Walter Salvador Intelizano, Adécio de Andrade Valle, Domingos Claro da Silva, Guerreiro, Martins, Antenor, Heleno e outros que a memória não alcança no momento. No dia 28 de Setembro de l.972, exatamente e coincidentemente quando fazia vinte anos que havia chegado ao bairro de Interlagos, dele me despedi para ir residir em um imóvel alugado na Rua Augusta, e posteriormente, em l.974, para um apartamento próprio na cidade de São Bernardo do Campo. Quando mudei para São Bernardo do Campo, para o Conjunto Residencial Samuel Gompers, em conversa com minha esposa lhe disse, agora vou aposentar-me, definitivamente, de todas essas participações de sindicatos, políticas e comunitárias! Na primeira reunião do condomínio, que participei, sai de lá com o compromisso de elaborar uma previsão orçamentária, para que fosse aquilatada a necessidade do condomínio que estava com dividas acumuladas. Haviam feito a proposta de um aumento de 10% nas taxas e mais uma taxa de fundo de reserva de 10% das taxas mensais e a mesma não foi aceita pela assembléia; Naquela ocasião apenas trinta por cento dos condôminos estavam pagando suas taxas. Assumindo aquilo como um desafio elaborei uma previsão realista e propus um aumento de cento e vinte por cento, que mediante a minha exposição foi aprovada. O custo disso foi que fui obrigado a assumir a administração do condomínio sendo eleito síndico. Uma campanha foi iniciada contra o aumento, liderada por uma professora, moradora no conjunto, que mandou me chamar em seu apartamento e me deu um ultimato para que não realizasse o aumento porque ela estaria fazendo uma campanha contra. Eu lhe respondi que o aumento seria efetivado e que quem não pagasse as suas taxas até o dia estipulado estaria pagando uma multa de 20%, de acordo com a lei e a convenção de condomínio. No dia 15 de maio daquele ano setenta por cento dos condôminos pagaram as suas taxas e no dia seguinte o restante correu ao meu apartamento para que eu não cobrasse a multa; tiveram de pagá-la, para que as suas despesas não acrescessem ainda mais pelos juros e correção monetária, além de honorários de advogado. Em nove meses trabalhando, abrindo mão do direito de "pró labore" conseguimos sanear as contas do condomínio, regularizando diversas deficiências, além de deixarmos saldo em caixa para que fosse cumprida a exigência de colocação de extintores de incêndio em todos os prédios. Depois da aposentadoria, quando nosso filho mais velho, Antônio Paulo, já estava residindo fora de casa, tendo a nossa filha, Maria Teresa, abandonado o curso de letras, que estava realizando, para casar-se, o caçula, José Carlos, encontrava-se estudando em Mococa, adquirimos uma chácara na cidade de Suzano e passamos a fazer uma higiene mental, plantando árvores e trabalhando nos afazeres agrícolas. Como nosso filho encontrava-se em Mococa, adquirimos ali uma pequena casa e nos transferimos para lá em l.977. Aliás esse era um sonho que alimentávamos desde l.947, quando a visitamos pela primeira vez. Realizamos várias idas e vindas, no total de cinco vezes. O último período que passamos lá foi mais prolongado, dez anos, quando tivemos a oportunidade de realizarmos várias coisas com que sonhávamos. Uma delas foi colaborar com quase todos os jornais locais como articulista e redator. Nessa função levantamos a idéia de a cidade eleger um de seus filhos para o cargo de Deputado Estadual, o que encontrou enorme ressonância culminando com a indicação do médico Dr. Antônio Naufel, cuja campanha coordenamos e que recebeu uma votação maciça na cidade, mas que infelizmente não bastou para elegê-lo. Outra foi a fundação de uma associação literária, a A L I M - Associação Literária Mocoquense que também editou um jornal literário "A Cigarra" que alcançou projeção nacional e até chegou a ser distribuído em outros países. Fundamos ali ,também, o" Conselho de Ação Comunitária" com a finalidade de coordenar as ações em benefício da comunidade, no qual participei como Secretário Geral. Viríamos a participar, ainda, da fundação da Associação dos Aposentados de Mococa onde ocupamos o cargo de Vice Presidente. Naquela cidade iniciamos, em l.989, um trabalho evangelístico voltado aos médicos ( MINOEVAM - Ministério de Oração e Evangelização aos Médicos) que consiste no envio de mensagens à categoria profissional e que teve prosseguimento quando nos transferimos novamente para São Bernardo do Campo. Participei, ainda , em Mococa, do Primeiro Congresso de Saúde, como representante da ALIM; Participei de oficina de Curadoria de Exposições e outra sobre Literatura Brasileira; integrei a Comissão de Bibliotecas do Município. Fui Presidente do CONSEG - Conselho Comunitário de Segurança. Depois da aposentadoria realizei outro de meus sonhos que foi escrever, sob o pseudônimo de Bruder Klein (Irmão Pequeno) , constituindo-se a minha produção, até o momento, nos livros "Mensagens e Reflexões" "Contos Para Ler a Dois na Cama" "Devaneios" "Minhas Incursões pelo Jornalismo" "Proversando" " Nova Dimensão" "Contos Pontos e Contatos" "Cartas Vivas" "Serões em Família"; "Relendo Cartas" ; "Memórias de Um Cidadão Comum", "Poesias Reunidas" "Frases e Pensamentos", "Aconselhamento Matrimonial" "Outras Mensagens" "Outras Histórias" "Aconselhamento Matrimonial II", "Relendo Cartas II", "Walkyria", Uma História em Três tempos. Todos eles estão disponíveis em um site na Internet de onde foram retiradas inúmeras cópias, havendo nós recebido muita correspondência elogiosa. Aguardamos, agora, a oportunidade de publicar essas obras, não possuído pelo desejo de sucesso literário ou financeiro e sim, unicamente, para compartilhar com outras pessoas os pensamentos e experiências. Quem desejar receber cópias digitais, gratuitas, de qualquer dos livros será apenas solicitar mandando-nos um E-Mail: wladimirk@ig.com.br Os arquivos estão digitalizados no Word/97, sendo necessário que a pessoa possua esse programa em seu computador para poder visualizar o conteúdo dos livros. De nossos filhos nos chegaram um patrimônio extraordinário que são os netos, no total de sete: Paloma, do Antônio Paulo; Dirceu , Timóteo, Silas e Priscila, da Maria Teresa e Thais e Nathália, do José Carlos, com quem temos um relacionamento maravilhoso e que são, perante nossa corugisse, jovens que nos dão muito orgulho. Hoje residimos em nosso apartamento em São Bernardo do Campo, realizados, mas ainda sonhando com o futuro, pois embora o passado nos alimente pelas lembranças e o presente possa ser rico em realizações, ainda divisamos o futuro que temos a certeza nos trará muitas alegrias, pelo que poderemos viver nas realizações tanto nossas, ainda, como na de nossos descendentes. Ainda recentemente deixamos a máquina de escrever e aderimos à informática, onde a cada dia estamos aprendendo mais alguma coisa. Cremos que assim deverá ser a vida; vivida a cada dia e sempre nos renovando e iniciando novas coisas. Vivendo assim jamais nos sentiremos velhos porque o nosso intelecto e o nosso espírito estarão sempre projetando novas investidas para o futuro. Hoje, quando olhamos para trás e já nem reconhecemos aquele jovenzinho orfão, que era falto de esperança, percebemos que por mais que seja desalentadora a nossa situação, se formos perseverantes, se soubermos colher em nossas atividades os ensinos que a vida poderá nos fornecer, poderemos vencer, mesmo sem as ferramentas mais apropriadas. Aqui terei de incluir uma frase que li em um livro, tendo mudado o meu modo de pensar, que lamentavelmente não lembro mais o nome da autora: " Não existe situação desesperadora, existem pessoas que se desesperam em determinadas situações". A sabedoria da humanidade está acumulada nos livros (dentre os quais está a Bíblia que é a Palavra de Deus, e é o mais importante porque orienta , principalmente, a nossa vida espiritual), de onde poderemos colher tudo o que precisarmos para sermos eficientes em quaisquer circunstâncias. A realidade está a nos provar isso, enquanto muitos não conseguem vencer, em que pesem todas as oportunidades que tiveram, outros conseguem superar as suas deficiências e realizarem acima de suas possibilidades. Duas coisa deveremos ter bem presente em nossa trajetória, são a consciência de nossas limitações e a capacidade de contentarmo-nos com apenas as coisas que sejam fundamentais para a nossa vida. Uma filosofia que aplicamos em nossa vida e que tentamos transferir para os nossos filhos é que: "Não importa o quanto ganhemos como fruto de nosso trabalho, o fundamental será gastarmos menos do que ganhamos". Este é um esboço geral ao qual pretendemos ir acrescentando detalhes interessantes de nossa vivência e que desejamos ir reproduzindo à medida que eles aflorem à memória. Todos sabem que a memória dos velhos é mais voltada para os acontecimentos que ficaram no passado, embora não retenhamos os fatos mais atuais. E à medida que eles se apresentem os anotaremos, desde que possa apresentar algum interesse. Nessa pesquisa que visa recompor o nosso passado iremos desvendando os acontecimentos que de uma maneira ou outra influenciaram as pessoas que deles participaram. De suma importância são aqueles fatos ocorridos no relacionamento com os filhos, netos e com cada pessoa que cruzou o nosso caminho, que poderão ter sido recalcados e passado a influir no comportamento posterior. Através da sondagem interior iremos recompondo os fatos para desvendar os segredos da alma. Eu costumo brincar com os meus filhos que minha esposa e eu, assim como todos os de nossa idade, estamos vivendo na prorrogação e, de acordo com o regulamento da copa do mundo de futebol, a decisão se dá por morte subta. Eu só posso fazer um apelo aos vinte e dois jogadores que eventualmente componham a minha história, para que nenhum deles marque gol, para me darem tempo de narrar as coisas que tenho para contar que, sendo experiências de vida, poderão ser úteis a quem delas possam tomar conhecimento. DUAS OCORRÊNCIAS INTERESSANTES Quando trabalhei na casa de móveis (deveria ter doze anos) aconteceram dois fatos interessantes: O meu patrão era um judeu de idade avançada e era casado com uma senhora890 que deveria ter menos da metade de sua idade, era uma pessoa de fino trato, bonita, charmosa, andava sempre muito bem vestida e perfumada; ela saia todos os dias e ia para o centro de São Paulo, razão que circulavam maledicências no sentido de ela possuir uma casa de exploração do lenocínio ( Teve gente que até alegou ter freqüentado a tal casa!). Ela me tratava com muito carinho, quando eu era mandado para levar alguma coisa em sua casa. Um determinado dia, o meu patrão, que, também, me tratava com muita consideração, me pediu para que acompanhasse a sua esposa até a Estação do Norte (de onde partiam os trens para o Rio de Janeiro) pois sua esposa iria viajar, tendo que tomar o trem que partiria às 20,00 horas. Senti-me muito lisonjeado pela confiança, mas quando contei a minha mãe ela não queria autorizar de maneira nenhuma; eu protestei porque achava que não havia nada de mais, e me revoltei tanto que ela acabou por concordar. No dia determinado, às seis horas da tarde, quando estávamos esperando o bonde que nos levaria até o centro da cidade, minha mãe apareceu, dizendo que tinha de ir à casa de uma pessoa e que, assim, nos acompanharia, para que depois eu fosse com ela. A Da. Sara ficou um tanto constrangida mas não havia maneira de não concordar. Eu, também senti-me muito mal com aquela situação. Fomos, todos juntos, até o centro da cidade e tomamos outro bonde que nos levou até o nosso destino; quando lá chegamos fomos informados que não haveria trem nenhum naquele horário. Da. Sara ficou ainda mais constrangida, pois não havia maneira de explicar como não se informara de coisa tão importante como o horário de partida para a sua pretendida viajem. Ela teria de voltar para casa, com a mala que havia levado e quis dispensar a minha companhia, já que minha mãe "tinha a intenção" de ir a outro lugar. Minha mãe disse que deixaria para outro dia e voltamos com ela para o bairro de Santo Amaro. Ficou a pergunta: O que haveria de verdade por trás daquela simulação de viajem? Será que, de fato, havia alguma intenção oculta, como minha mãe desconfiou, talvez um seqüestro, ao qual ela daria a explicação que teria sido depois de eu a deixar? Àquele tempo nem cogitava-se dessa modalidade de crime, mas se não fora a astúcia de minha mãe, quem sabe onde eu poderia ir parar, até em Israel! O segundo fato foi o que colocou fim à minha permanência naquela firma: Um Senhor apresentou-se na loja, na parte da tarde, para comprar uma cama e um colchão de casal, mas precisava que fosse entregue naquele mesmo dia. O meu patrão disse que não daria porque o carroceiro (àquele tempo as entregas eram por meio de carroças) não poderia faze-lo. O freguês disse se ele arranjasse alguém para levar o colchão, ele levaria a cama . Meu patrão concordou, adivinhem pensando em quem? Pois é, era eu mesmo. A casa que o homem havia alugado distanciava-se, seguramente uns oito a dez quilômetros (quem conhece São Paulo pode avaliar a distância de Santo Amaro até o Brooklyn Novo, onde hoje passa a Av. dos Bandeirantes; e a casa ficava próximo ao Rio Pinheiros) Ele colocou a cama na cabeça e eu o colchão e caminhamos até a casa dele onde chegamos quando já era noite. No caminho encontramos minha mãe que passeava com algumas pessoas conhecidas e escadalizaram-se com a monstruosidade daquele emprego que me obrigava a cumprir tarefas acima da capacidade de uma criança de doze anos. No dia seguinte ela determinou que eu deixasse o emprego. Foi quando uma colega sua arrumou-me para trabalhar na Reisa, onde, também, não foi um bom emprego. Chegamos lá às oito horas da noite e o bom homem me deu uma "gorgeta" de quatrocentos reis que daria para mim tomar o bonde. Mas aí ainda encontrei disposição para andar algumas paradas a pé afim de chegar ao ponto de onde só pagaria duzentos reis, e me sobraram duzentos reis para outras coisas MINHAS PAQUERAS ABORTADAS Aos doze anos tive um relacionamento impar que ficou marcado em minha mente. Foi com uma menina da mesma idade que eu de nome "Carminha". Ela era colega das filhas do Dr. Oscar Fernandes Martins, que era onde minha mãe trabalhava, e foi uma de suas filhas que trouxe-me um bilhete dessa menina dizendo que gostava de mim; mesmo dentro de minha timidez habitual consegui alimentar essa fantasia durante um carnaval. Ambos éramos sócios do Clube Bandeirantes, em Santo Amaro e freqüentávamos as matinês que ali eram apresentadas. Dançávamos, em par constante, sem sequer conversarmos, quando acabou o carnaval acabou-se, também, aquilo que para nós era um namoro. Mas se as palavras não conseguiam ser ditas os nossos olhares matraqueavam tudo o que se passava em nossos íntimos. Silvia foi outra menina a qual incluí a história, em um de meus livros, parecida com a anterior. Aos quatorze anos creio que ocorreu o fato mais marcante de toda a minha vida; foi o conhecimento de uma menina pouco mais jovem que eu, Walquyria, que passou a ser a musa encantada transformando-se no mito que viveria eternamente em minha vida. Infelizmente foi tomada para o desconhecido ficando só a lembrança que constantemente machuca o coração pela saudade gerada. Haviam duas irmãs que faziam o "footing" no bairro de Santo Amaro ( para os que não sabem o que é isso, era o passeio em uma determinada praça ou rua, onde os jovens encontravam-se, daí nascendo as paixões que geralmente levavam ao casamento), chamavam-se Caridade e Clementina, a primeira era alta e a Segunda mais baixa; certa vez, depois de muitos ensaios, em companhia de um colega (Bilo) fomos falar com elas, eu com a Clementina e o Bilo, que era baixinho, com a Caridade, ficando pelo ombro dela; o Bilo já era experimentado começou logo a conversar, e eu precisei caminhar uns terríveis cinco minutos para que conseguisse proferir algumas palavras, foi um fiasco e as duas irmãs ficaram desiludidas e nos dispensaram. Posteriormente fiquei muito amigo de um irmão dessas jovens que era conhecido pelo sobrenome , Mendonça. Já falei que meu irmão possuía muita facilidade para abordar as meninas, tendo namorado várias. Um dia me abordou e disse que eu tinha de arranjar uma namorada, se eu não alimentava algum interesse por alguma? Falei que sentia muita simpatia por uma determinada jovem e ele me deu um ultimato: te dou quinze dias para falar com ela, se não o fizer eu vou conquistá-la e você ficará na mão. Nunca nasceu-me coragem e ele também acabou não cumprindo a sua promessa por ter conhecido a jovem com quem veio a casar-se. Quando meu irmão começou a namorar essa que acabou sendo minha cunhada, ela tinha uma prima que passou a me assediar, mandando recados que gostaria de namorar comigo. Saíamos fazendo programas juntos mas unicamente por amizade. Com essa jovem (Margarida) houve um caso interessante, ela freqüentava um centro espírita, como médium e eu com outros jovens, sempre depois de nossas andanças passávamos por lá e ficávamos apreciando por uma janela. Uma noite em que estávamos lá "baixou um espírito" através dela e supostamente era o do meu pai. Me chamaram e entrei muito constrangido e ela abraçou-me, me deu conselhos, que eu não deveria chegar tarde em casa, me comportar bem. Depois disso a pressão aumentou e acabei namorando-a por um curto período; quando conversando fi-la cair em contradição e ela acabou contando que de fato fora uma simulação e quem havia dito que eu chegava tarde em casa teria sido o meu irmão. Ela era muito carinhosa, mas já havia namorado quase todos os meus colegas e fiquei na dúvida se de fato gostava de mim, o que levou-me a fazer um teste, desfazendo o nosso relacionamento, e no dia seguinte ela já estava namorando outro. Aquilo feriu o meu orgulho e depois que, por insistência da irmã ela deixou o outro rapaz e voltou a relacionar-se comigo, não quis mais. COMO QUASE PERDI A VIRGINDADE Um episódio bizarro ocorreu quando um grupo de colegas me carregou para um lupanar. Era uma casa bem no centro de Santo Amaro cuja cafetina tinha o apelido de "Maria Comprida", uma senhora bem alta, de idade avançada que residia em uma casa antiga na Rua Padre José Maria, esquina da Rua Paulo Eiró. Não tive outra alternativa senão ir porque o complô era armado exclusivamente tendo em vista a minha pessoa. Eu que em meus sonhos imaginava realizar um primeiro encontro sexual com uma jovem que possuísse a beleza e as qualidades de uma atriz, tendo como ambiente um lugar refinado, vi ruírem por terra toda aquela fantasia que havia criado, em minha adolescência, quando me vi naquele casebre, diante daquela mulher idosa, enrolada em um xale, sentada em uma sala rústica, tendo ao seu lado três mulheres que não igualavam-se nem de longe ao que havia sonhado. O Rubens, que era o mais velho do grupo, falou com Da. Maria: "Nós queríamos uma mulher! Ela balançou a cabeça para o lado das três mulheres sentadas ao seu lado e disse,: Tem isso ai, pode escolher! Escolher o que! Mas entre elas havia uma mulher casada, que por sinal era mãe de umas garotas com quem eu paquerava, sendo esposa de um militar. Para defini-la teria de assassinar o idioma e dizer que era a "menos pior". Escolhi aquela e entrei no quarto, porque os colegas insistiam que eu fosse o primeiro. No quarto ela não consentiu em despir-se e eu vendo a cama com roupas imundas que deveria ter abrigado muitas pessoas, e com a cabeça cheia de cerveja, não consegui esboçar nem um pequeno sinal de desejo e só o que pude fazer foi pagar regiamente a dona, por nada, e dar-lhe uns conselhos para que não prosseguisse naquela vida, enganando ao marido e às filhas. Ela saiu dali e mesmo que os meus colegas insistissem não se relacionou com mais ninguém, pelo menos aquela noite, não sei se cumpriu a promessa que me fez. E eu, assim prossegui invicto. Graças a Deus fui preservado para que pudesse realizar o meu sonho, anos depois, por ocasião do meu casamento. Cumpria, assim, em minha vida, o preceito exarado na Palavra de Deus de conservar puro o leito nupcial: "Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula; porém aos que se dão à prostituição e aos adúlteros Deus os julgará. (Epístola aos Hebreus 13:4) DA FRUSTRAÇÃO À TENACIDADE Uma coisa que devo contar a vocês é como ocorreu a minha admissão na empresa onde trabalhei mais de trinta e dois anos. Fui apresentado por uma pessoa muito influente, mas assim mesmo foi preciso que passasse pelos testes e exames de admissão. Eu que terminara sofrivelmente o curso primário (4ª série do primeiro grau) não estava em condições de passar pelas exigências que eram solicitadas dos candidatos a mensageiro, que era a vaga a que me propunha.. Não houve, porém outra alternativa e submeti-me ao sacrifício sem esperança de alcançar o objetivo. Terminados os testes o Prof. Carvalhais chamou-me à sua sala e me disse: -Você fez uma pixotada! Eu simplesmente baixei a cabeça humilhado porque sabia que ele estava com a razão. Mesmo assim fui admitido em função do meu "padrinho"! Iniciado o trabalho que exigia muito devotamento prático, adaptei-me maravilhosamente e mesmo não havendo estudado mais nada passei a adquirir conhecimentos através de leituras; tudo que conseguia devorava passando a aperfeiçoar os meus conhecimentos através dos tempos. Quatro anos após a minha admissão o meu contrato de trabalho foi transferido para a Cia. Municipal de Transportes Coletivos, que absorveu a parte dos bondes que era operada pela Ligth&Power e eu já completamente habilitado como Auxiliar de Caixa continuei a desenvolver as minhas atividades. Muitos anos depois, quando fui indicado pelo nosso sindicato para representá-lo em uma comissão paritária com a função de elaborar um estudo de todos os cargos da empresa, para elaboração de um "Quadro de Carreira", um dos participantes era o Prof. Ubirajara, Chefe do Departamento de Psicotécnica, que justamente procedia aos testes para os empregados que eram admitidos. Em conversa com ele falei de minha frustração por não ter passado por uma avaliação ao que me respondeu que poderia providenciar para que eu fizesse os testes; aceitei e passei por uma prova de fogo. Por pura ironia do destino, o Professor que me examinou foi justamente o professor Carvalhais, agora famoso, depois de ter participado como psicólogo da seleção brasileira de futebol. O resultado foi bastante satisfatório e aquele eminente professor me ofereceu diretrizes para que eu pudesse aproveitar todo o meu potencial. Depois de tantos anos entre os nossos dois encontros é claro que nem passou pela mente do professor que estava conversando com o mesmo menino a quem um dia dissera (com toda a razão) Você fez uma pixotada! Nem era necessário que o soubesse porque era eu que estava confrontando-me comigo mesmo para retirar do meu currículo aquela frustração que me impedia de progredir. A partir desse dia, milagrosamente pude passar a tomar atitudes desassombradas que me conduziram a um estado de satisfação íntima, superando obstáculos e realizando coisas que jamais pensara que pudessem ocorrer em minha vida. CONTATO COM O SOBRENATURAL Eu poderia ter uns 10 anos, quando surgiu uma novidade trazida por meninos maiores no afã de mostrarem-se entendidos nos segredos do amor. A novidade era que, se conseguíssemos três fios de cabelo de uma menina, por quem tínhamos interesse, e fizéssemos que fossem cortados três vezes por uma "formiga feiticeira" ela "daria" para nós. A primeira dificuldade apresentava-se para conseguirmos os tais três fios de cabelo, e em segundo lugar o que significaria "dar" para nós; isso era um enigma difícil de decifrarmos, presos que estávamos, ainda, à inocência da infância. Movidos pela curiosidade usávamos de todos os expedientes para conseguirmos o troféu que nos faria amados pelas deusas daquele momento. Ai surgia a dificuldade insolúvel, como descobrirmos a tal formiga feiticeira? Acabávamos tentando que uma formiga saúva ( porque a achávamos com aspecto de uma feiticeira) cortasse o trançado dos três fios de cabelo. Nunca conseguimos e ficamos sem saber se de fato a simpatia poderia funcionar. ANIVERSÁRIOS Meu aniversário é no dia seis de novembro, não lembro-me de muitos , mas existem alguns que ficaram gravados em minha mente. Um deles foi em l.972 ou 73, quando escrevi uns versos (Lágrimas) em um pedaço de papel e que depois de muitos anos reencontrei e indicavam-me o cinzento astral em que estava envolvido naquele momento. Um aniversário bastante hilariante foi quando completei uns seis anos. Minha mãe fez um belo bolo e como ia receber a visita de pessoas amigas, antes destas chegarem deu banho em mim e em meu irmão, como estava um tempo um pouco frio, com uma garoa característica da capital paulista nos fez vestir pijamas de flanela, novos, e recomendou que de maneira nenhuma nos sujássemos. Em seguida entregou-se aos preparativos para receber as visitas. Quando em um determino momento olhou pela porta da cozinha, meu irmão e eu estávamos em um tanque que meu pai havia construído para a criação de marrecos; nos deliciávamos jogando água, um no outro. Intempestivamente nos tirou dali pendurados pelas orelhas e nos fez tirar a roupa e ficarmos despidos no banheiro que ficava atrás da casa. O pior foi que na passagem ela apanhou um pedaço de madeira que encontrava-se abandonado no chão e com ele esquentou a nossa poupança; quando percebeu os nossos bumbuns estavam sangrando por ferimentos causados por um prego que havia no pedaço de madeira. Para concertar colocou salmoura e nos deixou presos no banheiro . Certa hora as visitas quiseram ir ao banheiro (mais por provocação, pois eram duas jovens) e levaram duas toalhas para que saíssemos e ficássemos atrás do galinheiro , tentando nos espiar, só não conseguindo nos humilhar porque começamos a atirar pedras para afugenta-las. Naquele dia a festa havia terminado para nós; logo que as visitas foram embora, fomos obrigados a tomar outro banho por estarmos emporcalhados com a água dos marrecos, e fomos para a cama. Outro, em que poderia ter uns oito anos e residia na Rua Vol. Delmiro Sampaio, 462 e que foi feita uma festa com muitos convidados, acabando sendo mais para os adultos do que para as crianças. Havia mudado-se em um sobrado, em frente de minha casa, uma família muito distinta que também foi convidada: o sobrenome , se não me engano, era Almeida. Madame Rosita era modista e possuía um ateliê de alta costura. Os filhos eram Cíntia, Chunito (este veio a jogar no Esporte Clube São Paulo de Santo Amaro) , Leandro, Janjão, Tuinha e Betinho ( este casou-se com uma jovem, filha do proprietário de uma farmácia). Meu irmão e eu possuíamos uma cadeira carrinho com a qual vivíamos brincando em frente de casa. Um determinado dia os vizinhos nos cercaram no portão e com a maior petulância disseram: "Aquele carrinho é nosso e vocês vão nos entregar já" Meu irmão tentou argumentar com eles sem conseguir resultado nenhum e eu, que estava com uma pequena tábua na mão, só dizia : Me deixe passar! Ficamos naquela disputa pelo espaço de uns cinco minutos, quando eu enfezado com aquele abuso atirei o pedaço de madeira que trazia na mão, acertando a testa do Janjão. Na confusão que estabeleceu-se nós aproveitamos e corremos para dentro. Minha mãe havia saído na janela bem na hora que eu atirei a madeira no Janjão, o que resultou em uma surra para nós dois. O maior problema foi depois, eu não podia mais sair na rua porque o Janjão, que era bem mais forte que eu prometera me pegar. Quando saia olhava bem no campinho onde os moleques jogavam bola, se ele estivesse lá eu não passava. Isso foi até o meu aniversário naquele ano, para o qual a família dos meninos foi convidada mas não levou as crianças, indo só a mãe e a irmã. Uma certa hora os irmãos mandaram-me um recado que se eu levasse alguns doces para eles ele não iria mais me bater. Foi a melhor noticia naquele aniversário, levei os doces e festejamos o armistício. Outro aniversário que me lembro bem foi o de l.950 que passei em grande expectativa. Trabalhava à noite e como todas as pessoas de casa haviam saído, não fui trabalhar, pois torcíamos para que o evento se desse naquele dia e minha esposa não poderia estar sozinha. Mas a cegonha acabou atrasando a entrega e recebemos o nosso primeiro filho no dia 07 de novembro. MINHA MÃE Minha mãe, embora fosse filha de uma negra, herdou os seus traços do seu pai que era de origem portuguesa ; era morena clara, olhos entre o azul e o esverdeado que mudavam de cor de acordo com as circunstâncias; só o seu cabelo marcava a descendência negra, pois eram bem crespos. Ela nasceu no dia 06 de Junho de l.903 no solar dos Pinheiro e ali foi criada, mais por Marinhinha do que pela própria mãe. Quando era pequena, ainda, e como a mãe se recusasse a casar-se, porque já havia enrabichado por outra pessoa, o pai pretendia levar minha mãe para viver com ele. Marinhinha se opôs firmemente e comprometeu-se a cuidar dela, o que fez por toda a sua vida. Minha mãe, embora não pertencesse à família foi criada como se o fosse recebendo uma educação primorosa, de acordo com os recursos da época e do lugar, aprendeu prendas domésticas, música, tocava piano muito bem. Quando era mocinha conheceu um sobrinho do Dr. Oscar Fernandes Martins e por ele apaixonou-se, sendo esse, talvez, o amor de sua vida. Ele desejava casar-se com ela porque também a amava, mas encontraram uma firme oposição da mãe do rapaz que acabou por prevalecer, pondo fim ao romance. Muitos anos depois, inclusive meu pai já havia falecido, por ocasião em que realizava-se uma quermesse, em Santo Amaro, esse personagem (Renato), já envelhecido, apareceu lá e minha tia Laura nos apresentou a ele, dizendo-lhe que éramos filhos de Quita, que era o apelido de minha mãe. Ele contemplou-nos com um olhar triste, que talvez indicasse o seu arrependimento por não ter lutado por aquele amor! Ele também viria a falecer e tempos depois soubemos que um seu filho fazia muito sucesso como ator de novelas de televisão, estando em atividade até o momento. Algum tempo depois viria a conhecer meu pai, que mesmo sendo um rapaz de boa família estava bem aquém daquele primeiro amor. Casaram-se e a partir de sua lua de mel já não encontraram uma afinidade visto que o noivo não teve a delicadeza que sempre é esperada pelas noivas ( isso ela me confidenciaria , em um desabafo) provocando-lhe uma hemorragia quando da primeira relação sexual, perdurando por um largo período o que a desconfortava porque em conversas reservadas com as colegas chegava à conclusão que aquilo era uma anormalidade. Esse primeiro encontro deve ter marcado profundamente o relacionamento que nunca foi harmonioso; por várias vezes meu irmão e eu presenciamos desavenças, embora houvessem ilhas de harmonia quando tudo parecia que transformava-se para viverem um amor verdadeiro. Em uma época, pouco tempo do falecimento de meu pai, foi residir vizinho a nós uma família que fizeram muita amizade com os meus pais. Eram pessoas de educação refinada, o marido que deveria ter aproximadamente a idade de meus pais, tocava piano e freqüentemente o fazia em minha casa, porque eles não tinham o instrumento. Em minha cabeça imaginava que minha mãe era muito influenciada pela delicadeza de tratamento e talvez houvesse, até, se apaixonado pelo vizinho. Quando meu pai faleceu eles já não residiam mais ali mas o Sr. Euclides foi expressar as suas condolências à minha mãe. Ela estava regando as plantas do jardim e continuou, constrangida, e quando ele perguntou quando seria a missa ela disse que não haveria missa, (meu pai nem acreditava nisso por ser adventista); ele despediu-se e percebi, naquele momento, que minha mãe deveria estar travando uma luta dentro dela, entre o desejo, talvez, de estreitar aquele relacionamento e a culpa por sentir esse sentimento. Isso se confirmou, de certa maneira, porque depois de um tempo ela me levou junto quando foi até a casa dele ( ele residia na Vila Helena, em um conjunto de sobradinhos, todos iguais) e introduziu um bilhete por baixo da porta. Ele nunca mais deu noticias e eu fiquei pensando se ele teria encontrado o bilhete, ou se dentre tantos sobrados iguais minha mãe não teria colocado no local errado. Muitos anos depois meu irmão e eu íamos passando em frente ao Mappin e o encontramos, quando ele nos contou que enviuvara, casara-se novamente e transferira-se para o interior do estado onde se impusera pela sua profissão(ele era dentista). Minha mãe ficou viuva aos trinta e cinco anos e depois das decepções que deve ter tido nesses relacionamentos, fechou o seu coração e dedicou-se unicamente ao trabalho que tomava conta de todos os seus momentos pois inclusive residia no colégio adotando aquelas crianças excepcionais como sua família. Quando atingiu sessenta e sete anos aposentou-se mas continuou trabalhando ali até quando o colégio foi desativado por interesse de seu proprietário. Aposentada, mudou-se para um apartamento em Santo Amaro, que o dividia com jovens professoras, até mudar-se para apartamento menor e viver sozinha. Certa vez ela e minha tia Negra resolveram que deveriam ir para um asilo; insistiram até que as levassem em uma instituição evangélica na Estrada de Itapecerica. Estiveram quase a decidir-se a transferirem-se para lá. Depois que lhes fiz a vontade tive uma conversa com elas, se seria, realmente aquilo que elas desejavam, ou se a liberdade que elas tinham, residindo em seus "cantinhos" não era-lhes mais grato. Chegaram à conclusão que deveriam ficar como estavam, e assim ficaram até os últimos dias de suas vidas. Minha mãe residindo sozinha e minha tia com um filho adotivo, Flávio, que é meu afilhado. Ela faleceu no dia 22 de Dezembro de l.989, com mais de oitenta e seis anos de idade. UM ACONTECIMENTO MARCANTE Foi em Julho de l.972, depois de mais um ano de labor intenso, comecei a gozar férias, tudo estava em plena paz, o filho mais velho havia saído de casa e montado um apartamento para, dizia ele, construir a sua vida de acordo com o que aspirava. A filha do meio estava cursando o segundo grau e o caçula estava prestes a terminar o primeiro grau. Como à essa altura já nenhum dos filhos queriam nos fazer companhia, fomos, apenas a esposa e eu para a cidade de Mococa em visita aos meus sogros. Foi uma viajem muito boa! No caminho conversávamos e por coincidência eu havia entrado em um "bolão" da loteria esportiva, que estava acumulada, feito no meu local de trabalho. Ali em nossa conversa aludimos à possibilidade de ganhar aquele prêmio enorme que mesmo tendo que dividir por muitas pessoas seria muito bom para realizarmos coisas que ainda não havíamos conseguido até aquele momento de nossas vidas. Reflexionamos sobre isso e chegamos à conclusão que isso não seria tão importante, pois a felicidade é construída em contato com as pequenas coisas; são acontecimentos simples em nossa vida que podem nos transmitir essa sensação de complementação de todo o nosso ser; é até inexplicável como pessoas que tem tanto não sentem-se felizes enquanto outras que não possuem quase nada vivem em constante sentimento de alegria. Mal sabíamos nós que estávamos bem prestes de vivenciar acontecimentos que nos levariam a espreitar uma pequena nesga de céu azul para podermos sentir, com isso, a plenitude da felicidade! Devemos ter ficado mais ou menos uns dez dias em Mococa e voltamos para retornar à nossa vida rotineira. Pouco tempo após chegarmos em casa o telefone tocou e uma senhora começou uma conversa , dizendo que era mãe de um colega de meu filho e. . . que . . . meu filho . . . estava preso . . . Imaginem só o choque provocado quando pais recebem uma notícia dessa natureza! A primeira idéia que me veio era que não passava de um "trote". Já havíamos sido vítimas dessa brincadeira quando recebemos telefonemas avisando-nos que nossa filha seria seqüestrada. Tudo não passara de ciúmes de uma companheira de curso por causa de namorados. Imediatamente telefonei para um meu colega cujo irmão era delegado de polícia, para que se fosse possível averiguasse a procedência da informação. Algum tempo depois vinha a notícia estarrecedora. Era verdade, ele estava detido no primeiro distrito policial, que àquele tempo funcionava no Palácio Nove de Julho, hoje sede da Prefeitura, por envolvimento com tóxicos. Somente vim a saber dos detalhes posteriormente: A polícia havia sido chamada porque havia uma reunião no apartamento( eram novos amigos que ele arranjara depois que saiu de casa) e faziam muito barulho. Ao invadirem o apartamento alguém deve ter livrado-se de alguns comprimidos de SLD, que foram encontrados pela polícia. Como ele era o responsável pelo apartamento foi detido para responder a um processo inafiançável. Por influência do pai de uma colega dele conseguimos visitá-lo no 1º distrito, aumentando a nossa dor por ver um filho, que havíamos tentado orientar com tantos princípios, submetido àquela situação humilhante! Tudo aquilo nos parecia uma traição que sofremos, sentimo-nos como se tivéssemos sido apunhalados pelas costas! Foi uma longa batalha judicial que transformou as nossas vidas. Não estávamos preparados financeiramente para enfrentar isso e a primeira providência que me veio para tomar seria desfazer o contrato do apartamento porque esse também passaria para a minha responsabilidade. Não conseguimos nem desfazer o contrato nem transferi-lo. Em um gesto desesperado coloquei um anuncio no jornal para vender ou alugar a nossa casa. Felizmente apareceu, em primeiro lugar, quem a alugasse. Entregamos a casa ao inquilino e mudamo-nos para o apartamento, situado na Rua Augusta, e imediatamente coloquei à venda uma pequena casa que possuíamos na praia de Mogangua, para fazermos frente às despesas que se apresentavam. De imediato tivemos de adiantar uma importância para o advogado. Nós não dormíamos mais, trabalhando, correndo de um lado para outro, descuidando até dos outros filhos, porque os pais nesses momentos concentram-se naquele que tem a necessidade mais urgente. Ninguém está preparado para passar por essas situações e principalmente os jovens, ainda imaturos, sentem-se preteridos e cobram mais atenção que naquele momento não nos é possível ministrar. Nesses momentos, quando o nosso espírito está, praticamente no chão, é que devemos demonstrar maior fortaleza, apoiando os que são mais fracos e estão esmorecidos, e eu tentava ser forte para fortalecer aos outros, mas estava a ponto de soçobrar . . . quando no fim do dia entrava no banheiro, com a água caindo sobre o meu corpo, quando ninguém podia me ouvir, aproveitava para descarregar todas as lágrimas que havia retido durante o dia. Foram cinqüenta dias de agonia até conseguirmos o "Habeas Corpus" que o autorizava a responder o processo em liberdade, mas foram meses de espera do julgamento que desgastaram as nossas forças, mas que culminou com a nossa vitória quando o Juiz proferiu a sentença considerando-o inocente e absolvendo-o. Deus permite que determinadas coisas nos aconteçam para que nos acheguemos mais a Ele, haja vista o que ocorreu com o seu amigo Jó, que quando assediado por Satanás mais se chegou ao Criador demonstrando que por mais que o inimigo nos ataque não conseguirá o objetivo de nos desencaminhar de nossos objetivos; também o Rei Davi, quando pecou e a mão de Deus pesou sobre ele, voltou-se para o Pai porque ele é rico em perdoar e grande em misericórdia e nos julga não pelas nossas faltas as quais Ele já pagou doando a vida de sue filho Jesus Cristo, e sim usa de sua imensa misericórdia para conosco, nos buscando sempre até que cheguemos ao conhecimento da verdade. É o que ocorre nesses momentos de dificuldades, nos afugentamos para os braços carinhosos que nos dão apoio e as condições necessárias para que vençamos os obstáculos. Em segundo lugar é o apoio dos amigos. Nesses momentos é que descobrimos quem são os verdadeiros amigos e quantos são apenas conhecidos, que não podem se compadecer das dores de seus semelhantes. Recebemos apoio de muitas pessoas, colegas, vizinhos e também sentimos a ausência de muitas pessoas em quem confiávamos. Um deles chegou a comentar com um colega: "Fiquei com vontade de falar com o Klein, mas sabe como ele é!" E até hoje não tive a oportunidade de saber como é que eu sou, ou como esse amigo me via ! Não me ressenti, por isso, porque compreendo que de fato nesses momentos não sabemos muito o que fazer, se será melhor calar ou falar. Aquela situação que nos parecia, no momento, tão desesperadora, foi ultrapassada embora haja deixado seqüelas. Eu, depois de relaxar aquela pressão que nos acometia passei por um longo período de depressão mas consegui equilibrar-me. Minha esposa, que já possuía problemas com o sistema nervoso, quase necessitou de ser internada, passando por um longo tratamento, para apenas minorar aquela marca de dor, a qual não conseguiu administrar convenientemente. O médico psiquiatra que tratou dela por muito tempo, depois de saber dos acontecimentos que havíamos passado explicou-me que nem todos tem a mesma capacidade de assimilar os desastres emocionais, passando isso a influir em nosso comportamento. Essas anomalias dificilmente serão superadas por essas pessoas. Acresce o fato de que todos nós já somos uma complexidade psicológica, acumulando traumas que vamos recalcando para o nosso interior desde a nossa infância. Eu não sei se vocês acreditam em revelação, mas eu tenho que crer porque por diversas vezes tenho me confrontado com elas cientificando-me de acontecimentos que viriam acontecer. Nesse caso, uns dias antes de eu sair de férias sonhei que lia um jornal em que era estampada uma manchete em letras garrafais : " Complexo Primário" ; lembrei-me que quando criança meu filho mais velho havia sido acometido de um complexo primário pelo contato com o tio que estava contaminado pelo bacilo da koch e deduzi que talvez estivesse havendo algum problema com a saúde dele. No mesmo dia visitei-o em seu apartamento e constatei que estava bem de saúde e que nada me impediria de viajar. Mal sabia eu que a revelação era autêntica e que o problema era de outra natureza como veio a se confirmar. Pena que tenhamos, muitas vezes, revelações e não estejamos preparados para sabermos interpreta-las e evitarmos acontecimentos desagradáveis! Dou graças a Deus porque esse fato foi, também, apenas um complexo primário que nunca mais aconteceu. MEUS AVÓS PATERNOS Há uns quinze anos atrás, visitando uma igreja Adventista em Santo André participei da conversa de um grupo de pastores e um deles ao tomar conhecimento de meu sobrenome disse ter conhecido, na Igreja Adventista de Santo Amaro uma pessoa que talvez fosse minha parente, de nome Ercília ( de fato era minha prima e ocorreu com ela um fato que nunca tivemos uma explicação, jovem, ainda, com duas filhas lindas, suicidou-se, contrariando os princípios que recebera na religião que professava); depois revolvendo a memória me disse, existia, também, muitos anos antes, um senhor, que sempre carregava uma bíblia enorme que tendo sobrenome Klein era mais conhecido como Pedro Cipó. Era o meu avô paterno. Pedro Klein, deve ter vindo da Alemanha ainda criança, junto a uma leva de imigrantes, cujo grupo foi instalado a muitos quilômetros adiante de Santo Amaro em um lugar que passaria a ser denominado "Colônia". Em um lugarejo próximo (Cipó) veio a conhecer uma jovem de descendência índia de nome Vicência Alves tendo com ela consorciado-se dando origem ao tronco de minha família. Tiveram vários filhos dos quais me lembro de Joaquina, que deveria ser a mais velha, Maria, que faleceu quando eu era ainda menino, Amâncio, Jacob, que era meu pai, José, que não cheguei a conhecer, e Paulo, que deveria ser o mais jovem. Não cheguei a conhecer meu avô mas pelas histórias que ouvi, era um devotado crente em Nosso Senhor Jesus Cristo, tendo incutido nos filhos os princípios bíblicos exarados da Palavra de Deus. Ele deve ter convertido-se em tenra idade e nunca abandonou a sua fé, sendo chamado para a gloria do Filho de Deus. Ainda bem próximo de seu falecimento, já com uma idade avançada, ainda carregava o sotaque alemão, fruto de sua convivência com os ancestrais, cuja cultura haveria de ser deturpada pela miscegenação havida no contato com as civilizações locais, entre os quais o principal foi com minha avó Vicência que de origem indígena deveria pertencer a classe dos "feiticeiros", pois tinha como ofício a cura por benzeção. A sua eficiência era conhecida em todo o bairro de Santo Amaro, sendo chamada em todos os lares para usar de sua arte de curar por meio da benzeção, curando de todas as enfermidades ( eu mesmo tive oportunidade de tomar conhecimento de pessoas que a respeitavam por julgarem dever a ela as suas vidas). Ela era uma mulher muito simples sem traquejo social, vivendo arredia, residindo sozinha; quando nós residíamos na Rua São Benedito ela residia em uma pequena casa próximo à nossa depois transferindo-se para outra na Rua Barão do Rio Branco, vizinho ao seu filho Amâncio. Nessa casa costumávamos sempre visitá-la, ocasião em que ela concentrando-se, colocava a sua mão em nossa cabeça, benzendo-nos para que fôssemos resguardados de todo o mal. A sua imagem sempre esteve bem viva em minha lembrança e até cheguei a falar dela em uma de minhas poesias . . . Ali ela viria a falecer já bem avançada em anos. Dois fatos pitorescos ocorreram com essa minha avó: Certa vez minha mãe a acompanhou à Capital ( "cidade" como era chamada) e como era costume naquele tempo, foi convenientemente vestida, inclusive usando chapéu que era indispensável. Na volta minha avó havia comprado uma quantidade de sardinhas fritas, em um bar, e passou a fazer um verdadeiro "Pic-nik" no bonde, oferecendo à minha mãe sob o olhar de todos os passageiros , quase matando minha mãe de vergonha. Outra vez ela participava de um meu aniversário e quando uma jovem passou servindo doces em uma bandeja ela tomou o recipiente de suas mãos e o colocou em seu colo; depois admirada comentou "Não será muito para mim!?!?" São episódios hilariantes mas que revelavam a simplicidade e autenticidade das pessoas! Eu tenho procurado reunir dados de minha ascendência paterna porem isso não se torna fácil quando não temos documentos e dados que facilite a pesquisa. Entretanto, através de contatos na Internet recebi informações de Anderson Klen Rlbeiro (no Klen e Rlbeiro houve erro do cartório pois o seu nome de família é Klein); diz ele: Um primo visitou o museu do imigrante, em São Paulo, e achou várias informações que comprovam algumas histórias passadas oralmente. Os nossos ascendentes vieram da Prússia, um lugar entre a Rússia e a Alemanha de hoje, aparentemente no território russo. Andei perguntando para alguns tios e tenho informações mais precisas: Em 30/12/1.827 chegou ao Brasil um vapor com 90 famílias alemãs; três irmãos Klein estavam entre eles. Doze famílias ficaram em São Paulo e receberam, depois de dois anos, terras devolutas na região de Parelheiros, extremo sul do município de São Paulo, mais precisamente entre Parelheiros e Colônia (nome dado em função da colônia alemã- nesses devia estar incluído meu avô Pedro Klein, que viveu naquela região antes de radicar-se em Santo Amaro). Os descendentes viveram nessa região e ao longo de 150 anos foram explorando, vendendo e comprando terras na região sul de São Paulo (Santo Amaro, Capela do Socorro, Figueira Grande). Hoje, na família, não existem herdeiros com as terras originais; a língua, infelizmente, não foi ensinada aos descendentes; perdemos isso antes mesmo do início deste século vinte. As tradições foram perdidas, o pessoal da colônia "abandonou" seus costumes originais para melhor integrar-se à população local. Um dos irmãos Klein foi para o Rio Grande do Sul instalando-se lá com a colônia, sendo desconhecido o local preciso. Os irmãos perderam o contato completamente. O pessoal do sul manteve as tradições e a língua, pois ficaram isolados. Uma tia encontrou uma pessoa de Porto Alegre que contava a mesma história de seus descendentes, mas também perdera o contato. O terceiro irmão foi para a região de Sorocaba, formando ali um novo ramo da família. Na região sul de São Paulo existe um ramo da família que se desligou do convívio com os parentes havendo se distanciado, sendo que embora pertencentes aos mesmo tronco são desconhecidos entre si. Isso, inclusive tem gerado problemas de homônimos. Sabemos que ocorreram outras imigrações, a grande maioria para a região sul do país, mas desconhecemos se vieram outros membros da mesma família. Existem muitas pessoas e famílias que conhecem muitas histórias mas o pessoal nunca juntou-se para registrarem o que sabem; isso é lamentável, pois com o desaparecimento das pessoas mais idosas os dados se perdem definitivamente. Das famílias da colônia que ficaram na região de Santo Amaro ainda existem remanescentes das famílias Zilling, Shunk, Reimberg e Klein MINHA AVÓ MATERNA Essa a avó (Honorata) que sempre me acompanhou, pois vivíamos todos na mesma casa, o casarão da família Adolfo Pinheiro, em Santo Amaro. Ela era negra, filha de escrava, teve dois "maridos" , um santista rico que desejava casar-se com ela e leva-la para Santos viver com ele, foi pai de minha mãe, Maria de Lourdes Moura, e de minha tia ("Negra") Benedita da Conceição Dias Batista; o outro, que eventualmente ouvi o nome mas não me lembro, era Pai de meu tio ("Negrinho")Benedito de Moura. Ela tinha um gênio forte e personalidade inquebrantável e nunca submeteu-se aos companheiros e sim desejava ter uma vida livre, em que pesassem as dificuldades que atravessasse. Vivia por si mesma, em companhia do filho visto que as filhas já estavam casadas; a sua renda era auferida da confecção de doces e salgados e do fornecimento de alimentação. Em sua casa reinava a liberdade e as portas eram abertas e quem ali chegasse comia e bebia a vontade o que a fazia possuir um largo círculo de amizades. No seu trabalho também não visava enriquecer e sim somente sobreviver, não fazendo questão de coisas materiais, de possuir coisas. Muitas pessoas chegavam a abusar de sua bondade e comiam e bebiam, às vezes por largo período e depois davam o fora sem pagar. Ela dizia, coitado, não tenho raiva dele, que Deus o ajude, porque Ele me ajuda e esse prejuízo que tive receberei em dobro. De fato tinha razão porque a sua casa sempre estava repleta de alimentos. A sua vida era o trabalho, às vezes ir ao bar com alguns conhecidos tomar uma cerveja e jogar conversa fora, mas não passava das imediações de onde residia, pois tinha horror de tomar um "carro de praça", como eram conhecidos os táxis aquele tempo. Meu irmão e eu sempre estávamos a reboque, para "descolarmos" um guaraná. Ela não tinha preconceito, a sua amizade não excluía, negros, brancos, ou prostitutas, todos eram queridos e respeitados. As vezes que ela colocava uma mesa nas quermesses, para vender doces, salgados, quentão e café, muitas vezes presenciei ela chamar pessoas que estavam olhando, sem comprar nada e dizer, coma alguma coisa!. As pessoas diziam não possuir dinheiro para comprar mas ela insistia até que as pessoas se servissem. Quando ela estava com seus noventa e cinco anos foi residir nos fundos da casa de minha tia, mas continuando a sua produção de doces feitas em forno de barro e ela e meu tio saiam com uma cesta para vender o produto do trabalho. Aí minha tia , com medo que ela viesse a se ferir, no fogo, proibiu-a de trabalhar, demolindo o forno em que ela assava os seus quitutes. Daí em diante ela passou a sentir-se inútil e foi definhando até falecer com a idade de cento e um anos. Esse é um erro que geralmente as pessoas cometem com os idosos, julgando que eles já não são úteis e que deverão terminar os dias apenas vegetando, quando ainda poderão produzir muito e sentirem-se participantes do grupo. O potencial que uma pessoa idosa acumulou durante os seus anos de vida é um patrimônio importante que não poderá simplesmente ser jogado fora e sim aproveitado para que através de suas experiências os jovens possam ter um direcionamento que os levará à felicidade. Mesmo que você não seja tocado unicamente pelo egoísmo, que tenha a melhor das intenções, antes de decidir o destino de um ser humano, reflexione se é , de fato, isso que ele deseja. Deixe a cada pessoa resolver sobre o seu destino, simplesmente ajude-o a alcançar os seus objetivos. MEUS TIOS Embora tenha convivido bastante com quase todos os meus tios foram dois que me marcaram bastante, são eles o Tio Amâncio e Tia Benedita, esta que era minha madrinha de batismo e que nem tratava de tia mas simplesmente pelo seu apelido "Negra". Tia Negra era bem filha de Honorata, tinha o mesmo temperamento e sua casa era de portas aberta onde todos entravam e saiam à vontade o que lhe rendia um largo circulo de amizades. Quando eu era bem pequeno fui acometido de uma moléstia e quase morri, ela fez uma promessa à Santa Rita de me levar carregado em uma procissão. O tempo passou, eu cresci e a promessa não foi cumprida e era uma preocupação constante a cada vez que ela me encontrava. Em um determinado dia eu a levei em uma capela de Santa Rita que havia na estrada de Socorro a Interlagos e dei como cumprida a sua promessa para alivio de seu espírito. Meu tio Amâncio, a primeira lembrança que tenho dele foi quando foi ajudar meu pai a levantar um muro em frente de nossa casa; na verdade meu pai é que o ajudava porque era ele o pedreiro. Já no final do trabalho, quando era preparada a grade de madeira meu pai serrava a madeira e saia meio torta e ele dizia: "Sabe qual é o erro do serrador? É a pressa! Meu pai dizia que era, "também" carpinteiro ( porque meu pai andava perseguindo várias oportunidades de trabalho) ao que ele respondia: "Homem de muitos ofícios, senhor de nenhum! Eu sempre guardei comigo essa frase! Eu era bem pequeno, para ver como aquilo que falamos e fazemos servem de exemplo, principalmente para as crianças que passam a nos imitar. Aliás, a educação é processada por imitação. Jamais teremos o direito de contestar os jovens pelos seus desatinos sem antes fazer uma verificação se não fomos nós os causadores de suas atitudes. Meu pai freqüentava a Igreja Adventista de Santo Amaro, não tenho certeza se ele chegou a ser batizado, creio que sim, pois ele fazia questão que nós seguíssemos os seus passos, embora em um casamento misto era difícil trilhar um caminho, visto que minha mãe, sendo de origem católica influía também; cheguei a fazer a primeira comunhão escondido de meu pai que não aceitava isso. A minha situação era difícil! Era meu tio, entretanto, quem era mais arraigado aos princípios oriundo do pai. Era assíduo freqüentador dos cultos em sua igreja e fazia questão de transmitir os ensinos de Cristo para que os seus parentes pudessem tomar uma decisão ao lado de Cristo e poderem gozar das promessas de salvação e de vida eterna. Ele era fiel a Deus, cheguei a presenciar, em seu sitio, que quando algum menino ia comprar umas varas de cana ou um punhado de amendoim, ele separava, de imediato, o dizimo do Senhor. Era, meu tio, o interlocutor da família, procurando a cada um, de tempos em tempos, para que houvesse uma ligação. Pelo menos uma vez por mês, até estar em idade avançada, ia a minha casa e na de todos os sobrinhos, sendo que muitos residiam bem distante. Nessas visitas ele sempre pegava a Bíblia e fazia algum estudo conosco para que nos aproximássemos da Palavra de Deus; orava conosco agradecendo o alimento, dando-nos momentos de paz e inspiração que devem ter influído muito para que, também, tomássemos o caminho que nos levaria a tomar uma decisão ao lado de Cristo. Quando Santo Amaro ainda era um bairro incipiente ele vendeu sua casa situada na Rua Barão do Rio Branco e comprou um sítio na Vila das Belezas, quando naquele lugar não havia praticamente nada. Ali ele prosperou, os filhos casaram-se, o bairro cresceu e o seu sitio ficou rodeado do progresso. Acabou loteando o sitio, ocasião que doou terrenos para os filhos , e não esqueceu-se de sua igreja à qual doou o terreno onde foi construído o templo naquele bairro. Hoje existe uma rua com o seu nome, que já foi dado quando ele ainda em vida. UM EVENTO QUE ME TRÁS RECORDAÇÕES Hoje, Sexta-feira 07 de Agosto de l.998, fui assistir à colação de grau do curso Técnico Textil de meu neto mais velho, Dirceu Cardoso Neto (o nome é do avô paterno). Ele está com dezenove anos e já está cursando a Faculdade de Química do Mackenzie. Foi um evento maravilhoso quando são abordados a esperança e a fé que depositamos nos jovens para que venhamos a alcançar um mundo melhor, onde todos tenham condições de vida digna. Parece-nos que esse sonho está cada vez distanciando-se mais da realidade do dia a dia, em razão das transformações que se operam no mundo, que já não busca a felicidade do homem e sim o acúmulo de riqueza, eliminando as classes intermediárias para que só prevaleçam ricos ou miseráveis. Mas em certa escala o mundo sempre foi assim, pois lembro-me que desde o tempo de criança ouço falar as mesmas coisas de sempre, sobre as dificuldades econômicas e financeiras que não nos proporcionariam esperanças para o futuro; no entanto já estou com quase setenta anos e as coisas nesse tempo decorrido continuaram a acontecer: pessoas se casaram, tiveram filhos, outros estabeleceram-se em diversos ramos do comércio ou da industria, sendo que alguns progrediram, outros fracassaram, mas isso ocorreu não pela situação em si e sim pela capacidade que cada um tem de realização. A própria Bíblia nos revela, através de uma das parábolas de Jesus, que existem capacidades diferentes, e que, os bens deverão ser distribuídos cabendo a maior parte para aqueles que tem maior capacidade e assim através dos meios que lhes são disponíveis poderão proporcionar trabalho aos menos capazes. É assim que a dinâmica social funciona. Mas nesse evento em que meu neto alcança uma etapa maravilhosa, que é a capacitação para exercer condignamente uma profissão, vêm-me a lembrança a época que tinha os meus filhos pequenos e a minha oração a Deus era para que eles pudesse alcançar, ao menos, o que eu alcancei que foi um diploma da quarta série do primeiro grau. Quando minha esposa esperava o nosso primeiro filho, invadiu-me uma profunda preocupação pelo destino dos filhos que haveriam de vir; em conversa com um senhor, companheiro de trabalho, pessoa já bastante vivida, externava essa minha apreensão, ele me dizia: "Seu Klein, educação de filhos, é pedir à Deus!" Eu que não tive a oportunidade de estudar, não pedia mais para meus filhos, e sim apenas aquilo que ele havia dado a mim. Pois Deus foi muito mais fiel do que a minha solicitação dando-lhes, pelo menos, um curso técnico nas mãos para que pudessem desenvolver as suas vidas dentro dos princípios da honradez. Existe uma grandiosidade na transferência de gerações pelos conflitos que geralmente estão latentes entre elas, mas a realidade é que os que já caminharam por um longo período vencendo as barreiras que lhes foram impostas, o fazem pensando nas novas gerações, no desejo de deixar aos seus descendentes algo com o qual possam dar continuidade a uma obra que não pode ser apenas de uma geração. A sociedade é um todo, independente de tempo e espaço e será sempre a soma do esforço de todos os seus participantes que redundará em bem estar para todos. O Rei Davi foi um dos maiores monarcas de todos os tempos, pela sua tenacidade e espírito de luta para alcançar os seus objetivos, preparando uma base segura para que seu filho Salomão o sucedesse no trono; ao ver aproximar-se o seu fim chamou Salomão dizendo-lhe: "Eu vou pelo caminho de toda a terra; esforça-te, pois, e sê homem." E Salomão usando os conselhos ouvidos de seu pai, transformou-se em um dos maiores sábios de todos os tempos, somando os conhecimentos de sua época aos que recebeu como herança da sociedade que o precedeu. Esse será sempre o segredo do sucesso, transformar-se em homem! A criança evolui, recebe os conhecimentos de seus ancestrais engajando-se em novas tecnologias para ultrapassar os que os precederam para no devido tempo assumir a responsabilidade como homens que sabem o que desejam e onde querem chegar; e lá chegarão! Agora, quando essa nova geração, à qual demos origem, já habilita-se para exercer uma profissão, vêm-nos à mente lembranças de momentos que vivemos juntos, enchendo o nosso coração de uma doce saudade acompanhada de muita esperança no futuro, pois aquela criança que há alguns anos atrás conduzíamos para aprender as primeiras letras já transformou-se em homem, avança, transpondo as barreiras do conhecimento para nos ultrapassar, graças à Deus. Sentimos orgulho de vermos que cada geração avança mais para conquistar o seu lugar, transpondo obstáculos, vencendo dificuldades para serem melhores e maiores do que pudemos ser; mais uma vez elevamos o nosso pensamento a Deus louvando o seu nome pela graça e misericórdia que nos concedeu, de assistirmos acontecimentos tão gratos. OS INTOCÁVEIS Corriam os anos de l.945/6, com o término da Segunda guerra mundial as coisa começavam a melhorar, dando-nos oportunidade de respirar, pelo aquecimento da economia, propiciando maior quantidade de emprego. A minha família também equilibrava-se em melhor situação já sobrando alguns trocados até para despesas bastante estravagantes. Eu, trabalhando na Ligth já fora promovido e prestava serviço na Divisão Tranviaria, que cuidava da arrecadação da féria dos bondes camarões. Para quem não alcançou, eram bondes que corriam sobre trilhos e ligados à rede elétrica, o seu nome fora dado por ter a cor vermelha. Esses bondes continham uma caixa arrecadadora no meio do veículo onde ficava o condutor que apenas trocava o dinheiro, sendo o próprio passageiro quem colocava o pagamento da passagem na caixa. As caixas, no fim do dia eram tiradas dos bondes, na "estação", e eram despejadas em grandes sacos de couro, separadas por linha, esses sacos eram transportados em uma espécie de "bonde forte" para a sede da empresa onde a seção de contagem ficava nos porões do prédio, que dava para a Rua Formosa. Ali todo o dinheiro e passes eram separados, contados empacotados para serem guardados no cofre forte e posteriormente serem encaminhados para os bancos. Praticamente trabalhávamos só na parte da manhã nessa contagem, que então ficava pronta, saíamos para almoçar e voltávamos para esperar chegar as quatro horas da tarde quando o sub chefe da Tesouraria descia para recolher o numerário. Nesse período da tarde ficávamos entregues a nós mesmo; uns liam, outros cochilavam, cada um tinha o seu lugar predileto, uns nas cadeiras, outros embaixo das mesas, ainda outros dentro do guarda roupa. Ai surgiam as brincadeiras mais descabidas que se possa imaginar, e a imaginação ainda sem grande ciso dava asas para que se projetasse muitas coisas que a nossa pouca idade não percebia que poderiam ser funestas. Um dos colegas, um dia, apareceu com um revolver; aquilo aguçou a imaginação fértil da garotada e não muito tempo depois cada um tinha dado um jeito de adquirir uma arma A minha era um HO/32, depois substituída por uma automática 6,35. E o que fazíamos com essas armas? O desejo era parecer gente grande, policiais, perseguindo bandidos! Um colega, já com maior idade tinha um carro e em um determinado dia fomos para o Pacaembú e ali naquele lugar ermo, àquele tempo, com o carro em alta velocidade, colocávamos as mãos para fora, disparando as armas, como se estivéssemos em perseguição a bandidos. Talvez de alguma casa tivessem ouvido algum estampido mas nunca houve qualquer reclamação porque naquele tempo poder-se-ia dar tiros na rua sem o perigo de atingir ninguém. MORRE UMA ESPERANÇA Seis de Janeiro de l.939, realiza-se a costumeira quermesse no bairro de Santo Amaro, em louvor a Santo Amaro e São Sebastião, padroeiros do lugar, minha avó Honorata, instala-se com sua mesa para vender os seus quitutes para a grande quantidade de pessoas que ali desembarcam para participarem das festividades; os bondes chegam com pequenos intervalos, trazendo pessoas até em cima de sua estrutura, o Largo Treze de Maio e as ruas adjacentes ficam apinhadas dificultando a locomoção. Tudo é festa e alegria contagiando todas as pessoas que riem e conversam em altas vozes para fazerem-se ouvir, dado o barulho ensurdecedor. Minha avó, que aniversariava nesse dia dá asas a sua alegria tentando premiar-nos com a sua costumeira bondade, dando-nos dinheiro para que fossemos dar uma volta nos cavalinhos. Recuso, porque uma profunda tristeza tomou conta de todo o meu ser e sinto-me abatido sem saber qual a causa daquele abatimento. Decido-me ir para casa, mesmo sabendo que lá não encontraria ninguém, visto que minha mãe, meu irmão também encontravam-se algures participando das alegrias do festival. Meu pai também não estava visto que quinze dias antes partira para cidade distante no intuito de internar-se em um sanatório que lhe ministraria um tratamento para enfermidade adquirida em sua juventude, ou até hereditária; nesse hospital, diziam, seria a cura definitiva para a sífilis que um exame de sangue revelara. Meu tio Amâncio o levara instalando-o e voltou para continuar as suas atividades normais. Passou-se mais uma semana e minha mãe procurou o Dr. Machado que tinha clinica em Santo Amaro e que, como trabalhava no Hospital do Juqueri, ficara de trazer notícias de meu pai. O médico, surpreso, lhe diz: Mas a senhora não foi avisada? O seu marido faleceu a uma semana e já foi sepultado. O choque foi tremendo, deixando-nos em uma situação de abandono, sem saber o que se poderia fazer. E não fizemos nada! E ficou em nosso íntimo a pergunta: O que realmente aconteceu? Nunca soubemos! Uma certeza ficou em minha mente, foi a comunicação que houve no dia de sua morte. Eu senti o que estava acontecendo no dia seis de janeiro! As esperanças, de repente, já não mais existiam enfeitando o nosso futuro. Mesmo que meu pai não houvesse falecido, não sabemos se poderíamos ter tido alguma oportunidade de visualizarmos um futuro promissor, mas nessas circunstancias as coisas transformaram-se para muito pior. Como meu pai, tirando quatro anos que serviu na "Força Pública", só tivera pequenos empregos, sem registro algum, mesmo que estivesse trabalhando em uma firma conceituada como o Frigorifico Alexandre Eder, não teve direito a pensão alguma. Minha mãe, por benesse de uma companheira de infância, que era neta de Adolpho Pinheiro, foi trabalhar como cozinheira. Meu irmão e eu deixamos uma escola particular em que estudávamos, que pertencia a uma outra neta de Adolpho Pinheiro, Umbelina Pinheiro (Lolinha) e ingressamos no Grupo escolar Paulo Eiró, para cursarmos as duas séries que faltavam para completar o curso primário ( equivalente à 4ª série do primeiro grau). Em l.940 recebemos o diploma (único que conseguimos) e passamos a trabalhar para ajudar nas despesas de casa. Assim morria uma esperança. Mesmo que na realidade nem tivéssemos chance de alcançarmos alguma formação, sempre existe o sonho de ser alguém. Daí em diante tivemos que nos dedicar por nós mesmo através da leitura e da prática nos caminhos da adversidade para conseguirmos um lugar ao sol. Em que pese todas as dificuldades que enfrentamos, Deus foi magnânimo conosco criando-nos oportunidades para que pudéssemos construir algo sólido. Conseguimos, assim, formarmos uma família que nos dá muito orgulho. RELIGIÃO O que esse termo nos indica? Crença na existência de forças sobrenaturais, criadoras do universo. Religião, que deriva de religare, seria a religação do ser humano a essas forças sobrenaturais. Religação por que? Porque o homem separou-se de seu Criador! Deus criou o universo e também o homem e o colocou em um lugar maravilhoso para que pudesse desfrutar de uma vida feliz. O homem pecou por desobediência e o resultado disso foi que foi expulso do paraíso, perdendo toda a proteção de seu Criador, tendo que trabalhar a terra para auferir o seu sustento. Não satisfeito com isso, pouco depois, achou-se em posição de igualar-se com o Pai e tentou construir uma torre que alcançasse o céu. Deus, que possui uma visão infinita de todas as coisas já sabia todos os passos que o homem daria e permitiu que ele tentasse redimir-se por si só, quando Ele já havia elaborado um plano perfeito para que o homem fosse salvo. Assim o homem tentou por várias vezes: primeiro por sua inocência, depois pela consciência; pela autoridade; pela promessa; pela lei, tendo fracassado em todas as ocasiões. Deus, depois de tudo isso oferece a oportunidade da graça, através de seu filho Jesus Cristo. Na dispensação da graça não é preciso que o homem faça quase nada porque Deus já fez o principal que foi pagar os nossos pecados através da morte expiatória de seu filho. Ao homem cabe, unicamente aceitar a mediação de Cristo, aceitando-o como seu suficiente Salvador e todos os seus pecados serão apagados, sendo justificado de toda a impiedade. Quando compreendemos isso, e infelizmente às vezes nos é difícil compreender porque olhamos para Deus como um Ser Justo e não como um Pai Misericordioso, passamos a ter a certeza da salvação e da vida eterna. Não é uma presunção nossa por que não foram os nossos méritos que alcançaram a graça e sim o sangue de Cristo, derramado na cruz do calvário pela bondade e grande amor que o Pai dedica aos seus filhos. Para mim não foi fácil entender isso, desejava ardentemente me religar a Deus, mas pensava que para que isso pudesse ocorrer eu precisaria ser puro, o que de maneira nenhuma me parecia possível, então desistia. Deveria existir ai a influência do maligno para que eu não encontrasse o caminho que me conduzisse ao Pai. Mas o Pai não desiste de nenhum de nós, poderemos resistir à ação do Espírito Santo em nossas vidas, desviarmo-nos, mas ele estará sempre concedendo-nos novas oportunidades, até que cheguemos ao conhecimento da verdade. "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (Jo.8:32) Já contei que tive dupla orientação religiosa, Adventista, do ramo evangélico, por parte de meu pai e Católica Romana por parte de minha mãe. Depois do falecimento de meu pai o que prevaleceu foi a orientação Católica. Sempre fui, na realidade um livre pensador, e como sempre gostei de ler; procurava conhecer todas as seitas e filosofias embrenhando-me por caminhos tortuosos que me levaram a não ser nada. Por longo tempo estive afastado da religião, só cumprindo os deveres impostos por ocasião do meu casamento, quando confessei, comunguei e me despedi novamente. Quando os filhos chegaram à idade de receberem orientação religiosa ( no meu entendimento porque isso deve ser ministrado desde a mais tenra idade; existe até uma ilustração de uma pessoa perguntando a um grande homem de Deus quando se deveria iniciar a orientação religiosa de uma criança, tendo ele respondido: "Quatrocentos anos antes". Porque a orientação religiosa é uma coisa que demanda várias gerações, passando de pais para filhos, para que possa tornar-se perfeita) vi-me obrigado a voltar a participar das cerimônias, na igreja católica, para dar exemplo aos filhos. Mesmo como uma obrigação não consegui dar seqüência porque tudo aquilo não me dizia nada. Não que não tivesse fé, possuía em grande profundidade e procurava e encontrava o conforto sempre que os problemas se apresentaram e creio que Deus sempre foi magnânimo comigo, concedendo-me bênçãos sem conta. Deus acabou buscando-me de uma maneira que não esperava. Minha filha, tendo brigado com o namorado, resolveu, juntamente com o caçula, ir continuar os estudos no interior, Mococa, precisamente, por residirem ali os meus sogros. Para ali Deus enviara uma família de São Paulo, Antônio e Enilda Bianconi (eles dariam início à uma congregação da Igreja Evangélica Congregacional, hoje já transformada em igreja), que passaram a dar testemunho na Igreja Presbiteriana e minha filha aceitou a Jesus como seu Salvador pessoal. Esse era o elo que me faltava, pois embora lesse a Bíblia e inclusive já tivesse feito um curso por correspondência, ainda não compreendera a extensão do plano de Deus que não depende de nosso poder mas do sacrifício que Jesus fez. Aliás, não fui só eu que teve dificuldades, Lutero, havia sido instruído em todos os conhecimentos dos pais da igreja e só depois veio a receber a revelação, ao meditar nos ensinos do apóstolo Paulo, da salvação pela graça. Eu, nas oportunidades que havia tido quando menino e ia à igreja com meu pai, e mesmo depois quando estudava na escola a História Sagrada, já poderia citar um texto como minha certidão de nascimento espiritual que era Gn.46:29,30. Meu nome é José e meu pai chamava-se Jacob. Quando certa vez li esse trecho: Então José aprontou o seu carro e subiu ao encontro de Israel ( que é Jacó), seu pai a Gozen. E, mostrando-se-lhe lançou-se ao seu pescoço, e chorou sobre o seu pescoço longo tempo. E Israel disse a José: Morra eu agora, pois já tenho visto o teu rosto, que ainda vives. Naquele momento esse encontro transformou-se como o meu encontro com Deus. Era eu religando-me ao Criador de quem havia me mantido distante, mas nunca esquecido porque o Pai me buscou até me encontrar. Sem violentar a minha vontade e sim fazendo-me entender a verdade. Mas ainda faltava alguma coisinha e isso aconteceu quando eu, em um dia, antes de ir para o trabalho li um trecho que encontra-se em Salmo 32: O Rei Davi, arrependido dos seus pecados derrama a sua alma perante Deus dizendo sentir até os seus ossos moídos; quando chega ao versículo 9 em que Deus fala: "Não sejais como o cavalo ou como a mula, que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabresto e freio; de outra maneira não se sujeitarão." Aquilo foi para mim, e pela primeira vez sentia que Deus havia rompido a minha resistência e eu passava a compreender a misericórdia do Pai, que havia providenciado a salvação para cada uma de suas criaturas, que através de Jesus passavam a ser adotados como filhos legítimos. Ajoelhei . . .ali . . .na sala . . .os olhos marejados de lágrimas e . . . fiz uma oração de entrega de todo o meu ser. Depois disso minha filha reconciliou-se com o namorado, Douglas Nassif Cardoso e pouco depois voltava de Mococa para casar-se, mas não sem antes ter influído, também, na vida daquele que seria o seu esposo. Ele converteu-se ao Senhor e posteriormente cursou o seminário formando-se em Teologia e posteriormente fazendo mestrado, e cursa Doutorado, e tem sido uma bênção na obra de Deus. Hoje com quatro filhos, Dirceu, 21, Timóteo,17, Silas,14, e Priscila 9 anos formam uma família feliz porque todos servem ao Senhor. Meu filho caçula, José Carlos, também tomou a sua decisão junto a Cristo e casou-se